O volume 1 da biografia de Lula foi acusado de panegírico. No volume 2, Lula só ganha no último parágrafo
O volume 1 da biografia de Lula por Fernando Morais foi acusado de panegírico. O volume 2 cobre 1985 a 2002 em 352 páginas e escolhe terminar a vitória no último parágrafo. A escolha diz muita coisa.
Fernando Morais lançou o volume 2 da biografia de Lula em 30 de março de 2026, cinco anos depois do volume 1. O volume 1, de 2021, foi acusado pela crítica de ser um panegírico disfarçado de biografia. Euler de França Belém, no Jornal Opção, escreveu com todas as letras que Morais havia se comportado como hagiógrafo e que o “equívoco” era INTENCIONAL, que o autor tinha decidido escrever não uma biografia clássica mas um panegírico. Morais nunca admitiu.
Quando leitores irritados começaram a comprar o livro em livrarias pra rasgar nas ruas, a resposta pública do biógrafo foi uma linha de stand-up: “Prefiro que comprem, paguem, e depois incendeiem.” É uma boa piada. É também o movimento exato que um sujeito faz quando decide não conversar com a acusação. Você transforma a crítica em material de performance e evita o que ela disse. Em psicanálise isso tem nome. Chama-se deslocamento. Em biografia literária chama-se ESCAPE.

Só que a acusação, que virou consenso preguiçoso repetido em resenhas ao longo dos últimos cinco anos, tem um problema prévio. Ela não se sustenta totalmente diante do próprio livro.
No volume 1, Morais descreve a cena em que Lula, em 1973, com 28 anos e diretor do departamento de previdência do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo, vê Marisa Letícia entrar no prédio procurando documentação pra receber o pecúlio do primeiro marido, o taxista Marcos Cláudio dos Santos, morto em tentativa de assalto dois anos antes, quando ela estava grávida do primeiro filho.
Lula acha Marisa bonita. Pede à secretária pra mandar a viúva voltar no dia seguinte. Morais descreve a cena em tom NEUTRO, sem moralização nem lirismo. É exatamente o tipo de detalhe que panegirista corta. Hoje seria lido, pela esquerda contemporânea que o próprio Morais compõe, como uso do posto sindical pra acessar uma mulher em situação de fragilidade jurídica e afetiva. Está no livro. O autor não recuou. Marisa e Lula casaram sete meses depois e ficaram juntos até a morte dela em 2017. A história é canônica, está em outras biografias, mas Morais é quem mantém os detalhes que a versão romântica oficial prefere arredondar.

Isso sozinho já complicaria a tese do panegírico. Mas o problema da acusação é anterior, e estrutural. Biografia de sujeito vivo é, por definição, diferente de biografia de morto. Morto não dá acesso, não lê rascunho, não cancela entrevista, não aparece na noite de autógrafos. Morto permite a ilusão de distância crítica total. Vivo não permite. Salvo no caso de figura incontestavelmente repugnante, onde o desprezo do biógrafo pelo biografado fornece distância automática, qualquer biografia de contemporâneo importante vai ser, em alguma medida, atravessada pela relação entre quem escreve e quem é escrito.
A acusação de hagiografia, quando lançada contra biografia de líder político vivo de estatura comparável à de Lula, aplica um critério que PRATICAMENTE nenhum livro do gênero, em qualquer país, passaria. É crítica que não discrimina. Quando não discrimina, não diagnostica.
O que existe, no melhor caso, é biografia com perspectiva assumida, negociada com o biografado, publicada com todas as ambiguidades da relação à vista. A ilusão da imparcialidade biográfica é exatamente isso, ilusão. Nenhum biógrafo é imparcial. Morais nunca fingiu ser. O que os críticos chamaram de panegírico é, quando você desembrulha, queixa de que o livro não esconde o afeto do autor pelo objeto. Esconder o afeto seria PIOR. Seria panegírico travestido de neutralidade, que é o truque mais antigo do gênero e o que mais leitor engana.

