José Donoso sabia que a classe social é uma doença psiquiátrica. Os contos provam

Os 14 contos de José Donoso chegam ao Brasil pela Mundaréu. É o mapa clínico de um escritor que entendia a classe social como estrutura psíquica.

Sicko
Sicko Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
4 de abril de 2026 5 min
Capa de Contos Completos de José Donoso pela Editora Mundaréu
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O problema com José Donoso nunca foi a falta de reconhecimento. Foi o TIPO de reconhecimento que ele recebeu. Colocaram ele na prateleira do Boom latino-americano, entre García Márquez e Cortázar, como se ocupar a mesma década significasse ocupar o mesmo território. Donoso não escrevia realismo mágico. Não tinha interesse em borboletas amarelas nem em jogos temporais com finais abertos. O que Donoso fazia era outra coisa, mais desconfortável, mais cirúrgica, e esses quatorze contos que a Editora Mundaréu publicou no Brasil em 2025, traduzidos por Bruno Cobalchini Mattos, são o melhor lugar pra entender o quê.

Carlos Fuentes, que estudou com ele na mesma escola britânica em Santiago, disse que ninguém expôs as hierarquias sociais da América Latina de forma tão vívida. É uma frase de amigo. E é imprecisa. Expor presume uma realidade atrás da máscara que pode ser revelada, fotografada, denunciada. O que Donoso entendeu, e isso é o que IMPORTA, é que a máscara É a realidade. Que não existe sujeito anterior à performance de classe. Que se você arranca a máscara não encontra um rosto. Encontra outra máscara, ou NADA.

Em “Paseo”, uma mulher solteira da burguesia chilena, tia do narrador, vive numa casa onde os horários das refeições e a temperatura dos pratos são observados com o mesmo rigor que um protocolo hospitalar. Um dia um cachorro vira-lata aparece na porta. Ela adota o cachorro. Começa a sair pra passear com ele à noite. Os passeios ficam mais longos. Um dia ela não volta. A família reorganiza a rotina sem ela. O narrador conta isso sem nenhuma inflexão emocional, como quem relata a substituição de uma peça numa máquina que continuou funcionando, e o que faz o conto ser brutal não é a partida da tia, é o fato de que ninguém na casa dispõe de vocabulário afetivo para registrar a ausência como PERDA. Ela não era uma pessoa. Era uma FUNÇÃO. Quando a função cessou, o sistema recalibrou. Quando o sistema recalibrou, ninguém percebeu que havia alguém ali antes.

“Santelices” demonstra isso com menos piedade. Um homem tímido, funcionário público, mora num pensionato controlado por uma viúva e sua irmã. As duas monitoram TUDO: refeições, horários, correspondências. Santelices começa a recortar fotos de animais selvagens de revistas, leões, tigres, panteras, e cola nas paredes do quarto. O quarto vira uma selva de papel. As donas invadem e destroem tudo. Santelices morre. Seria possível ler como alegoria do indivíduo esmagado pela instituição. Donoso não é tão generoso. Santelices não é uma vítima. Santelices é alguém que substituiu desejo por RECORTE, que montou uma interioridade inteiramente feita de imagens de segunda mão, e quando perdeu os recortes não havia NADA por baixo. Nenhum self residual. Nenhuma reserva. A violência das duas mulheres não é o tema. O tema é a INEXISTÊNCIA PRÉVIA de Santelices como sujeito, e a conveniência mútua de todos os envolvidos em manter essa inexistência funcionando sem perturbação.

A insistência em personagens que existem apenas como função social conecta os contos ao romance que Donoso publicaria em 1970, O obsceno pássaro da noite, cuja metáfora central é o imbunche: aberturas COSTURADAS para que nada entre e nada saia. Os contos são versões menores, mais limpas, do mesmo procedimento. Casas onde nada entra. Famílias onde nada sai. Pessoas costuradas por dentro.

Donoso não escrevia de fora. Cresceu na oligarquia chilena, Grange School, Princeton, Iowa Writers’ Workshop. Depois fugiu pra Barcelona, ficou vinte anos, voltou, morreu em Santiago em 1996. Em 2009 a filha, Pilar, publicou Correr el tupido velo, baseado nos 80 cadernos de diários que o pai deixou, e os diários mostram uma coisa que os contos já mostravam pra quem soubesse ler: Donoso escrevia sobre confinamento porque VIVIA confinado. A sexualidade que escondeu a vida inteira, a identidade de classe que simultaneamente HABITAVA e desprezava, a performance permanente de ser um escritor heterossexual e burguês quando nenhum dos dois adjetivos cabia sem esforço consciente e contínuo. Em 2025, Princeton digitalizou todos os 80 cadernos. A correspondência com Fuentes foi publicada no mesmo ano. Donoso agora é um arquivo aberto. E o arquivo confirma o que os contos já diziam: que a pessoa mais costurada nos textos dele era ELE MESMO.

Os contos funcionam como estudos de caso do que a psicanálise chama de falso self, uma estrutura adaptativa que substitui a personalidade genuína por uma performance tão bem integrada que o próprio sujeito não DISTINGUE mais uma da outra. Quando Winnicott descreveu isso em 1960, mesmo ano em que Donoso publicava El Charleston, usou linguagem de pediatra. Donoso usou linguagem de ficcionista. A descrição é IDÊNTICA. A tia de “Paseo” é um falso self que um dia encontrou um cachorro e, por um instante brevíssimo, entreviu outra coisa. Santelices é um falso self que tentou fabricar interioridade com cola e tesoura. Nenhum dos dois sobreviveu ao colapso da função. Porque não havia função ANTERIOR ao colapso. Havia apenas o colapso esperando acontecer.

Roberto Bolaño, que não distribuía elogios, disse que chamar Donoso de “melhor romancista chileno” era um INSULTO. Donoso está mais perto de Faulkner do que de qualquer contemporâneo latino-americano. A aristocracia apodrecendo em câmera lenta, as casas grandes demais pra quantidade de gente viva que resta dentro, a linguagem que registra a decomposição com uma elegância que é, ela mesma, SINTOMA.

A tradução de Cobalchini Mattos é sóbria no sentido correto. Donoso não é estilista ornamental. A prosa funciona por COMPRESSÃO, não por expansão. A Editora Mundaréu está fazendo um trabalho sério com Donoso no Brasil, incluindo a reedição de O obsceno pássaro da noite prevista pra abril, e o projeto merece atenção porque não é resgate nostálgico, é colocar em circulação um escritor que faz falta, que SEMPRE fez falta, e que agora pode ser lido sem depender de edições esgotadas da Cosac Naify.

Quatorze contos. Quatorze variações do mesmo diagnóstico. A classe social como aparelho ortopédico que mantém em pé corpos que sem ele não teriam FORMA.

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Sicko

Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.

Editor literário e resenhista. Especialista em ficção, graphic novels e cultura digital.

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