A Odisseia de Christopher Nolan tem Matt Damon, Ciclope e uma câmera de película que não existe em mais nenhum filme do planeta

Nolan filmou o primeiro épico inteiramente em IMAX 70mm, em cinco países, com Matt Damon como Odisseu. A Odisseia estreia nos cinemas brasileiros em 16 de julho de 2026.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
5 de maio de 2026 6 min
Matt Damon como Odisseu com barba e armadura desgastada, olhando para o mar em cena de A Odisseia de Christopher Nolan
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Existe uma tradição entre cineastas sérios de pegar a palavra “odisseia” emprestada para nomear suas ambições. Kubrick a usou para um filme sobre astronautas e monolitos em 1968. Nolan, ao longo de toda a sua carreira, criou odisseias sem nunca precisar da palavra: Bruce Wayne retornando de morrer no gelo, Cobb tentando chegar em casa através dos sonhos, Oppenheimer atravessando o julgamento da história. Agora Nolan resolveu parar com as metáforas.

O trailer de A Odisseia, novo filme de Christopher Nolan, foi lançado na noite de 4 de maio no The Late Show with Stephen Colbert, e tem a qualidade específica de imagens que foram capturadas com luz verdadeira em lugares verdadeiros.

Película e lugares reais: a escolha que antecede tudo

A Odisseia é o primeiro longa-metragem narrativo da história filmado inteiramente em câmeras IMAX 70mm.

O formato usa negativos físicos dez vezes maiores que o 35mm convencional - e o que isso significa na prática é uma textura de grão, uma profundidade de campo e aquela sensação específica de que você está olhando para luz preservada em prata, não para pixels organizados em pós-produção. Num momento em que até os grandes épicos migraram completamente para o digital, é uma escolha deliberadamente anacrônica. Ou, dependendo de como você olha, a única escolha honesta disponível para um diretor que lida com material de três mil anos.

Para executar isso, Nolan levou equipe e elenco a cinco países em 91 dias de filmagem, entre fevereiro e agosto de 2025, encerrando tudo nove dias antes do cronograma previsto. Marrocos, Grécia, Islândia, Escócia, Itália. Não em qualquer parte da Grécia: foram às locações reais da mitologia homérica, à gruta de Nestor em Voidokilia, à Sicília onde a tradição situa o episódio do Ciclope, às ilhas Eólias onde Odisseu visita o deus dos ventos. O orçamento foi de 250 milhões de dólares, tornando A Odisseia a produção mais cara da carreira do diretor.

O elenco que Nolan montou para Homero

Matt Damon é Odisseu, o rei de Ítaca que passou dez anos na guerra de Troia e outros dez tentando chegar em casa. Tom Holland é Telêmaco, o filho que cresceu sem pai. Anne Hathaway é Penélope, a esposa que esperou vinte anos enquanto desfiava à noite o que havia tecido durante o dia para adiar os pretendentes. Robert Pattinson é Antínoo, o pretendente que quer o trono e a legitimidade que vem com ele.

Charlize Theron interpreta Calipso, a ninfa que deteve Odisseu sete anos em sua ilha. Há uma cena no trailer em que Damon, desorientado, pergunta sobre memórias que perdeu, e Theron responde com a mistura específica de desejo e crueldade que define o personagem desde que alguém inventou Homero. É a melhor cena do trailer. Zendaya aparece como Atena, deusa que guia o herói de longe com inteligência disfarçada de coincidência - um casting tão bem pensado que passou despercebido nos primeiros ciclos de cobertura.

Sobre Holland, Nolan declarou à Deadline: “Ele é simplesmente um talento incrível. Ele é muito, muito bom.” É o elogio que seria genérico em outra boca e que, vindo de Nolan sobre um ator com quem nunca havia trabalhado antes, funciona como avaliação de bastidor.

A frase sobre Homero que vai incomodar as pessoas certas

Em entrevista para divulgar o trailer, Nolan disse que Homero “é o Marvel de sua época”, que as epopeias homéricas são “a cultura dos quadrinhos de dois mil anos atrás”, e que toda a narrativa popular contemporânea - de Star Wars ao MCU - descende diretamente do material que estava adaptando: “Mesmo a cultura dos quadrinhos, seja Marvel, DC ou qualquer outra, boa parte dela vem bem diretamente das epopeias homéricas.”

É uma observação academicamente óbvia que se torna culturalmente interessante quando você considera quem está falando. Nolan construiu sua reputação precisamente ao se distinguir do entretenimento de franquia que essa afirmação equipara ao material mais antigo de sua filmografia. Se Homero é o Marvel da Antiguidade, então A Odisseia pode ser o blockbuster do verão, não o antídoto a ele. A cena do Ciclope no trailer apoia essa leitura: Damon olha para o gigante aparentemente adormecido, cochinha que parece estar dormindo, e está visivelmente errado. É uma piada de aventura com timing de comédia. É também Homero literal, retirado do Canto IX da Odisseia.

O calendário da estreia ajuda a contextualizar a questão. A Odisseia abre nos cinemas brasileiros em 16 de julho de 2026 - um dia antes dos Estados Unidos, numa inversão pouco comum que favorece o Brasil - e no mesmo fim de semana que Spider-Man: Brand New Day. O rei de Ítaca versus o Homem-Aranha. O pai de toda a narrativa popular ocidental versus um de seus descendentes mais diretos. A Universal pode chamar de coincidência.

Vale notar que 2026 está se revelando um ano de adaptações ambiciosas de material cult: Alex Garland está fazendo algo parecido com Elden Ring para a A24, com orçamento igualmente agressivo e aposta similar em um diretor de autor para material que a indústria costuma tratar como produto. A diferença é que Nolan está adaptando o original que inspirou quase tudo.

Ritmo intencional e o que fica fora do quadro

O ritmo do trailer é deliberadamente lento para um épico de ação. Os diálogos são diretos, quase informais, com sotaque americano onde o hábito condicionaria inglês britânico de produção histórica. O Ciclope aparece por poucos segundos, mais como ameaça do que como showcase de efeitos visuais. As sereias são ouvidas antes de vistas. Nolan sabe que o que fica fora do quadro acumula mais pressão do que o que entra nele.

As imagens do mar siciliano e das dunas marroquinas têm uma qualidade que os épicos digitais contemporâneos não reproduzem. Não é nostalgia pela película nem fetiche técnico: a IMAX 70mm registra a luz de uma forma que os sensores digitais ainda não alcançam, e essa diferença é visível quando você tem um mar real filmado com luz real. Está na textura do plano, na maneira como o horizonte pesa, na sensação de que o enquadramento foi decidido antes e não pode ser desfeito depois.

Kubrick pegou a palavra “odisseia” emprestada para falar de humanos se tornando algo maior que si mesmos. Nolan foi até as origens, filmou nos lugares onde a história foi inventada e voltou com 250 milhões de dólares gastos em película e locações reais. O trailer sugere que foi bem gasto.

A Odisseia estreia nos cinemas brasileiros em 16 de julho de 2026.

Felipe Ouder
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Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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