Isso dito, o volume 2 ainda é outro livro. 352 páginas. De 1985 a 2002. Redemocratização, Diretas Já, fundação consolidada da CUT, PT crescido, Caravanas da Cidadania, três derrotas presidenciais consecutivas, e finalmente a vitória de 2002 comprada ao preço da Carta ao Povo Brasileiro, de Duda Mendonça, e de um vice empresário têxtil evangélico chamado José Alencar.
Se o volume 1 era o Lula mitológico, o menino operário que atravessou o Brasil de pau-de-arara e fundou um sindicato e depois um partido, o volume 2 é o Lula que precisou VIRAR Lula. E a diferença entre descobrir um herói e acompanhar uma transformação é outra ordem de trabalho biográfico.
Morais fez uma escolha estrutural no volume 2 que reforça o que a cena da Marisa já apontava. O livro inteiro é sobre perder. Das 352 páginas, 349 registram campanhas derrotadas, divergências internas, ruptura com parte da esquerda histórica, cálculos pragmáticos que foram lidos como traição. Lula só ganha NO ÚLTIMO PARÁGRAFO do livro. É uma decisão narrativa que, feita por outro autor, seria elogiada como escolha estética difícil. Um panegirista não escreve sobre derrota em escala de capítulo, muito menos sobre centenas de páginas. Panegirista escreve sobre vitória. Morais passou cinco anos construindo um livro onde o biografado passa praticamente todo o tempo perdendo, e ganha como resultado final de um deslocamento lento, negociado, custoso. Isso é, ESTRUTURALMENTE, o contrário do que as resenhas apressadas quiseram ver.
A questão que sobra, quando a acusação de panegírico sai de cena, é outra, e mais interessante clinicamente. É a questão da intimidade.
Morais é biógrafo há quatro décadas, sempre escolhendo figuras politicamente carregadas. Olga de 1985 sobre Olga Benário, alemã comunista entregue grávida por Vargas à Gestapo em 1936. Chatô de 1994 sobre Assis Chateaubriand, o magnata monstruoso da imprensa brasileira, escrito com uma proximidade tão desconfortável que virou objeto de debate na academia. Os Últimos Soldados da Guerra Fria de 2011 sobre os Cinco de Miami, cubanos que espionavam grupos exilados anticastristas. Em todos os casos, Morais escolheu biografados que exigiam tomar posição. Em todos os casos, tomou.
Ninguém que leu Corações Sujos de 2000, sobre a Shindo Renmei, a organização terrorista nipo-brasileira que matou 23 imigrantes entre 1946 e 1947 por terem aceitado a derrota do Japão, duvida da competência técnica do Morais. Trezentas e cinquenta páginas sobre um tema que a maioria dos brasileiros não sabia que existia, reconstrução do ambiente psíquico de uma comunidade encurralada entre duas pátrias, pesquisa em arquivos brasileiros e japoneses, prosa com pulso de romance e ausência deliberada de moralismo. Ganhou o Jabuti de Reportagem e de Livro do Ano em Não-Ficção em 2001. Merecia.
Olga tinha feito a mesma coisa quinze anos antes, num tema mais evidente mas não menos difícil de sustentar em página. O que importa, pro argumento aqui, é que Morais sabe escrever biografia de sujeito moralmente carregado sem cair em hagiografia. Já provou. Mais de uma vez. A questão nunca foi competência técnica. A questão é o que acontece com essa mesma prosa, do mesmo autor, quando o biografado é amigo, vivo, e transforma o biógrafo em participante do próprio ecossistema político que ele devia estar observando de fora.

Morais não é filiado ao PT. Declara isso com alguma frequência. Foi do PMDB nos anos 80, hoje se apresenta como jornalista independente, mantém o blog Nocaute onde publica opinião assumidamente de esquerda, apoia candidatos que ALINHAM com suas posições sem carteirinha de partido. Tecnicamente, militante sem militância formal.
A posição permite que ele se declare biógrafo livre AO MESMO TEMPO em que é amigo pessoal de Lula, que frequenta Lula, que participa da vida pública de Lula. É uma posição inteligente. É também a posição onde a distância crítica fica impossível de calibrar, porque AMBAS as pontas da tensão, a proximidade e a declaração de independência, operam a favor do mesmo biografado.
No entrevista ao Correio Braziliense, Morais disse uma frase que funciona como auto-vacinação. Afirmou que a divisão entre um “Lulinha paz e amor” e um “Lula radical” não passa de construção política, simplificação, que o biografado é “multifacetado” e alterna entre embate e conciliação.
A frase é verdadeira no sentido banal em que é sempre verdadeira: qualquer sujeito vivo é mais complexo do que suas caricaturas. O problema é que “multifacetado” é exatamente a palavra que biógrafo em posição delicada usa quando quer se blindar da obrigação de caracterizar. Você não escreve um livro pra concluir que a pessoa é complexa. Se você escreve um livro sobre alguém, é porque tem uma TESE sobre aquela pessoa, e a tese precisa ser recortada, defendida, confrontada com o que contradiz. Dizer “ele é multifacetado” é dizer “ele é tudo ao mesmo tempo, logo não me responsabilizem por nenhuma caracterização específica”. É cláusula de escape retórica. Do livro em si, pelo que se lê, felizmente não dá pra dizer o mesmo.
O que o livro faz com a Carta ao Povo Brasileiro é a decisão que define o peso do volume 2 como objeto literário.

