A Anthropic gastou 80 das 261 páginas do prospecto de IPO listando riscos, a extinção da humanidade entre eles. E quer valer US$ 2 trilhões

O prospecto vazado mostra receita de US$ 4,6 bilhões, prejuízo de US$ 42 bilhões em 2025 e modelos que tentam resistir ao desligamento.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
30 de setembro de 2026 6 min
Celular com o logotipo da Anthropic na tela, apoiado sobre o teclado de um notebook iluminado por luz roxa
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Oitenta páginas é o espaço que o prospecto do IPO da Anthropic reserva para explicar ao investidor tudo que pode dar errado com o dinheiro dele. O documento inteiro tem 261. A descrição do negócio, a parte que conta o que a empresa vende e para quem, ocupa perto de 48, segundo a CNN Brasil. No meio da lista de riscos está a possibilidade de os modelos da empresa representarem “riscos catastróficos ou existenciais para a humanidade”.

A empresa que escreveu isso quer estrear na bolsa valendo mais de US$ 2 trilhões.

O documento ainda não foi divulgado oficialmente. A Reuters conseguiu uma cópia, e os números se espalharam entre domingo (28) e segunda (29) pelo TechCrunch, pela Fortune e pelo resto da imprensa financeira americana. A abertura de capital deve sair depois das eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro.

Pra que serve a seção de riscos de um prospecto

Quando uma empresa abre capital, ela passa a vender pedaços de si mesma para qualquer um na bolsa. Antes disso, a lei americana obriga a entregar o prospecto, um documento com as contas e com tudo que a diretoria sabe que pode derrubar o preço da ação. Se um risco conhecido fica de fora e depois acontece, o acionista processa. Por isso essa seção é sempre longa, chata e cheia de hipótese improvável. Todo prospecto tem “podemos perder clientes” e “um ataque hacker pode nos prejudicar”.

Segundo o TechCrunch, é a primeira vez que um documento enviado à SEC, a CVM americana, fala em risco existencial para a humanidade.

No prospecto da SpaceX, os riscos ocupam cerca de 38 das 277 páginas. Nem ela, que explode foguete em teste, precisou de tanto espaço.

Chantagem, desligamento e o modelo que percebe o teste

O prospecto descreve, com as palavras da própria Anthropic, o que os modelos já fizeram ou podem fazer:

  • Autopreservação: tentativas de “resistir ao desligamento”.
  • Manipulação: tentativas de “ocultar ou manipular informações”.
  • Chantagem: ações “parecidas com chantagem”.
  • Autoaperfeiçoamento: o risco de uma “explosão de inteligência”, quando a IA passa a melhorar o próprio código sem que ninguém controle o ritmo.

Mais incômodo é o trecho em que a empresa admite que a possibilidade de os modelos perceberem que estão sendo avaliados é uma “limitação séria” para medir se eles são seguros. Traduzindo: o modelo pode perceber que está sendo testado e se comportar bem só durante a prova. É o aluno que fica quietinho enquanto a professora está na sala, só que a Anthropic não tem como saber o que o aluno faz quando a professora sai.

O documento chega três semanas depois de o pesquisador Jacob Coxon sair da empresa por preocupação com segurança. Evan Hubinger, que lidera a área de alinhamento da Anthropic (o trabalho de garantir que a IA faça o que a gente quer), respondeu à saída dele dizendo que a empresa acredita “de verdade” que a IA pode matar todo mundo e estimou a chance em mais de 10% na próxima década. Ele mesmo ressalvou que o relatório de risco mais recente da empresa classifica como “baixo” o perigo dos modelos atuais. O medo dele é com o que vem depois.

As contas da Anthropic em 2025 e 2026

Os números que a Reuters viu:

  • Receita em 2025: US$ 4,6 bilhões, 12 vezes a de 2024.
  • Prejuízo operacional em 2025: US$ 8,06 bilhões, contra US$ 2,98 bilhões em 2024.
  • Prejuízo líquido em 2025: US$ 42 bilhões.
  • Gasto com computação em 2025: US$ 7,33 bilhões, o triplo de 2024.
  • Compromissos futuros com nuvem e infraestrutura: US$ 518 bilhões.
  • Caixa no fim de 2025: US$ 20,28 bilhões.
  • Receita no segundo trimestre de 2026: US$ 11,5 bilhões, com lucro operacional ajustado pelo segundo trimestre seguido.

Em um só trimestre de 2026, a empresa faturou duas vezes e meia o que faturou em 2025 inteiro. É crescimento de verdade. Só que o lucro vem com a palavra “ajustado”, que é a conta em que a empresa escolhe quais despesas deixa de fora. E a distância entre os US$ 8 bilhões de prejuízo operacional e os US$ 42 bilhões de prejuízo líquido ainda não tem explicação nas reportagens. A Fortune ressalva que faltam muitos detalhes.

A conta que eu faria antes de comprar uma ação: os compromissos de US$ 518 bilhões com infraestrutura são mais de 25 vezes o caixa que a empresa tinha no fim do ano passado. Quase um quarto da receita de 2025 veio de dois clientes, que ninguém identificou, e muitos dos grandes clientes não têm contrato de longo prazo. A avaliação de US$ 2 trilhões é mais que o dobro dos US$ 965 bilhões que a empresa valia em maio.

Duas leituras para o aviso de fim do mundo

A leitura cínica é jurídica. Se um dia um modelo da Anthropic fizer estrago grande, a empresa aponta a página do prospecto em que avisou. Nenhum acionista vai poder dizer que foi enganado.

A segunda leitura é de marketing, e é a que mais me faz desconfiar. “Nosso produto é tão poderoso que pode acabar com o mundo” é o argumento de venda preferido do Vale do Silício, porque quanto mais perigosa a IA parece, mais valiosa ela parece também. Em junho, a própria Anthropic avisou que a nova geração de modelos estava ficando perigosa demais e, dias depois, liberou o Claude Fable 5 de graça por tempo limitado. Em junho, pelo menos, o medo e o lançamento vieram juntos.

Nenhuma das duas leituras apaga o fato de que o uso indevido já aconteceu. Este mês, a Anthropic publicou que um grupo russo usou o Claude Code para programar um enxame de drones kamikaze que escolhe o alvo sozinho. Material para encher 80 páginas de risco não falta.

A ação e a assinatura do Claude no Brasil

Para o brasileiro, o IPO da Anthropic chega por dois caminhos. O primeiro é a ação: quem quiser comprar vai precisar de corretora com acesso à bolsa americana, e pagar câmbio no meio do caminho. O segundo é a assinatura. O Claude Pro custa US$ 20 por mês nos EUA e cerca de R$ 103 mais IOF aqui, segundo a Exame. Uma parte desse dinheiro vai para a conta dos US$ 518 bilhões.

Até agora, quem bancava o risco eram os investidores privados e os fornecedores da Anthropic. Depois de novembro, ele passa a ser de qualquer um com conta em corretora. O risco existencial está no prospecto, com número de página. O lucro, por enquanto, só aparece na versão ajustada.

Lucas Ferreira
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Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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