Bill Gates vai construir um reator nuclear. O material que resfria o reator explode em contato com água.
A TerraPower de Bill Gates recebeu a primeira licença de construção nuclear dos EUA em quase uma década. O reator usa sódio líquido e pode alimentar 400 mil casas.
A Comissão Reguladora Nuclear dos Estados Unidos (NRC) acaba de conceder à TerraPower, empresa fundada por Bill Gates, a primeira licença de construção de um reator nuclear em quase uma década no país. O reator Natrium, que será erguido em Kemmerer, Wyoming - uma cidade de 2.500 habitantes no meio do nada - usa uma tecnologia que não é exatamente nova: refrigeração a sódio líquido, um conceito testado desde os anos 1950. A diferença é o que a TerraPower fez com esse conceito. E o motivo pelo qual está fazendo.
O que é o Natrium e por que sódio líquido
A maioria das usinas nucleares do mundo usa água pressurizada para resfriar o reator. Funciona, mas tem limitações sérias: a água precisa ser mantida sob pressão altíssima, o que exige estruturas reforçadas e caras, e se o sistema de resfriamento falha, o reator superaquece - foi o que aconteceu em Fukushima em 2011, quando o tsunami destruiu os geradores que mantinham a água circulando.
O Natrium troca a água por sódio líquido. O sódio conduz calor com muito mais eficiência e opera a pressão atmosférica normal, eliminando o risco de explosões por pressão. A desvantagem é que o sódio reage violentamente com água e ar - se vazar e entrar em contato com umidade, pega fogo. O sistema precisa ser completamente selado. É uma troca de engenharia: você remove um risco (pressão extrema) e ganha outro (reatividade química), mas a TerraPower argumenta que o balanço final é favorável porque o sódio nunca entra em contato direto com a turbina de geração de energia.
A potência base do reator é de 345 megawatts - suficiente para abastecer cerca de 275 mil casas. O diferencial está no sistema de armazenamento de energia: o Natrium usa tanques de sal fundido que guardam calor quando a demanda está baixa e liberam quando está alta, podendo elevar a saída para até 500 megawatts por mais de cinco horas e meia. Isso dá ao reator a capacidade de compensar oscilações de fontes renováveis como eólica e solar, que dependem do clima. Em termos práticos, até 400 mil casas abastecidas nos horários de pico.
Os números do projeto
O custo estimado da planta é de até 4 bilhões de dólares. A construção vai empregar cerca de 1.600 trabalhadores no pico e deve levar cinco anos. Quando estiver operando, por volta de 2030, a usina vai manter 250 empregos permanentes, incluindo segurança. O local fica ao lado de uma termelétrica a carvão que está sendo convertida para gás natural - um detalhe que não é coincidência. A infraestrutura de transmissão de energia já existe, e a comunidade local depende economicamente de empregos ligados a energia.

O design do Natrium separa a parte nuclear da parte de geração de energia em duas “ilhas” independentes. Isso reduz a quantidade de materiais especializados necessários, barateia a construção e acelera o cronograma. A ideia é que futuras usinas possam ser construídas mais rápido e por menos dinheiro, usando componentes padronizados - algo que a indústria nuclear tradicional nunca conseguiu fazer direito.
Por que Bill Gates está nessa
Gates fundou a TerraPower em 2008 e é o investidor principal. O timing da aprovação não é acidental: a demanda por energia elétrica nos EUA está explodindo por causa dos data centers que alimentam a inteligência artificial. Microsoft, Google e Amazon estão todos correndo atrás de fontes de energia limpa e confiável para seus servidores, e a nuclear é a candidata óbvia - funciona 24 horas, não depende do clima e tem pegada de carbono mínima.
A Microsoft, empresa que Gates cofundou, já fechou acordo para comprar eletricidade da usina de Three Mile Island - sim, aquela mesma, reativada depois de décadas parada. A lógica é simples: treinar um modelo de IA consome quantidades absurdas de eletricidade, e as renováveis sozinhas não dão conta da demanda constante. A corrida por energia para IA já produziu ideias como data centers dentro de turbinas eólicas no oceano - a nuclear é a versão menos exótica e mais provável de funcionar.
A TerraPower também fechou acordos de capital e fornecimento de eletricidade com empresas de IA, segundo a Axios. O Natrium não é só um experimento de engenharia - é uma aposta de que quem controlar a geração de energia limpa vai controlar a infraestrutura da próxima década de tecnologia.
O que isso significa pro Brasil
O Brasil opera duas usinas nucleares em Angra dos Reis - Angra 1 e Angra 2 - com capacidade combinada de cerca de 2 gigawatts. Angra 3, paralisada desde 2015, foi retomada em 2022 e tem previsão de operar em 2031 com 1.405 megawatts. Cenários da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que o país precisaria chegar a 8 a 10 gigawatts de capacidade nuclear até 2050, o que significaria construir entre seis e oito novas usinas.
O ministro de Minas e Energia defendeu recentemente o uso de reatores modulares pequenos na região amazônica para substituir termelétricas a diesel em comunidades isoladas. Se essa ideia avançar, tecnologias como o Natrium - ou seus concorrentes, como os reatores da NuScale e da X-energy - seriam candidatas naturais. O problema é que o Brasil não tem regulação atualizada para reatores de quarta geração, e adaptar o arcabouço legal leva anos.
A aprovação da NRC americana é relevante porque serve de precedente regulatório. Quando o primeiro Natrium estiver funcionando, outros países vão ter dados reais de operação para basear suas próprias decisões. E o Brasil, que já domina o ciclo do urânio e tem reservas significativas do mineral, estaria numa posição privilegiada para adotar a tecnologia - se decidir investir antes que a janela se feche.
Bruno Silva
Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
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