Junho de 2002. Lula na terceira candidatura presidencial, pela primeira vez com pesquisas favoráveis. O mercado financeiro em pânico. Dólar disparando, bolsa despencando, risco Brasil beirando 2400 pontos. Lula escreve ou assina, dependendo da versão, um documento onde se compromete a cumprir contratos, respeitar o acordo com o FMI, manter estabilidade fiscal.
O gesto funciona. Os mercados respiram. Lula ganha em outubro. Morais descreve, no capítulo dedicado ao episódio, as negociações internas que envolveram nomes que foram, poucos anos depois, centrais no mensalão. O capítulo existe. Os nomes estão ali. A pergunta é como estão ali. Se Morais trata a carta como pragmatismo vitorioso e deixa quieta a conexão com o que veio em 2005, protege o biografado. Se trata a carta como momento em que o projeto começou a pagar preço que o biografado ainda estava disposto a pagar, abre a narrativa pra complexidade que o livro precisa sustentar. A diferença é de três ou quatro adjetivos. A diferença é o livro.
O livro destaca também Fidel Castro. Num dos momentos que a imprensa tem repetido, Morais registra que Fidel teria dito a Lula, depois da derrota pra governador de São Paulo em 1982, que não abandonasse a vida pública e seguisse até chegar à Presidência. A cena abre o volume 2 dando o tom de tudo que vem depois. O episódio é forte. Funciona emocionalmente. E é, IMEDIATAMENTE, uma escolha de posicionamento. Destacar Fidel como conselheiro em momento de fragilidade do biografado coloca Lula numa linhagem internacional de esquerda, o inscreve na tradição dos sobreviventes da Guerra Fria latino-americana, produz sentido histórico via associação. É boa escrita. É também decisão ideológica, e a decisão cabe ao biógrafo. Outro biógrafo, com outro recorte, destacaria outra conversa: com Luiz Carlos Bresser-Pereira, com José Dirceu, com Olívio Dutra, com o próprio José Alencar. Morais escolheu Fidel. A escolha significa algo.

