O novo jogo do estúdio que destruiu Disco Elysium chega em maio. A demo calou muita gente
Zero Parades: For Dead Spies, o novo RPG da ZA/UM, chega dia 21 de maio no PC. A demo no Steam Next Fest convenceu até quem jurou boicote.
Eu estava preparada pra não gostar. Quando a ZA/UM anunciou Zero Parades: For Dead Spies como seu novo RPG depois de tudo que aconteceu com Disco Elysium, meu instinto foi desconfiar. Desconfiar da empresa, do jogo, da audácia de tentar repetir algo que dependia tão profundamente das pessoas que eles mesmos expulsaram. A demo no Steam Next Fest me fez engolir boa parte dessa desconfiança. Não toda. Mas boa parte.
O jogo tem data: 21 de maio no PC, via Steam, Epic Games Store e GOG. Já vem com selo Steam Deck Verified pra quem joga no portátil. A versão de PS5 vem depois, sem data definida. A demo ainda está disponível até 13 de abril.
O elefante na sala
Não dá pra falar de Zero Parades sem falar do que aconteceu com Disco Elysium. Em 2021, Robert Kurvitz (o criador e escritor principal), a roteirista Helen Hindpere e o diretor de arte Aleksander Rostov foram retirados da ZA/UM. Não pediram pra sair. Foram empurrados pra fora num processo que envolve acusações de fraude corporativa, mudança de controle acionário e uma sequência de eventos que parece roteiro de thriller político.
O resumo: Ilmar Kompus, executivo e acionista, teria comprado rascunhos de Disco Elysium 2 por uma libra esterlina e revendido de volta à empresa por 4,8 milhões de euros, usando esse dinheiro pra obter controle majoritário do estúdio. A ZA/UM negou tudo e acusou os fundadores de gestão tóxica. A sequência de Disco Elysium, que estava em desenvolvimento com o codinome Y12, foi cancelada.
As pessoas que fizeram Disco Elysium ser Disco Elysium não trabalham mais na ZA/UM. Esse é o contexto inescapável de Zero Parades.
O que é Zero Parades, afinal
Você joga como Hershel Wilk, codinome CASCADE, uma espiã brilhante e destruída que trabalha pro Superbloco, uma aliança de nações comunistas em guerra fria contra La Luz, uma superpotência tecnofascista. Cinco anos atrás, a missão de Hershel em Portofiro acabou em desastre: sua rede de contatos foi exposta, anos de trabalho evaporaram, e ela foi exilada pro “Freezer” como punição. Agora ela volta pra mesma cidade, reativada pra uma última missão.
A história soa como espionagem, mas funciona como autoanálise. Disco Elysium colocava você na pele de um detetive destruído investigando um crime enquanto investigava a si mesmo. Zero Parades faz algo parecido com uma espiã destruída voltando ao lugar que a destruiu. O cenário muda, mas a estrutura emocional é familiar.
O jogo é um RPG isométrico focado em diálogos, com checagens de dados que determinam o sucesso das suas ações. O sistema de Condicionamento funciona como evolução do Gabinete de Pensamentos de Disco Elysium: conforme você explora Portofiro, encontra Pensamentos que podem ser reforçados pra alterar suas habilidades e abrir novas formas de interagir com o mundo. Tem também o botão Exert, que permite forçar a sorte adicionando um dado extra nas checagens, arriscando mais pra ganhar vantagem. Falhou? O jogo segue adiante de qualquer jeito, com consequências.
A demo que mudou a conversa
Quando a demo chegou no Steam Next Fest, a expectativa era morna. Muita gente jurou que não ia jogar nada da ZA/UM por princípio. A impressão geral depois de duas horas de jogo? A GamesRadar resumiu bem: “me senti um idiota por ter duvidado”.
A demo abre uma fatia generosa de Portofiro, com duas missões principais e atividades paralelas que se cruzam de formas que recompensam a exploração. O texto é denso, cheio de personalidade, com aquela qualidade estranha e encantadora que fez Disco Elysium virar culto. Você debate formatos de música, negocia espadas de anime, sofre pressões psicológicas como ansiedade, fadiga e delírio que alteram como o mundo reage a você.
A escrita é boa. Inesperadamente boa, considerando quem não está mais lá.
O que falta pro Brasil
O jogo custa 39,99 dólares nos Estados Unidos. No lançamento, Zero Parades terá voice acting completo em inglês e tradução em texto pra inglês, alemão, espanhol latino-americano, russo e chinês simplificado. Português brasileiro está confirmado, mas só chega numa atualização posterior, junto com francês, italiano, coreano, turco e mais.
Pra um RPG que vive e morre pela qualidade do texto, jogar sem tradução é pedir muito de quem não tem inglês fluente. O ideal é esperar a localização, mas quem tem familiaridade com o idioma pode encarar a demo agora e tirar suas próprias conclusões. Ela está no ar até 13 de abril.
A pergunta que fica
Zero Parades precisa lidar com uma coisa que poucos jogos enfrentam: provar que existe sem as pessoas que deveriam ter feito ele. Kurvitz, Hindpere e Rostov estão trabalhando em projetos próprios. A ZA/UM seguiu em frente com quem ficou. E o jogo que saiu dessa equipe nova, pelo menos na demo, é surpreendentemente bom.
Isso não apaga o que aconteceu. Não resolve a questão moral de dar dinheiro a um estúdio que tratou seus fundadores daquele jeito. Mas ignora o jogo em si também não resolve nada. Zero Parades existe, chega em maio, e pela demo, merece pelo menos que você teste antes de decidir.
A demo é gratuita. A decisão é sua.
Marina Costa
Entusiasta de tech e indie games
Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.
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