As diretoras de Black Mirror e Loki recusaram dirigir a série Harry Potter da HBO por causa da Rowling

Ally Pankiw postou o print recusando o convite. Kate Herron diz que já disse não duas vezes. A série estreia no Natal com Rowling como produtora executiva.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
15 de agosto de 2026 6 min
Retrato da diretora Ally Pankiw apoiada na mão, sobre fundo verde-escuro
!!

Em 2023, Ally Pankiw dirigiu “Joan Is Awful”, o episódio que abre a sexta temporada de Black Mirror. A premissa é simples e cruel: uma mulher comum descobre que assinou, sem ler, um contrato que dá a uma plataforma de streaming o direito de transformar a vida dela em conteúdo. Três anos depois, chegou até Pankiw, pela agente dela, o convite para dirigir a série Harry Potter da HBO. A resposta foi curta, e a diretora fez questão de publicar o print no Instagram.

A imagem mostra uma troca de mensagens datada de 21 de abril. “Eu tenho um palpite sobre a resposta, mas me sinto obrigada a perguntar”, escreve a agente, antes de emendar: “Harry Potter? Não, né?” A resposta de Pankiw vem em duas linhas: “Absolutamente que porra nenhuma! lol” e “(Mas obrigada por perguntar)”. A parte mais reveladora vem depois, quando a agente encerra o assunto com “Claro :)”, “Imaginei” e um “(E concordo)” entre parênteses. A pessoa cujo trabalho é conseguir emprego para a diretora estava do mesmo lado.

Print da conversa por mensagem entre Ally Pankiw e a agente dela, em 21 de abril, recusando o convite para dirigir a série Harry Potter da HBO
Print da conversa por mensagem entre Ally Pankiw e a agente dela, em 21 de abril, recusando o convite para dirigir a série Harry Potter da HBO

Pankiw guardou o print por quatro meses antes de publicar. Na legenda do post, que saiu na quinta-feira, ela endereçou o recado a quem já assinou contrato: “É simplesmente assim tão fácil dizer não a financiar transfobia.”

Kate Herron apareceu nos comentários com um dado bem menos confortável para a HBO. “Já me chamaram duas vezes e tive que explicar que minha resposta nunca vai mudar de um ‘não’”, escreveu ela, antes de completar: “Isso, exatamente. Respeito e amor pra você, Ally.” Procurada pela imprensa americana, a equipe de J.K. Rowling não quis comentar. A HBO também não respondeu.

Quem são as duas diretoras que disseram não

Nenhuma das duas é forasteira em franquia grande, o que dá peso à recusa. Herron dirigiu os seis episódios da primeira temporada de Loki, a série que a Marvel usou para provar que dava para levar o multiverso para a televisão sem parecer um filme cortado em pedaços. Depois disso ela dirigiu quatro episódios da primeira temporada de Sex Education, assinou “Day One”, o quarto episódio da segunda temporada de The Last of Us, e entrou como co-roteirista de um episódio de Doctor Who. É exatamente o perfil de currículo que um estúdio caça quando precisa de alguém capaz de manejar orçamento alto, efeito visual pesado e elenco infantil ao mesmo tempo.

Pankiw veio por outro caminho. Escreveu para Schitt’s Creek, dirigiu a primeira temporada de Feel Good, série criada e protagonizada por Mae Martin, pessoa não binária, e estreou em longa-metragem com “I Used to Be Funny”, de 2023, com Rachel Sennott. É uma filmografia construída em cima de histórias queer e de personagens que a televisão costumava tratar como nota de rodapé. O “não” dela tem coerência com o resto da obra.

