O livro que devolve aos Incas o que os conquistadores tiraram - inclusive a Europa

E se os Incas tivessem chegado primeiro? Em Civilizações, Laurent Binet devolve cavalos, ferro e anticorpos ao Atahualpa - e reescreve a Europa.

Helena Braga
Helena Braga O livro que você procura provavelmente está na estante dela
21 de março de 2026 5 min
Capa de Civilizações, de Laurent Binet, edição brasileira da Companhia das Letras
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Em HHhH, Laurent Binet escreveu 257 fragmentos para narrar a morte de Reinhard Heydrich em 1942 - e metade deles são sobre a culpa de ficcionalizar pessoas reais, o peso de inventar diálogos para quem existiu de verdade, a impudência de fazer literatura com o que foi catástrofe. Civilizações (Companhia das Letras, 2026, tradução de Rosa Freire d’Aguiar) parte de um lugar diferente: e se o problema não fosse a ficção, mas a história que realmente aconteceu?

O argumento central cabe numa frase: o que separou os conquistadores dos conquistados foram três vantagens - cavalos, ferro e anticorpos. Dê essas três coisas aos Incas e toda a história do mundo precisa ser reescrita. É o que Binet faz em 330 páginas divididas em quatro partes, cada uma imitando um gênero histórico distinto.

Na virada do milênio, Freydís Eiríksdóttir - filha de Erik, o Vermelho - conduz os vikings para o sul, além da Groenlândia, até chegar ao Peru. Ela traz cavalos. Traz ferro. Traz doenças das quais os nativos, ao longo de séculos, desenvolvem imunidade. Em 1492, quando Cristóvão Colombo chega, encontra uma população armada e preparada. Sua expedição é massacrada. Ele nunca volta à Espanha.

Trinta anos depois, Atahualpa foge da guerra civil contra o irmão Huáscar, encontra os navios abandonados de Colombo em Cuba, e cruza o Atlântico. Chega a Portugal em 1531, durante o terremoto de Lisboa - não como conquistado, mas como conquistador.

Retrato de Atahualpa, último imperador Inca, em pintura anônima do século XVII
Retrato de Atahualpa, último imperador Inca, em pintura anônima do século XVII

O que acontece nos dois terços seguintes do livro é o tipo de coisa que faz você querer ligar para alguém antes de terminar. Atahualpa desembarca numa Europa que nunca o imaginou possível e começa a entendê-la com uma frieza fascinante: as guerras de religião são irracionalidade administrativa, os reis são jogadores com cartas ruins, o Vaticano é uma estrutura de poder como qualquer outra. Binet escreve isso com leveza, com humor às vezes, com a consciência clara de que o prazer do leitor vem exatamente da inversão - a Europa sendo observada de fora, por quem não tem nenhuma razão para considerá-la o centro de coisa nenhuma. É um livro que diverte e incomoda em doses iguais, e que não sai da cabeça porque a pergunta que ele faz não tem uma resposta que nos agrade completamente.

O que Binet faz com Atahualpa na Europa é o coração do livro e sua invenção mais generosa. O imperador inca lê Maquiavel na tradução de Higuenamota - a princesa Taíno que fala espanhol e funciona como sua intérprete e estrategista política. Ele negocia casamentos, suborna cardeais, manipula Henrique VIII e Carlos V com o mesmo pragmatismo frio que usaria nas guerras andinas. A Europa cristã - com sua Inquisição, suas guerras de religião, sua perseguição sistemática às minorias - encontra um poder externo que olha para tudo isso com paciência de etnógrafo e conclui que é simplesmente ineficiente.

A tolerância religiosa dos Incas não é altruísmo. É administração. O sol não se importa com os detalhes das disputas entre luteranos e católicos. Henrique VIII, apresentado à adoração solar, considera seriamente a conversão: é tão racional quanto qualquer outra razão que ele já teve para mudar de religião.

A crítica mais frequente ao livro - que o Atahualpa de Binet é europeu demais, que sua inteligência maquiavélica é demasiado ocidental para soar como alteridade real - tem razão descritiva mas erra no diagnóstico. A questão não é se Atahualpa pensaria como Maquiavel. É o que significa que só conseguimos imaginar inteligência política por essa lente. O espelho é o ponto.

Civilizações ganhou o Grand Prix du Roman de l’Académie française em 2019 e o Sidewise Award em 2021 - prêmio específico para ficção histórica alternativa. Chega ao Brasil seis anos depois da edição francesa, traduzido por Rosa Freire d’Aguiar, que é a tradutora de Proust, de García Márquez, de Vargas Llosa. Freire d’Aguiar tem a capacidade rara de trocar de registro sem perder voz - e Civilizações exige isso a cada capítulo: a saga nórdica, o diário de bordo, a crônica de conquista, a aventura picaresca de Cervantes e El Greco num mundo transformado. Que seja ela a assinar esta edição é uma escolha que importa, e que o livro merecia.

O atraso de seis anos não é neutro. Ailton Krenak publicou A vida não é útil em 2020. Eduardo Viveiros de Castro tem dito em entrevistas que “a América foi o maior experimento de destruição de alternativas que o mundo já viu”. O debate sobre o que conta como civilização, quem tem direito de nomeá-la, e o que se apaga na narrativa da conquista está mais presente agora do que em 2019. Civilizações é ficção, mas responde à mesma pergunta que esse debate está fazendo - com a vantagem de que pode inventar a resposta.

Binet não é historiador. Civilizações não é argumento acadêmico. É o tipo de livro que Umberto Eco descreveria como romanzo storico - não para instruir, mas para tornar habitável uma possibilidade que o registro factual fechou. Está na mesma prateleira do Kim Stanley Robinson de The Years of Rice and Salt (2002), que imaginou um mundo onde a Peste Negra dizimou quase toda a Europa. Mas a obsessão é a do próprio Binet de HHhH: os dois livros são sobre o custo de escrever história como se ela tivesse de ter acontecido do jeito que aconteceu.

Para quem ainda não leu HHhH: comece por lá. E para o contraponto não-ficcional ao que Civilizações propõe, A Conquista da América: a questão do outro, de Tzvetan Todorov (Martins Fontes), continua sendo o texto que explica por que a conquista foi possível - e que Binet, claramente, leu.

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