Duda Mendonça aparece no livro como marqueteiro que fabricou o “Lulinha paz e amor”. A imagem serena, a voz modulada, a barba aparada, o terno bem cortado, tudo desenhado com a precisão cirúrgica de quem sabe que campanha política é marketing ou não é. Duda entregou. Lula ganhou. Três anos depois, em 2005, Duda confessou em CPI que havia recebido R$ 15,5 milhões em caixa 2 do PT, via operação do publicitário Marcos Valério, num esquema bancário que envolvia Banco Rural e BMG e que ficaria conhecido como Mensalão.
A peça da campanha vitoriosa e a peça do escândalo que abriu o primeiro mandato de Lula são a MESMA peça. Dito de outro jeito: a técnica que elegeu Lula em 2002 era, já na origem, indistinguível da técnica que quase derrubou Lula em 2005. O volume 2 não chega a 2005, então o livro não precisa lidar com isso. Mas lida. Porque tudo que o volume 2 diz sobre Duda é o que o leitor vai carregar quando chegar no volume 3, onde Duda volta em outra posição. Se no volume 2 Duda é gênio criativo da comunicação política, no volume 3 a queda dele precisa ser tragédia ou revelação. Se no volume 2 Duda já é personagem ambíguo, o volume 3 herda terreno. Morais está, aqui, preparando ou não preparando o leitor pra complexidade que vem. Ainda não dá pra saber qual dos dois.
José Alencar é o personagem cuja função narrativa no volume 2 diz mais sobre o método do Morais.
Empresário têxtil do grupo Coteminas, evangélico, do PL, que em 2002 significava direita no espectro brasileiro. A escolha como vice de Lula foi exigência explícita das alianças de centro necessárias pra vitória. É a face mais concreta do que a teoria chamaria de ALIANÇAS DE CLASSES, e o que o militante de base chamou de TRAIÇÃO do programa histórico. Alencar morreu em 2011 respeitado por praticamente todo o espectro político, o que ajuda a suavizar retrospectivamente a figura. Mas em 2002 a escolha foi CHOQUE pra base do PT. A maneira como o volume 2 trata esse choque, se como ruptura custosa com nome e endereço de quem pagou, ou como gesto estratégico maduro que o tempo validou, indica o ângulo do livro inteiro.
O volume 2 saiu e já noticia-se que Morais está iniciando um documentário sobre José Dirceu. Dirceu, que é figura estruturante no volume 2 como articulador da campanha de 2002 e da política de alianças do PT, já é o próximo projeto do biógrafo. Morais sai do livro e entra num documentário, sobre um personagem do livro, que foi condenado no Mensalão e cumpriu pena. Projetos paralelos sobre personagens interligados podem indicar obsessão produtiva, pesquisa exaustiva, mapeamento de um ecossistema político inteiro. Podem também indicar militância intelectual de quem decidiu, antes de começar a escrever, qual lado da história merece ser salvo para a posteridade. As duas leituras são possíveis com o material público. Nenhuma é segura.
Morais tem acesso, tem voz, tem tempo. Cinco anos entre o volume 1 e o volume 2, e o volume 3, que ele disse em entrevistas que vai encerrar na vitória sobre Bolsonaro em 2022, “nos próximos três anos”.
Biografia de figura viva é gênero estranho, porque o biografado continua produzindo biografia num ritmo que o biógrafo não acompanha. Lula está no terceiro mandato. A cada discurso, a cada decisão, a cada conflito com o Congresso, o material pro volume 3 aumenta. O descompasso é grave. Biografia de vivo é sempre aposta sobre qual versão do biografado vai sobreviver mais tempo.

Biografar alguém vivo é manter uma relação de décadas com uma projeção. A projeção se chama “o Lula histórico” mas é uma construção que o biógrafo faz, revisa, defende, atualiza, protege. A pessoa real, do outro lado, é amigo. E continua, diariamente, sendo outra coisa. A psicanálise tem termo pra dinâmica em que o observador projeta no observado o que precisa ver pra manter a própria posição estável. Não vou nomear. Quem estuda sabe.
A entrevista que Morais deu ao Brasil de Fato em abril trouxe uma frase que destoa de tudo que o biógrafo disse em cinco anos. Afirmou que o quarto mandato vai determinar como Lula entra pra história. O quarto mandato. Não o livro. O mandato. Morais está, ele mesmo, esperando o biografado terminar pra saber o que escreveu. Um panegirista já sabe a conclusão antes de começar a escrever. Morais, aparentemente, ainda não sabe.
O volume 2 é a expressão literária dessa incerteza. Termina com a vitória no último parágrafo porque, do ponto de vista do biógrafo, a vitória de 2002 ainda não produziu o significado final que ela terá quando o arco inteiro estiver fechado. Se o quarto mandato Lula for bem-sucedido, a vitória de 2002 vai parecer o começo de uma era. Se o quarto mandato Lula for catastrófico, a mesma vitória de 2002 vai parecer o momento em que se perdeu algo que ninguém conseguiu reencontrar. Morais não sabe qual das duas leituras vai prevalecer. Ninguém sabe. E escrever biografia sem saber a conclusão é, necessariamente, escrever no escuro.
O problema é que os livros, ao contrário dos biografados, não esperam escurecer pra decidir. Uma vez impressos, ficam como estão. O volume 2 já está impresso. Constrói um perdedor que ganha no último parágrafo, um biógrafo que escapou com humor de uma acusação que um leitor atento do livro dispensa sozinho, uma amizade que é método e é limite, e um biografado que, enquanto o livro circula nas livrarias, continua acontecendo.
Resta o volume 3. Resta o quarto mandato, que o autor dá por certo. Resta saber o que, afinal, Fernando Morais escreveu durante cinco anos.
Ele mesmo, aparentemente, ainda está descobrindo.
Sicko
Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
Editor literário e resenhista. Especialista em ficção, graphic novels e cultura digital.
LEIA TAMBEM
O interior de Casa de Folhas é maior do que o livro
O Estado que protege mulheres e o Estado que as mata são o mesmo Estado