Você paga R$ 600 por ano a mais de internet sem saber. Saiba como agir

A fibra caiu de preço desde 2024, mas só para cliente novo. Quem não mexeu no contrato paga até R$ 600 a mais por ano, e a Anatel tem regra pra isso.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
8 de agosto de 2026 6 min
Pessoa segurando uma fatura impressa em frente a um notebook sobre a mesa
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Um plano de 1 Giga que custava R$ 200 em julho de 2024 sai hoje por volta de R$ 150. O preço da internet fibra no Brasil caiu de verdade nos últimos dois anos, e quem assinou lá atrás e nunca mais mexeu no contrato continua pagando a tabela velha. Dá R$ 50 por mês de diferença, R$ 600 no ano, saindo da sua conta sem que ninguém tenha reajustado coisa nenhuma.

O número vem de um levantamento da MelhorEscolha que comparou ofertas de banda larga de dez empresas: Vivo, Claro, Oi, Desktop, Brisanet, GigaMais, Ligga, MHNET, Vero e Blink. Os preços foram coletados em 28 de julho de 2024 e na mesma data deste ano. Quando o estudo fala em 1 Giga, está falando de 1 gigabit por segundo, a velocidade máxima que o plano promete entregar, aquele número grande que a operadora estampa no anúncio.

O plano da Vivo que caiu de R$ 500 para R$ 200

A maior queda do levantamento é da Vivo. Um plano de 1 Giga anunciado a R$ 500 em julho de 2024 aparece hoje por R$ 200. Sessenta por cento a menos em dois anos, no mesmo serviço, na mesma empresa. E a queda vale em qualquer canto do país: o estudo não encontrou variação regional relevante nas áreas que analisou.

A faixa que o brasileiro realmente procura fica bem abaixo disso. Segundo a plataforma, os planos mais buscados são os de mensalidade até R$ 120.

A queda tem explicação simples, e ela não passa por generosidade. O Brasil fechou junho de 2026 com 56,6 milhões de acessos de banda larga fixa, sendo 80,36% deles em fibra até a casa, o padrão em que o cabo de fibra óptica entra no imóvel em vez de parar no poste e virar cabo de cobre no último trecho. Provedor regional brotou em cidade média e brigou por preço com as grandes. Onde tem três empresas passando cabo na mesma rua, a mensalidade cai. Ela cai para quem chega agora.

Brasil em 47º, Estados Unidos em 167º

Para efeito de comparação, a plataforma britânica Broadband Genie analisou 2.631 contratos de banda larga em 214 países, com coleta feita entre 27 de janeiro e 10 de fevereiro deste ano. O Brasil ficou em 47º lugar, com média de US$ 23,08 por mês, cerca de R$ 117 pela cotação de agosto. Os Estados Unidos aparecem em 167º, com média de US$ 80 mensais, uns R$ 406. A América do Norte inteira é a segunda sub-região mais cara do planeta, com média de US$ 98,40.

Ou seja: banda larga no Brasil é barata pelo padrão internacional. O gringo paga mais de três vezes o que a gente paga pelo mesmo tipo de conexão. Isso serve como contexto e nada mais: R$ 50 por mês de diferença continua sendo dinheiro seu parado numa fatura que você paga no débito automático e nunca mais olha.

O artigo 28 diz que sua data de adesão não pode encarecer o plano

A parte que quase ninguém sabe está no RGC, o Regulamento Geral de Direitos do Consumidor de Serviços de Telecomunicações, que é o conjunto de regras da Anatel sobre o que a operadora pode e não pode fazer com você. A versão atual veio pela Resolução 765/2023 e substituiu o regulamento de 2014.

O artigo 28 determina que as ofertas em vigor têm que estar disponíveis para todos os interessados “sem distinção fundada na data de adesão, rescisão de Oferta anterior ou qualquer outra forma de discriminação”. Cliente antigo tem o mesmo direito de contratar a promoção que a empresa está anunciando para cliente novo, na mesma área geográfica, pelo mesmo valor.

Isso significa que a mensalidade de R$ 200 que você paga desde 2024 enquanto o vizinho assina o mesmo 1 Giga por R$ 150 tem remédio, e o remédio é uma ligação. A operadora não vai te oferecer isso por iniciativa própria. Cabe a você pedir.

Fidelidade morre em 12 meses e a multa tem teto

O outro medo que trava a ligação é a fidelidade. O artigo 36 da mesma resolução limita o prazo de permanência a no máximo 12 meses para pessoa física. Prazo maior só para empresa, e ainda assim sem passar da validade da oferta.

Se você quebrar o contrato antes disso, a multa é proporcional ao tempo que falta e não pode ultrapassar o valor do benefício que a operadora te deu, seja o desconto na mensalidade, seja o roteador que veio de brinde. Se você assinou em 2024 e nunca renovou nada, sua fidelidade acabou faz tempo e você está livre para migrar hoje.

Tem outra regra jogando a seu favor: o reajuste da mensalidade só pode acontecer 12 meses depois da contratação, nunca em intervalo menor.

Reclamação de cobrança na Anatel subiu 52 mil casos em um ano

A Anatel registrou 1,35 milhão de reclamações em 2025, alta de 6,91% sobre 2024. A banda larga respondeu por 470 mil delas, um crescimento de 6,5% que representa 28,6 mil queixas a mais e o pico dos últimos quatro anos. Cobrança foi o motivo que mais cresceu, com 52,2 mil casos novos. Ofertas e promoções somaram 10,3 mil a mais. A agência pondera que o índice de reclamações segue historicamente baixo, em 0,38%, indicador que ela calcula pelo número de queixas para cada mil acessos. É verdade, e não consola muito quem está entre os 470 mil.

O padrão do setor é conhecido. A mesma indústria que repassou mais de cem dados de cada cliente para a Serasa sem avisar ninguém não vai abrir uma exceção histórica para te ligar avisando que o seu plano ficou caro em relação ao mercado.

O roteiro da ligação para a retenção

  • Descubra o preço de hoje: entre no site da sua operadora, digite o seu CEP e veja quanto custa o plano que você já tem. Anote a velocidade e o valor exatos que aparecem na tela.
  • Confira sua fidelidade: se a contratação passou de 12 meses, não existe multa possível. Se foi mais recente, a multa é proporcional e limitada ao benefício que você recebeu.
  • Ligue para o cancelamento, não para o suporte: a área de retenção costuma ser a única com autonomia para mexer no valor da mensalidade. Diga que quer cancelar e explique por quê.
  • Cite o artigo 28: informe que a oferta anunciada no site deve estar disponível para você, sem distinção por data de adesão, conforme a Resolução 765/2023 da Anatel. Peça o número de protocolo antes de desligar.
  • Se enrolarem, abra reclamação na Anatel: o registro entra no sistema Anatel Consumidor com o protocolo da ligação em anexo, e a agência cobra a resposta da operadora. Foi por esse caminho que passaram as 470 mil queixas de banda larga do ano passado.

Nenhum upgrade de hardware devolve R$ 600 por ano com tanta facilidade, e no fim da ligação o roteador continua exatamente o mesmo em cima da estante.

Lucas Ferreira
AUTOR

Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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