Audree Heine morreu aos 13 anos. A Roblox diz que ela abriu mão de processar a empresa quando tinha 8

Dezenove dos 28 aceites que a empresa contabiliza são compras de Robux feitas por uma criança. No Brasil, o CDC derruba esse argumento em uma linha.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
22 de agosto de 2026 6 min
Grupo de avatares do Roblox lado a lado, incluindo um personagem com cabeça de caixa de papelão e uma pirata ruiva
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Vinte e oito. É quantas vezes os advogados da Roblox alegam que Audree Heine concordou com os termos de uso da plataforma. A conta aparece numa petição federal nos Estados Unidos e sustenta um pedido só: tirar do tribunal o processo por morte movido pela mãe dela. A primeira dessas 28 vezes foi quando Audree tinha 8 anos. A última, pouco antes de ela morrer, em dezembro de 2024, uma semana depois de completar 13.

A quebra desses 28 é o que me tirou do sério. Uma delas é a criação da conta. Seis são atualizações dos termos que a empresa empurrou ao longo dos anos. Duas são resgates de gift card. As outras dezenove são compras de Robux, a moeda virtual da plataforma, aquela que você paga com dinheiro de verdade pra dar chapéu novo pro avatar. Cada compra feita por uma criança virou, na planilha do jurídico, uma assinatura de contrato.

Robux é vendido no Brasil com Pix na tela de pagamento. O pacote de entrada, 500 Robux, sai por R$ 29,90 no site oficial. É a compra que o filho faz no celular enquanto você lava a louça. Pela tese da defesa, cada uma dessas telas é manifestação de vontade juridicamente válida de alguém que ainda estava aprendendo a dividir.

“A Roblox deixou os Termos claros e Audree manifestou seu consentimento repetidamente”, diz a petição.

O que a Roblox quer com a palavra arbitragem

O pedido da empresa é de arbitragem. Arbitragem tira a disputa do Judiciário e entrega pra um árbitro privado, contratado pelas partes, sem júri, sem plateia e sem sentença pública. É por isso que termos de uso americanos vêm recheados de cláusula arbitral: ela mata ação coletiva e mantém o caso longe de doze jurados que podem se comover com uma mãe contando o que aconteceu com a filha.

Jaimee Seitz entrou com a ação em outubro de 2025, alegando que a filha foi exposta a influências violentas na plataforma mesmo com o controle parental configurado. A resposta dela ao argumento da empresa foi direta: “Ela era uma criança. Ela não entendia arbitragem. Ela não entendia contratos”. Discord e TikTok também são réus, e o Discord entrou com a mesma tese de que a menina abriu mão do direito de processar.

Na época em que Audree criou a conta, o Roblox nem pedia e-mail ou telefone pra validar quem estava do outro lado. A empresa não sabia quem era aquela pessoa, mas sabe dizer que aquela pessoa consentiu 28 vezes.

A empresa quer sua cara pra liberar o chat e o clique de uma criança pra fechar processo

Desde 7 de janeiro, o Roblox exige verificação facial de idade pra liberar o chat e separa a base em faixas etárias (menos de 9, 9 a 12, 13 a 15, 16 a 17, 18 a 20, 21 ou mais), limitando quem conversa com quem. A verificação por IA deu problema desde os primeiros dias, com adulto sendo classificado como criança e vice-versa. O Discord seguiu o mesmo caminho e passou a pedir reconhecimento facial ou documento pra provar que você é adulto, meses depois de vazar 70 mil documentos de usuários.

Repara na assimetria. Pra liberar um chat, a idade que você declara não vale nada e a empresa quer sua cara. Pra derrubar um processo por morte, o clique de uma criança de 8 anos vira contrato de adesão perfeito e acabado. As duas posições saem do mesmo departamento jurídico, no mesmo ano.

No Brasil essa tese morre cedo. O Código de Defesa do Consumidor considera nula a cláusula que impõe arbitragem compulsória em contrato de adesão (artigo 51, inciso VII), e o STJ já firmou que basta o consumidor entrar na Justiça pra afastar a cláusula. Some o ECA Digital, a Lei 15.211/2025, que entrou em vigor em 17 de março deste ano e exige verificação efetiva de idade no lugar da autodeclaração. Quem descumprir pega advertência, multa de até 10% do faturamento da empresa no Brasil limitada a R$ 50 milhões por infração, e, em caso grave e com decisão judicial, suspensão das atividades no país. A fiscalização é da ANPD, que estima começar a cobrar as regras de verificação etária só em 2027. Lei nova com prazo elástico é o esporte nacional, e a França resolveu ir por outro caminho ao banir rede social para menores de 15 anos.

A molecada, diga-se, recebeu tudo isso muito mal. Em janeiro rolou a chamada Revolta do Roblox, com usuários ocupando espaços virtuais e enfileirando avatares com cartazes contra a verificação de idade.

Trinta e cinco milhões de dólares é troco de um trimestre

Em abril, a Roblox fechou acordo com três estados americanos: US$ 12,5 milhões com Nevada, US$ 12,2 milhões com o Alabama e US$ 11,1 milhões com a Virgínia Ocidental. Total de US$ 35,8 milhões, com contrapartida de verificar idade e restringir contato de adultos com menores de 16 anos.

Põe esse número em escala. No segundo trimestre de 2026, a empresa registrou cerca de US$ 1,56 bilhão em bookings, que é o dinheiro que entra na compra de Robux antes de virar receita contábil. Os três acordos somados equivalem a pouco mais de 2% de um único trimestre. É multa de estacionamento.

Cinco estados continuam processando (Tennessee, Texas, Iowa, Flórida e Nebraska) e, em julho, 170 ações estavam reunidas num litígio multidistrital, mecanismo americano que junta processos parecidos na frente de um juiz só. O mercado, esse sim, reagiu: a ação caiu perto de 70% em um ano, cerca de US$ 70 bilhões evaporaram do valor de mercado e, em 31 de julho, o papel despencou 27% num único pregão, a maior queda diária desde a abertura de capital. Na explicação oficial da empresa, o problema é a ausência de um novo fenômeno viral do tamanho de Grow a Garden ou Steal a Brainrot. A fila de processos não aparece no comunicado.

Se você tem filho no Roblox, parte do trabalho continua sendo manual, porque o controle parental estava ligado na conta da Audree e não impediu o que a mãe descreve na ação. O que muda por aqui é o endereço da reclamação: com o ECA Digital em vigor, dá pra bater na porta da ANPD em vez de aceitar o “concordo” como palavra final.

Uma criança de 8 anos clica no botão azul pra ver o avatar mexer. Quem desenhou o botão azul foi a Roblox. Agora a empresa chama isso de assinatura.

Lucas Ferreira
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Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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