Werner Herzog devolveu o convite de Cannes 2026. A razão diz o que o festival prefere não discutir.

Com 83 anos e dois prêmios em Cannes, Werner Herzog recusou o convite de 2026 porque o festival ofereceu seleção oficial sem vaga na competição - e não seria a primeira vez que isso acontece.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
9 de maio de 2026 5 min
Werner Herzog com expressão séria em evento de cinema
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Werner Herzog tem 83 anos e ainda decide quais festas frequentar. Cannes 2026 tentou convidá-lo. Ele recusou.

O filme é “O Vale Imaginário” (no original, “Bucking Fastard”), rodado na Irlanda. Herzog acompanhou as gêmeas Rooney e Kate Mara enquanto elas buscam um lugar imaginário onde o amor verdadeiro é possível e escavam um túnel com as próprias mãos. O elenco inclui Domhnall Gleeson e Orlando Bloom. O título original vem de um spoonerism - uma troca involuntária de sílabas iniciais - que as irmãs reais nas quais as Mara se basearam, Freda e Greta Chaplin, pronunciaram em tribunal durante um processo judicial. O tribunal registrou em ata. Herzog encontrou isso e não precisou de mais nada para nomear o filme.

Por que Cannes não recebeu “O Vale Imaginário”

Cannes ofereceu “Cannes Première”, seção de seleção oficial que coloca o filme no programa do festival mas fora da competição principal. Sem Palma de Ouro. Sem júri. Os produtores recusaram porque Rooney e Kate Mara não poderiam concorrer a prêmio algum. A regra é simples: filmes fora da competição não são elegíveis para os prêmios de atuação. A matemática era clara. Recusaram.

Não é a primeira vez que esse impasse acontece. No ano passado, Jim Jarmusch recusou Cannes 2025 com “Pai Mãe Irmã Irmão” pelo mesmo motivo: filme oferecido para seleção oficial, sem vaga na competição, produtores declinaram. Jarmusch foi para Veneza, concorreu na competição principal e ganhou o Leão de Ouro. O padrão começa a se repetir com frequência suficiente para não ser mais coincidência.

O que “Cannes Première” oferece e o que retém

A seção “Cannes Première” existe desde 2021. É uma vitrine para filmes de diretores estabelecidos que, por algum motivo, não entram na competição principal. Há valor nisso, é Cannes, afinal. Mas o valor é assimétrico.

Para um cineasta como Herzog, a seleção oficial sem competição é uma honra que chega pela metade. É como ser convidado para sentar na plateia enquanto contemporâneos sobem ao palco. Para as atrizes, é pior: nenhum prêmio, nenhum reconhecimento formal do júri. O festival sabe disso. E continua praticando essa política para filmes que considera valiosos o suficiente para o catálogo do evento, mas que por alguma razão não encaixam na competição. A razão raramente é explicada com clareza.

Herzog e os dois momentos em que Cannes o reconheceu de verdade

A relação de Werner Herzog com Cannes não é de estranhos. Em 1975, “O Enigma de Kaspar Hauser” ganhou o Grande Prêmio do Júri. Em 1982, “Fitzcarraldo” rendeu a ele o prêmio de melhor diretor. São duas obras centrais da cinematografia do século XX, e as duas passaram por Cannes a caminho da história.

Klaus Kinski em Fitzcarraldo (1982)
Klaus Kinski em Fitzcarraldo (1982)

“Fitzcarraldo” existe no limite do razoável. Herzog arrastou literalmente um barco a vapor pela floresta amazônica. Não filmou em miniatura. Não usou efeito especial. Arrastou um barco real, morro acima, com Klaus Kinski no papel principal e a floresta como co-protagonista. Para quem não conhece, o documentário “O Peso dos Sonhos” (1982), de Les Blank, registra o que aconteceu nos bastidores e é mais perturbador do que o próprio filme.

Esse é o Herzog que Cannes 2026 tentou honrar com uma seleção não competitiva.

O que se sabe sobre “O Vale Imaginário”

Pouco ainda foi revelado. As primeiras imagens mostram Rooney e Kate Mara em uma Irlanda fria, escavando terra com uma determinação que parece clínica.

Rooney Mara, Kate Mara e Lena Herzog em cena de O Vale Imaginário
Rooney Mara, Kate Mara e Lena Herzog em cena de O Vale Imaginário
A história das gêmeas reais, Freda e Greta Chaplin, é suficientemente absurda para atrair Herzog: as duas viviam inseparáveis em Leeds, vestiam roupas idênticas até a velhice, e tinham um modo de existir em conjunto que os vizinhos não conseguiam classificar. Quando tentaram separá-las à força, o resultado foram processos judiciais e o spoonerism que deu nome ao filme.

Herzog tem uma atração documentada por figuras que resistem à categorização. Kaspar Hauser apareceu numa praça de Nuremberg em 1828, sem história conhecida. Tim Treadwell foi viver com ursos no Alasca até ser devorado por um deles. Dieter Dengler sobreviveu a um campo de prisioneiros no Laos e voltou pra contar. A câmera de Herzog sempre esteve interessada em pessoas que habitam a margem do que consideramos comportamento inteligível.

Freda e Greta Chaplin cabem nessa tradição sem forçar. E com Rooney Mara, que construiu sua carreira exatamente nesse tipo de personagem limite - de “Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” (2011) a “Carol” (2015) -, a escolha de elenco parece exata.

Jarmusch, Herzog e o padrão que Cannes ainda não explicou

Há algo mais revelador no gesto de recusar do que qualquer presença teria sido.

Quando um diretor de 83 anos com dois prêmios em Cannes diz não para Cannes, o sinal não precisa de legenda. O mesmo aconteceu com Jarmusch no ano anterior. Está acontecendo com frequência crescente. O festival mais importante do cinema mundial oferece lugar na sala sem lugar no palco, e cineastas com poder de escolha começam a preferir a ausência a esse tipo de convite.

Não é crise. É pressão. E como toda pressão acumulada em estruturas antigas, a tendência é que algo ceda eventualmente - ou que o festival comece a perder exatamente o tipo de filme que deu a ele a reputação que o sustenta.

A decisão de não ir é, em si, um gesto de cinema.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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