A Sony fugiu das redes por seis dias depois de matar os discos. O post do retorno conseguiu piorar tudo

Após seis dias sumida das redes, a Sony voltou anunciando o FlexStrike e levou 12 mil comentários furiosos em uma hora. A revolta dos discos segue viva.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
7 de julho de 2026 6 min
Tweet de @FakePearBear exigindo a volta da mídia física, com fotos de estantes lotadas de jogos de PS5 e PS3 em caixinha
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A Sony ficou seis dias sem publicar uma linha em nenhuma rede social depois de anunciar o fim da mídia física no PlayStation. Nada no Twitter, nada no Instagram. Na terça-feira (7), a conta oficial voltou a postar como se nada tivesse acontecido: um comercial do FlexStrike, o novo controle arcade sem fio da marca. Em menos de uma hora, o vídeo acumulou mais de 12 mil comentários negativos e quase 4 mil quotes revoltados, segundo o Kotaku.

O calendário explica a fúria. No dia 1º de julho, a empresa confirmou que a produção de discos para jogos novos acaba em janeiro de 2028, com direito a fechamento das lojas digitais do PS3 e do Vita no mesmo pacote, como a gente detalhou no dia do anúncio. A justificativa oficial falava em acompanhar as preferências do consumidor. O consumidor respondeu com petição, cancelamento de PS Plus em protesto e uma deputada federal acionando o governo brasileiro.

Diante disso tudo, a estratégia de comunicação da Sony foi o blecaute. Seis dias de silêncio completo, enquanto os posts antigos da conta eram soterrados por cobranças. Quando finalmente voltou, a empresa escolheu ignorar o assunto por inteiro e partir direto pra propaganda de acessório.

”Mídia física pra sempre, seus covardes”

O retorno foi recebido do jeito que qualquer estagiário de social media teria previsto. “Sem chance de ESSE ser o primeiro tweet que o PlayStation solta depois de seis dias”, escreveu um usuário. Outro foi mais direto: “Mídia física pra sempre, seus covardes”. Teve quem acertasse produto e empresa na mesma tacada: “Fight stick sem fio? Corporação sem coragem, isso sim”. E teve o @TYxki, que respondeu com a foto da própria estante, centenas de jogos de PS4, PS3 e Wii em caixinha, e uma pergunta só: “Meus jogos físicos te assustam?”. Em quatro horas, 20 mil curtidas e 203 mil visualizações.

Tweet de @TYxki perguntando "Do my physical games scare you?" sobre a foto de uma estante abarrotada de jogos de PS4, PS3 e Wii em caixinha
Tweet de @TYxki perguntando "Do my physical games scare you?" sobre a foto de uma estante abarrotada de jogos de PS4, PS3 e Wii em caixinha

A revolta extrapolou as respostas ao vídeo. Colecionadores passaram a postar fotos das próprias estantes, caixinha por caixinha, como o tweet do @FakePearBear que abre este artigo: “Tragam a mídia física de volta, seus covardes! A gente exige!”, com 11 mil curtidas e 155 mil visualizações em quatro horas. Um comentário resumiu o clima geral da base: “Eles acham que a gente vai esquecer fácil, mas não podemos deixar”. A julgar pelo volume de respostas, esquecer está fora de cogitação. A petição pedindo que a Sony volte atrás já passa de 160 mil assinaturas, segundo o Kotaku, e seguia crescendo enquanto o vídeo do controle apanhava.

A empresa que matou o disco voltou vendendo plástico

Ninguém no marketing da Sony parece ter notado a ironia antes de apertar o botão de publicar: o FlexStrike é um objeto físico. Pra quem está de fora da cena de jogos de luta, fight stick é aquele painel com alavanca e botões grandes que imita a cabine de fliperama, o tipo de periférico que você segura, empresta pro amigo do treino e revende quando enjoa. Exatamente tudo que a Sony acabou de decidir que os jogos dela vão deixar de ser.

Depois de uma semana apanhando por encerrar a mídia física, o PlayStation quebrou o silêncio pra vender mídia física. Só que a de plástico, sem jogo dentro.

Os 551 filmes apagados azedaram a conversa antes dela começar

A revolta tem lastro recente. Dias antes do anúncio dos discos, a Sony avisou que vai apagar 551 filmes comprados das contas dos usuários em setembro, sem reembolso, por causa do fim de um acordo com a StudioCanal. O caso virou a prova concreta do que os defensores do físico vinham repetindo há anos: no modelo digital, o botão de comprar entrega uma licença que a loja pode revogar quando quiser. Quem pagou por O Exterminador do Futuro 2 na PlayStation Store sabe disso melhor do que ninguém.

Com esse histórico fresco na memória, pedir que a base confie na transição 100% digital era pedir muito. Fazer isso por meio de um comercial de controle, sem uma palavra sobre a polêmica, foi jogar gasolina na fogueira.

No Brasil, o disco costuma sair mais barato que o digital

Por aqui a discussão tem um agravante que o Twitter americano nem imagina. Levantamentos do canal Games Baratos, compilados pelo Manual dos Games, mostram diferenças expressivas entre o preço do jogo físico em promoção no varejo e o da mesma versão digital na PlayStation Store, onde a Sony define o valor sem concorrência de loja nenhuma. Somando a tradição brasileira de revender e emprestar jogo usado, o fim do disco por aqui significa pagar mais caro por menos direito sobre o produto.

Foi esse o argumento que levou a deputada Erika Hilton (PSOL-SP) a protocolar representação na Senacon, apontando possível violação do Código de Defesa do Consumidor e risco de monopólio da loja digital, caso que a gente acompanhou quando a denúncia foi apresentada. Tem gente indo além do abaixo-assinado: a IGN Brasil relata jogadores trocando seus PS5 por Switch 2 depois do anúncio.

O esclarecimento sobre discos antigos que veio por canal privado

No meio do incêndio, a Sony tentou aparar arestas longe dos holofotes. Num comunicado enviado a desenvolvedores e publishers pelo portal de parceiros, a empresa esclareceu que jogos lançados em disco antes de janeiro de 2028 poderão continuar sendo prensados sob encomenda das publishers, e que o varejo seguirá recebendo caixas de jogos novos, só que com um código de download dentro em vez de disco. Na DADC, a fábrica da Sony que produz a mídia óptica, o CEO Dietmar Tanzer já comunicou a reestruturação a 300 funcionários.

Caixa com código agrada exatamente ninguém: o colecionador fica sem o disco, a loja vira prateleira de papelão caro e o jogo continua preso à conta. Como recuo, resolve zero das críticas. Como sinalização, confirma que a decisão de 2028 está de pé.

O silêncio de seis dias já tinha sido uma escolha ruim. Voltar fingindo que nada aconteceu, empurrando acessório novo pra uma base que está cancelando assinatura em protesto, transforma a crise em estudo de caso pra aula de marketing. A Sony tem um ano e meio pra recalibrar o plano antes de janeiro de 2028. A julgar por quem aprovou esse post, ninguém lá parece com pressa.

Lucas Ferreira
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Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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