O roteiro de Dia D chegou de moto. Na manhã seguinte, Spielberg mandou outra moto buscar
Josh O'Connor revelou que o roteiro de Dia D foi entregue por motocicleta e recolhido no dia seguinte. Spielberg enviou mensagens de madrugada para preparar o elenco.
Uma moto apareceu com o roteiro. Na manhã seguinte, outra moto voltou para buscar.
Josh O’Connor estava no Reino Unido filmando Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out quando o roteiro de Dia D chegou da forma que nenhum outro projeto havia chegado para ele antes. Sem PDF, sem plataforma de compartilhamento segura, sem assistente de produção. Uma motocicleta. Doze horas depois, outra motocicleta para recolher. “Foi a primeira vez que isso aconteceu comigo”, disse O’Connor ao Deadline. “É uma experiência muito estranha, mas faz sentido.”
Faz sentido porque quando Spielberg quer guardar segredo, ele cria um protocolo que não existe em nenhum manual de produção.
A entrega do roteiro como extensão da ficção
Dia D chega aos cinemas brasileiros no dia 11 de junho de 2026. O filme volta ao terreno específico que Spielberg abriu em Contatos Imediatos de Terceiro Grau, de 1977 - a presença extraterrestre como segredo de Estado, como dado suprimido, como verdade que alguém quer revelar e outro quer enterrar. Guerra dos Mundos, de 2005, também tinha alienígenas, mas era adaptação de H.G. Wells e funcionava como thriller de sobrevivência: os seres vinham matar, e Cruise fugia. Dia D não é sobre sobreviver. É sobre saber.
O’Connor confirma o que Emily Blunt já havia insinuado: Dia D funciona como uma resposta às questões que Contatos Imediatos deixou em suspensão. Não é continuação, não divide universo narrativo com o filme de 1977, não tem Roy Neary seguindo naves pelo Wyoming. Mas parte do mesmo pressuposto - de que há algo sendo ocultado - e o leva às consequências que o filme anterior preferiu não mostrar.
O ator, conhecido pelo papel do Príncipe Charles em The Crown e pela performance física e emocional em Challengers, de 2024, interpreta Daniel Kellner, um especialista em segurança digital com acesso a documentos classificados sobre a existência de vida extraterrestre na Terra. Daniel decide vazar tudo. A escolha de O’Connor para o papel é a do ator que sabe o que fazer com a vulnerabilidade de quem carrega algo maior do que pode suportar sozinho. Spielberg não é o tipo de diretor que escala por acidente.
A mecânica do sigilo vai além da motocicleta. O’Connor revelou que o diretor lhe enviou uma mensagem tarde da noite antes de uma cena emocionalmente complexa. A mensagem dizia apenas: “A porta está na maçaneta. É só empurrar.” Nada mais. O’Connor entendeu o que a cena exigia.
Diretores trabalham de formas distintas quando precisam criar intimidade com o elenco. Alguns usam ensaio exaustivo. Outros dependem da espontaneidade controlada no set. Spielberg, pelo que O’Connor descreve, usa a metáfora entregue na hora certa, com precisão que parece simples e não é. A porta está na maçaneta. É só empurrar.
Quase cinquenta anos depois de Contatos Imediatos de Terceiro Grau
O elenco de Dia D foi montado com a lógica de quem pensa em atrito.

Emily Blunt interpreta Margaret Fairchild, uma meteorologista de Kansas City que começa a manifestar sintomas inexplicáveis ao vivo - ela passa a falar em línguas durante uma transmissão. Colin Firth é Noah Scanlon, o chefe da corporação Wardex, que tem interesse direto em manter a verdade suprimida. Eve Hewson é a namorada de Daniel. Colman Domingo é um desertor da própria Wardex que passou para o outro lado.
O roteiro é de David Koepp, colaborador de longa data de Spielberg (Jurassic Park, em 1993; Guerra dos Mundos, em 2005). Koepp sabe o que Spielberg precisa na página: estrutura que aguenta o peso do espetáculo sem ceder à explicação. O filme, segundo Spielberg, vai fazer o público questionar o que acontece no céu. Uma promessa que, vinda do diretor que filmou a chegada da nave-mãe em Contatos Imediatos com refletores que pareciam uma segunda luz solar, tem peso diferente do habitual.
John Williams compõe a trilha. É a trigésima colaboração entre os dois, parceria que começou com The Sugarland Express, em 1974, e atravessou Tubarão, os Indiana Jones, a Lista de Schindler, Lincoln. Williams tem 94 anos. Spielberg tem 79. A maior parceria entre diretor e compositor na história do cinema americano continua, e ela está num filme sobre o que existe além da atmosfera.
Já escrevemos sobre a relação de Spielberg com os gêneros que ele deliberadamente evitou - e sobre como esse cálculo revela mais sobre o diretor do que qualquer entrevista. O retorno ao extraterrestre é o oposto disso: um gênero que ele fundou, abandonou por quatro décadas, e ao qual volta com um sistema de segurança que envolve motocicletas e mensagens noturnas enigmáticas.
Spielberg disse que Dia D é “envolto em mistério total”. O’Connor leu o roteiro naquela noite e o devolveu de manhã. O que ficou na cabeça do ator, ninguém sabe. Mas ele topou.
Dia D estreia no Brasil em 11 de junho de 2026.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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