Assassinos, extorsionários e sociopatas: ator de Sopranos diz que os mafiosos da série seriam trumpistas

Michael Imperioli disse que os mafiosos de Sopranos seriam trumpistas. O criador da série disse que Tony acharia Trump um trouxa. Os dois têm razão.

Sicko
Sicko Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
24 de fevereiro de 2026 6 min
Tony Soprano (James Gandolfini) em cena de The Sopranos
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Michael Imperioli disse, numa entrevista ao The Independent, que os personagens de The Sopranos seriam trumpistas se a série fosse feita hoje. A frase é quase tautológica - assassinos, extorsionários e sociopatas se alinhariam com o discurso mais confortável para assassinos, extorsionários e sociopatas - e é justamente a tautologia que deveria incomodar, porque ninguém deveria precisar que Christopher Moltisanti confirme aquilo que a série já mostrava em 1999 com uma precisão que nenhum artigo de opinião jamais alcançou.

O interessante não é a declaração. É o que ela revela sobre o modo como ainda consumimos The Sopranos quase três décadas depois. Continuamos tratando a série como objeto de entretenimento sofisticado e pedindo aos atores que traduzam em linguagem de manchete aquilo que David Chase já havia formulado em linguagem dramática com uma complexidade infinitamente superior. Imperioli não está dizendo nada que a série não tenha dito. Ele está simplificando. E nós agradecemos a simplificação porque a versão original - a que está nos episódios - exige um tipo de atenção que a maioria das pessoas reserva para situações de emergência.

A versão original é esta: The Sopranos não é uma série sobre a máfia. É uma série sobre o que acontece com a identidade de um grupo quando o sofrimento que fundou essa identidade deixa de existir materialmente mas precisa continuar existindo SIMBOLICAMENTE para que o grupo não se dissolva. Tony Soprano chora na terapia por causa de patos. Não porque perdeu patos. Porque perdeu a capacidade de sentir alguma coisa que não fosse mediada por uma performance de si mesmo tão antiga e tão total que já não se distinguia mais do self. A terapia inteira - seis temporadas, Dr. Melfi, a poltrona, o silêncio, as tentativas - é o retrato clínico de um homem que procura dentro de si algo que nunca esteve lá: uma interioridade genuína que justifique a brutalidade exterior. Ele quer acreditar que mata por alguma razão que não seja simplesmente porque o sistema permite e porque ele é capaz. E não encontra. Seis temporadas. Não encontra.

Isso é central. Porque o mecanismo que impede Tony de se conhecer é o MESMO mecanismo que impediria os personagens de reconciliar sua origem imigrante com o apoio a políticas anti-imigração. Imperioli tocou nisso quase sem querer: “Esses personagens são todos imigrantes, mas muitos deles seriam provavelmente apoiadores de Trump. Então como eles reconciliam essas coisas?” A resposta é que não reconciliam. E a impossibilidade da reconciliação não é um bug. É um MODO DE FUNCIONAMENTO.

Christopher Moltisanti (Michael Imperioli) em cena de The Sopranos

A psicologia da assimilação opera por um mecanismo que a psicanálise descreve há décadas mas que o senso comum prefere chamar de hipocrisia. O grupo que acabou de ser aceito - como branco, como americano, como legítimo - se torna o guardião mais violento das fronteiras que quase o excluíram. Imperioli lembrou que muitos dos imigrantes italianos eram indocumentados, as mesmas pessoas que o discurso trumpista quer hoje deportar e desumanizar. Isso não acontece por hipocrisia. Acontece por necessidade ESTRUTURAL de preservação identitária. Se a fronteira desaparece, a travessia perde o valor. Se qualquer um pode entrar, o sofrimento que você suportou para estar ali se torna gratuito, retroativamente absurdo, destituído de narrativa compensatória. A identidade inteira se desmorona. A solução psíquica é fechar a porta. Trancar. Votar em quem promete construir um muro. Não para proteger o país. Para proteger a ficção de que a sua entrada SIGNIFICOU alguma coisa.

The Sopranos mostrava isso sem nunca precisar articular em discurso. Os personagens viviam vidas completamente americanas - McMansões em New Jersey, SUVs, Prozac, terapia de casal, filhos em universidades caras - enquanto performavam uma italianidade que não existia mais fora da própria performance. O episódio “Christopher” (temporada 4, episódio 3) é o caso clínico mais limpo: os mesmos sujeitos que matam, extorquem e traficam protestam indignados contra a representação negativa dos ítalo-americanos na cultura popular. A cena é cômica. Mas é também um dos registros mais fiéis de dissociação coletiva já filmados. O tipo de dissonância cognitiva que, em escala individual, geraria um encaminhamento psiquiátrico. Em escala cultural, vira identidade de grupo. Vira bandeira. Vira comício.

David Chase, o criador da série, ofereceu em 2019 uma leitura complementar à Newsweek que ilumina outra camada. Para Chase, Tony acharia Trump “penny-ante” - um trouxa de pouca monta. “He would think the guy was full of shit.” E isso é psicologicamente preciso: Tony operava no registro do CONCRETO. Gerenciava territórios. Administrava uma organização onde a palavra dada era garantida pela possibilidade real da morte. Trump, para Tony, seria barulho semiótico. Um vendedor de afetos que nunca precisou impor nada porque nunca administrou nada que sangrasse. Mas Chase acrescentou que A.J., o filho de Tony, seria parceiro de Stephen Miller - o conselheiro sênior de Trump, arquiteto das políticas de imigração mais agressivas dos últimos cinquenta anos, o sujeito que transformou xenofobia difusa em procedimento administrativo. E aqui o diagnóstico ganha profundidade geracional: o patriarca que construiu com violência real despreza o simulacro. O filho que cresceu no conforto da violência alheia, sem jamais testemunhá-la, se encaixa na máquina retórica como peça nativa. A.J. não opera no real. Opera no RESSENTIMENTO. E o ressentimento é o combustível mais eficiente que a política contemporânea já encontrou.

São duas estruturas psíquicas diante do mesmo estímulo, e a série as diagnosticou as duas. Tony - narcisista funcional, testagem de realidade preservada, desprezo genuíno por qualquer coisa performática. E os outros: os Paulie Walnuts, os Silvio Dante, os Christopher Moltisantis. Soldados. Executores. Gente que precisa de hierarquia para funcionar e de identificação para existir. A distância entre obedecer Tony Soprano num porão de sapataria e seguir instruções emocionais de um comício em estádio é menor do que qualquer um gostaria de admitir. A mesma entrega de autonomia em troca de pertencimento. A mesma terceirização do Superego para uma figura que promete, implicitamente, que você não precisa pensar se continuar obedecendo.

Já vimos o espelho disso em Fallout temporada 2, onde a distopia ficou tão colada na realidade que o próprio elenco ficou perturbado. Mas The Sopranos não precisaria de bombas atômicas. Bastaria um boné vermelho.

O que nenhum dos dois disse - talvez porque não caiba numa entrevista, talvez porque a série já disse por eles - é que o problema nunca foi de alinhamento político. É de ARQUITETURA PSÍQUICA. O mesmo aparelho mental que permite a Tony chorar por patos e mandar matar um amigo de infância na mesma semana é o que permite a um neto de imigrantes indocumentados votar na criminalização da imigração indocumentada. A coerência nunca foi requisito. O que importa é a posição. Estar do lado certo da divisão. E o lado certo, nesse cálculo, é sempre o de quem já entrou.

Tony Soprano não votaria em Trump. Tony Soprano não vota. Ele é o sistema que produz os eleitores.

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