Ele postou um vídeo do jogo que estava fazendo. A IA copiou e lançou antes dele terminar
Dev japonês mostrou progresso do Typing Magician no YouTube. Um clone feito por IA foi lançado antes do original, com 30 mil visualizações.
Um desenvolvedor indie japonês chamado Kamaboko estava construindo um jogo de digitação chamado Typing Magician. Roguelike, tower defense, você digita pra lançar feitiços e derrotar inimigos. Ele estava trabalhando no projeto faz um mês e, como muitos devs independentes fazem, postou um vídeo no YouTube mostrando o progresso. Era 26 de fevereiro. Seis dias depois, alguém pegou aquele vídeo, alimentou uma IA generativa com ele e com o manual do jogo, e lançou um clone com o mesmo nome na mesma plataforma. O jogo indie copiado por IA chegou antes do original.
O clone apareceu no dia 4 de março no Unityroom, uma plataforma japonesa de jogos gratuitos onde o Typing Magician original também seria publicado. Acumulou mais de 30 mil visualizações em poucos dias e apareceu na seção de “novos lançamentos populares”. O criador do clone, usando o nome “Kamaboko Kosatsu Kosatsu” (uma variação proposital do nome do desenvolvedor original), admitiu que usou IA pra gerar tudo. Disse que levou duas horas. Duas horas pra copiar um mês de trabalho.
E a justificativa é a parte que mais dói.
O criador do clone disse que era “vingança” porque Kamaboko tinha feito anteriormente um fangame misturando Palworld com Pokémon usando assets oficiais das duas franquias. A lógica: se você usou assets de outro projeto, eu tenho direito moral de clonar o seu jogo inteiro com IA. Completou dizendo que “ideias não têm copyright” e que “desenvolver jogos é incrivelmente fácil”, comparando o trabalho a “um emprego em loja de conveniência.”
Kamaboko confirmou o plágio num vídeo de resposta no YouTube. O clone continuava no ar no Unityroom até meados de março.
A reação da comunidade indie japonesa foi de desespero aberto. Um desenvolvedor disse: “quando você divulga um projeto num estágio tão inicial, acaba sendo roubado assim.” Outro resumiu o sentimento de forma mais direta: “só consigo sentir desespero.”
E essa é a parte que me preocupa de verdade.
Compartilhar o progresso de desenvolvimento é uma das ferramentas mais importantes que um dev indie tem. Mostrar o jogo em construção no YouTube, no Twitter, no TikTok, cria comunidade, gera interesse, atrai wishlist. É como muitos jogos pequenos encontram seu público antes de ter um centavo pra marketing. Agora imagina que cada vídeo de devlog pode virar matéria-prima pra um clone de IA que vai chegar à loja antes de você. O que acontece com a cena indie quando mostrar o trabalho deixa de ser marketing e vira vulnerabilidade?
O caso do Typing Magician não é isolado. A TechSpot reportou que uma ideia de jogo indie viralizou recentemente e clones feitos com IA apareceram em horas. No Roblox, segundo a Windows Central, o problema de “AI slop” copiando jogos populares já virou epidemia. A velocidade com que ferramentas generativas conseguem replicar conceitos torna qualquer projeto público um alvo potencial.
A defesa do criador do clone é reveladora por ser tão casual. “Desenvolver jogos é incrivelmente fácil.” Duas horas. O que ele fez em duas horas não foi desenvolver um jogo. Foi alimentar uma máquina com o trabalho de outra pessoa e apertar um botão. A diferença entre essas duas coisas é exatamente o que está em jogo quando falamos de IA generativa e criação: a ferramenta não cria. Ela recombina o que alguém já criou.
O Unityroom não removeu o clone até onde se sabe. Vários devs japoneses criticaram a plataforma por não ter restrições contra conteúdo gerado por IA. É o tipo de problema que plataformas vão ter que resolver antes que desenvolvedores simplesmente parem de publicar nelas.
Kamaboko queria fazer “o jogo de digitação mais divertido do mundo.” Estava trabalhando nisso com cuidado, no ritmo que um desenvolvedor solo consegue manter. E agora divide espaço na mesma plataforma com uma cópia de duas horas que carrega o nome dele de forma distorcida. A comunidade indie japonesa está olhando pra esse caso como um aviso. Pro resto do mundo, a pergunta é se alguém está prestando atenção.
Marina Costa
Entusiasta de tech e indie games
Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.
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