Vale dizer o tamanho real do que foi recusado, porque televisão de prestígio funciona diferente de cinema. Numa série assim, quem manda é o showrunner, o profissional que acumula as funções de roteirista-chefe e chefe de produção e responde pela série inteira. No caso, Francesca Gardiner, que veio de Succession. O diretor de episódio entra contratado para executar dois ou três capítulos dentro de uma gramática visual já definida por outra pessoa, no caso Mark Mylod, também vindo de Succession. Recusar isso custa menos do que custaria a um ator recusar um papel fixo por sete temporadas. A frase de Pankiw sobre ser “assim tão fácil” só funciona porque, para ela, era mesmo mais fácil.

A HBO promete que a série não terá as opiniões da Rowling, mas ela assina como produtora executiva

Rowling é produtora executiva da adaptação, trabalhou de perto com os roteiristas e recebe por isso. Em novembro de 2024, o chairman e CEO da HBO, Casey Bloys, disse a repórteres que a autora estava “muito, muito envolvida no processo de escolha do roteirista e do diretor”. No ano seguinte, no podcast The Town, o mesmo Bloys tentou encerrar o assunto: “Está bem claro que essas são as opiniões políticas pessoais dela. Ela tem direito a elas. Harry Potter não está sendo secretamente infundido com nada.”

A defesa responde a uma acusação que ninguém fez. O ponto que Pankiw levantou é contábil: cada temporada dessa série aumenta o patrimônio de uma autora que financia campanhas contra direitos de pessoas trans no Reino Unido. O conteúdo dos episódios é irrelevante nessa conta. A discussão sobre o que fazer com esse dinheiro já rendeu texto aqui na Ovelha, quando debatemos se existe alguma forma ética de assistir à série, e a resposta continua incômoda para todo mundo.

Do lado de quem assinou, houve gente encarando a pergunta de frente. Paapa Essiedu, escalado como Snape, assinou em 2025 uma carta aberta por direitos trans junto com centenas de profissionais britânicos, escrita em reação às declarações de Rowling sobre a decisão da Suprema Corte do Reino Unido. A autora respondeu publicamente que não tinha poder para demiti-lo e que não usaria esse poder se tivesse. Essiedu disse depois ter se sentido “muito apoiado” pela produção e que assinaria a carta de novo hoje. Bel Powley, a tia Petúnia, foi direta há poucos dias: “Discordo fortemente das opiniões da J.K. Rowling sobre gênero. Acho que a comunidade trans merece segurança, dignidade, respeito e aceitação total.” Nick Frost, o Hagrid, resumiu do jeito dele: “Ela tem direito à opinião dela e eu tenho direito à minha, elas só não se alinham de forma nenhuma.”

Nem todo mundo aguentou a pressão com a mesma firmeza. John Lithgow, o Dumbledore, chamou as posições de Rowling de inexplicáveis em fevereiro e, um mês depois, disse que elas tinham sido deturpadas. A internet notou a diferença entre as duas entrevistas antes que a assessoria conseguisse notar.

A série estreia no Natal, e o público brasileiro vai assistir mesmo assim

Aqui no Brasil, a primeira temporada, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, chega à HBO Max em 25 de dezembro, com oito episódios. O plano da Warner é dedicar uma temporada inteira a cada livro, e a segunda já está garantida: as filmagens de “A Câmara Secreta” começam ainda no fim de 2026, com Nicholas Hoult escalado como Gilderoy Lockhart.

E o boicote vai ser minoritário, sejamos honestos. O trailer da série bateu 277 milhões de visualizações em 48 horas e destruiu qualquer marca anterior da HBO. Uma parcela enorme do público brasileiro cresceu com esses livros nas estantes da Rocco, e vai clicar em play na noite de Natal sem abrir nenhuma aba de contexto político. Isso vai acontecer, é previsível e não adianta fingir surpresa.

O que muda com o post de Pankiw é o preço da desculpa. Enquanto a recusa era hipotética, dava para dizer que ninguém em Hollywood tinha coragem, ou que a máquina era grande demais para ser contrariada. Agora existem duas diretoras com currículo de Marvel e HBO dizendo em público que receberam o convite, leram, e responderam não. Uma delas, duas vezes.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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