Dungeon Crawler Carl vira série na Peacock, com o narrador do audiolivro como Princesa Donut. E a Peacock não existe no Brasil

Dungeon Crawler Carl vira série live-action na Peacock, com o narrador dos audiolivros dublando a Princesa Donut. E a Peacock não opera no Brasil.

Yumi Rodrigues
Yumi Rodrigues Já vi tudo, ainda acho que tem série boa pra descobrir
1 de agosto de 2026 5 min
Montagem com a capa do livro Dungeon Crawler Carl, em preto e amarelo, ao lado de uma foto do autor Matt Dinniman num evento segurando uma pelúcia da gata Princesa Donut de boné rosa e óculos escuros
!!

Toda vez que eu explico a premissa de Dungeon Crawler Carl pra alguém, a pessoa faz a mesma cara. Um veterano da Guarda Costeira e a gata da ex-namorada dele sobrevivem ao apocalipse alienígena participando de um reality show transmitido pro universo inteiro. A gata ganha a habilidade de falar. Ela se chama Princesa Donut. É um dos livros mais vendidos dos últimos cinco anos e pouca gente que você conhece pessoalmente leu.

Isso está prestes a mudar, e do jeito mais frustrante possível pra quem mora aqui.

A Peacock encomendou a adaptação em live-action direto como série, sem passar por episódio piloto, o que na prática significa que o canal apostou o dinheiro antes de ver um minuto filmado. Quem escreve é Chris Yost, roteirista dos dois primeiros filmes do Thor. A produção fica com a Fuzzy Door, produtora do Seth MacFarlane, junto com a Universal Global Television. A primeira temporada cobre só o livro 1, aquele das dezoito fases criadas pelo Sindicato.

A escalação que fez o fandom perder a cabeça

Aqui vem a parte que fez o fandom surtar, e que eu não consigo parar de pensar.

Jeff Hays vai dublar a Princesa Donut.

Se esse nome não diz nada pra você, deixa eu contextualizar, porque essa decisão é a coisa mais generosa que um estúdio fez com um fandom em muito tempo. Hays é o narrador dos audiolivros de Dungeon Crawler Carl, produzidos pela Soundbooth Theater, a empresa que ele fundou. Esquece a imagem do senhor de voz grave lendo capítulo por capítulo: são produções com elenco completo, efeitos sonoros e trilha, mais perto de uma radionovela do que de uma leitura. Andrea Parsneau, Travis Baldree e Heath Miller dividem o microfone com ele nos volumes mais recentes.

E funcionou de um jeito absurdo. Os audiolivros já acumulam mais de 140 milhões de horas ouvidas no Audible. Tem muita gente que ama essa história e nunca leu uma página dela, só ouviu. A voz da Donut na cabeça dessas pessoas é a voz do Jeff Hays. Trocar isso por um ator famoso seria a decisão óbvia de estúdio, e alguém na sala teve a decência de não tomar.

O Matt Dinniman, autor dos livros, resumiu assim: “Estamos tentando mostrar aos fãs que a gente está ouvindo, e fazendo o nosso melhor pra permanecer o mais fiel possível à história.”

Eu quero muito acreditar. Já ouvi essa frase antes, dita com a mesma sinceridade, por gente que depois entregou coisa irreconhecível.

De site de fanfic a 14 milhões de cópias

A trajetória desses livros é o tipo de história que os fãs adoram contar, e com razão.

Dinniman começou a publicar Dungeon Crawler Carl de graça no Royal Road, um site onde qualquer pessoa posta capítulos de ficção seriada e recebe comentário de leitor em tempo real. Isso foi em 2020. Ele autopublicou o primeiro livro na Amazon em outubro do mesmo ano e seguiu sozinho, sem editora, até 2024, quando a Penguin Random House comprou os direitos de impressão pelo selo Ace.

Os oito livros já venderam mais de 14 milhões de cópias. Só o primeiro fez 2,7 milhões e ficou dezenove semanas seguidas na lista de mais vendidos do New York Times. O sétimo chegou a segundo lugar na lista de ficção em áudio do mesmo jornal.

Pra ter noção do que isso significa: LitRPG, o gênero da série, é literatura que usa a estrutura de um RPG dentro da narrativa. O personagem sobe de nível, ganha atributos, recebe notificação de sistema no meio da cena. É um gênero que praticamente nenhuma editora grande tocava até anteontem, tratado como nicho de internet. Dinniman transformou isso em fenômeno de lista de bestseller sem pedir licença pra ninguém.

O problema para os brasileiros

A Peacock não opera no Brasil.

A própria plataforma avisa, na cara dura, que o seu aparelho precisa estar fisicamente nos Estados Unidos pra assistir qualquer coisa. Não existe assinatura brasileira, não existe catálogo brasileiro, não existe data.

O timing é o que dói. A HarperCollins Brasil lançou os dois primeiros volumes em português em novembro de 2025, com tradução de Letícia Werner: Carl, o Explorador de Masmorras, com 416 páginas, e Carl e o Cenário Apocalíptico, com 336. Custam R$ 69,90 cada em preço sugerido. Ou seja, tem um público brasileiro sendo formado exatamente agora, comprando os livros, se apaixonando pela Donut, e esse público vai chegar na estreia da série e bater numa porta trancada.

A saída provável é a de sempre: a NBCUniversal licencia o título pra alguma plataforma que existe aqui, meses ou anos depois, e a gente descobre por acaso navegando no catálogo. Enquanto isso, spoiler no Twitter à vontade.

Fico irritada com isso de um jeito específico. A gente já passou por essa fila com as adaptações de livros que dominaram as telas em 2026, e o padrão se repete: quanto mais nichada a obra, mais tarde ela chega, apesar de o público nichado ser justamente o que já está pronto pra assistir no dia um.

O que ainda não sabemos

Quase tudo, pra ser honesta. Não tem ator escalado pro Carl, que é, sabe, o protagonista. Não tem contagem de episódios. Não tem janela de estreia. A produção está rodando e o resto é silêncio.

O que me deixa cautelosamente otimista é a escolha de adaptar só o primeiro livro na temporada de estreia. Dá tempo de estabelecer as regras malucas do jogo antes de correr pra frente, que foi exatamente o erro de tanta adaptação de fantasia recente. É a mesma paciência que a HBO prometeu com a série de Baldur’s Gate do Craig Mazin, e que ainda vamos descobrir se alguém consegue cumprir.

Por ora, o mais próximo que o Brasil chega dessa história custa R$ 69,90 e tem 416 páginas. Sinceramente? Comece por aí. A Donut merece.

Yumi Rodrigues
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Yumi Rodrigues

Já vi tudo, ainda acho que tem série boa pra descobrir

Especialista em séries de TV e plataformas de streaming. Analisa lançamentos e tendências.

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