Desinstalações do ChatGPT disparam 295% em um dia. O motivo é um contrato que a concorrente recusou.
Desinstalações do ChatGPT saltaram 295% após acordo da OpenAI com o Pentágono. Claude virou o app mais baixado dos EUA.
As desinstalações do ChatGPT nos Estados Unidos saltaram 295% no dia 28 de fevereiro, um sábado. Na sexta anterior, os downloads tinham crescido 14%. No sábado, caíram 13%. No domingo, mais 5%. As avaliações de uma estrela na App Store aumentaram 775%. As de cinco estrelas caíram pela metade. Os números são da Sensor Tower, e o motivo é um só: a OpenAI aceitou um contrato com o Pentágono que a concorrente Anthropic tinha recusado dias antes.
Se você acompanhou a saga do ultimato do Pentágono à Anthropic e depois a classificação da empresa como ameaça à segurança nacional, sabe que essa história não começou agora. Mas o que aconteceu na última semana é uma consequência que ninguém na OpenAI parecia ter previsto.
O que aconteceu, em ordem
Na quinta-feira, 27 de fevereiro, Dario Amodei, CEO da Anthropic, recusou formalmente a exigência do Pentágono de que o Claude - a IA da empresa - pudesse ser usado para “todos os fins legais”, sem restrições. A Anthropic traçou limites claros: nada de vigilância em massa de cidadãos americanos, nada de armas autônomas. O Pentágono não aceitou.
Na sexta, o governo Trump classificou a Anthropic como “risco à cadeia de suprimentos de segurança nacional” e ordenou que todas as agências federais parassem de usar o Claude em até seis meses. O Secretário de Guerra Pete Hegseth assinou a ordem pessoalmente.
Horas depois, no mesmo dia, Sam Altman postou no X que a OpenAI tinha fechado acordo com o Pentágono para “implantar nossos modelos na rede classificada deles”. O contrato herdava as mesmas condições que a Anthropic tinha recusado, com a linguagem de “todos os fins legais”.
A frase de Amodei sobre a recusa: “Não posso em boa consciência aceitar o pedido do Pentágono. Em um conjunto restrito de casos, acreditamos que a IA pode minar, ao invés de defender, valores democráticos.”
A reação foi imediata.
O boicote
Um movimento chamado QuitGPT surgiu em questão de horas. O site quitgpt.org começou a registrar cancelamentos de assinatura e declarações públicas de abandono do ChatGPT. Segundo os organizadores, mais de 1,5 milhão de pessoas agiram na primeira semana - cancelando assinaturas, compartilhando o boicote nas redes sociais ou se registrando no site. Estimativas do The Business Standard colocam o número em 2,5 milhões quando se incluem todas as formas de participação.

O QuitGPT recomenda alternativas: Claude (da Anthropic), Google Gemini, e assistentes menores como Confer, Alpine e Lumo. O grupo aconselha explicitamente contra o Grok, a IA da plataforma X de Elon Musk.
E o Claude? Subiu 37% em downloads nos EUA na sexta e 51% no sábado. Pela primeira vez, ultrapassou o ChatGPT em downloads diários nos Estados Unidos. No sábado, o Claude virou o aplicativo gratuito número 1 na App Store americana e chegou ao topo das lojas de apps em outros seis países: Bélgica, Canadá, Alemanha, Luxemburgo, Noruega e Suíça. A Similarweb estima que os downloads do Claude cresceram cerca de 20 vezes comparando janeiro com o fim de fevereiro.
O recuo (parcial) de Altman
Três dias depois do anúncio, Sam Altman admitiu publicamente que o acordo “pareceu oportunista e desleixado”. Em entrevista, disse que a corrida para fechar o contrato “foi definitivamente apressada, e a ótica não ficou boa”. Mas manteve a defesa de fundo: “Se estivermos certos e isso levar a uma desescalada entre o Departamento de Guerra e a indústria, vamos parecer gênios.”
A OpenAI publicou um post no blog oficial detalhando o que chama de “salvaguardas técnicas”: classificadores de IA para rejeitar prompts proibidos, ajustes nos modelos para desencorajar usos banidos, e uma cláusula proibindo uso para vigilância doméstica de cidadãos americanos. Agências de inteligência - NSA, NGA e DIA - estariam excluídas do acordo.
Funcionários da própria OpenAI assinaram cartas abertas apoiando a posição da Anthropic. Leo Gao, pesquisador de segurança de IA da OpenAI, chamou as salvaguardas de “enfeite de vitrine” sem proteções robustas de verdade.
O que ninguém tá falando
295% de aumento em desinstalações parece catastrófico, mas precisa de contexto. O ChatGPT tem centenas de milhões de usuários ativos. Uma onda de 2,5 milhões de participantes num boicote, mesmo que todos cancelem permanentemente, representa uma fração pequena da base total. A OpenAI vai sentir no bolso? Depende de quem cancelou. Se forem assinantes do plano pago (que custa 20 dólares por mês), a conta muda.
O que preocupa mais a OpenAI do que as desinstalações é a narrativa. A Anthropic saiu dessa crise como a empresa que disse “não” ao governo mais poderoso do mundo - e o mercado premiou isso. O Claude ganhou milhões de novos usuários e visibilidade global que nenhuma campanha de marketing compraria. A OpenAI ficou com o contrato militar e a imagem de empresa que aceitou o que a concorrente recusou por princípio.
Altman tentou atenuar dizendo que criticou publicamente a classificação da Anthropic como ameaça, chamando isso de “muito ruim para nossa indústria e nosso país”. Mas a distância entre criticar a punição e aceitar o contrato é exatamente o tipo de contradição que a internet não perdoa.
E no Brasil?
O ChatGPT tem uma base enorme no Brasil - somos um dos maiores mercados do app fora dos EUA. A repercussão aqui foi grande na mídia tech (Olhar Digital, InfoMoney, Brasil 247, Times Brasil), mas o boicote organizado é majoritariamente americano. Quem usa o ChatGPT para trabalho no dia a dia provavelmente não vai desinstalar por causa de um contrato militar nos EUA. Mas a pergunta que fica é outra: se a empresa que faz a IA que você usa para redigir contratos, analisar dados e escrever relatórios está operando na rede classificada do Pentágono, qual é o limite de confiança que você deposita nela?
O QuitGPT tem uma resposta simples: nenhum. Dois milhões e meio de pessoas concordaram.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
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