Dungeon Crawler Carl vira série na Peacock, com o narrador do audiolivro como Princesa Donut. E a Peacock não existe no Brasil
Dungeon Crawler Carl vira série live-action na Peacock, com o narrador dos audiolivros dublando a Princesa Donut. E a Peacock não opera no Brasil.
Toda vez que eu explico a premissa de Dungeon Crawler Carl pra alguém, a pessoa faz a mesma cara. Um veterano da Guarda Costeira e a gata da ex-namorada dele sobrevivem ao apocalipse alienígena participando de um reality show transmitido pro universo inteiro. A gata ganha a habilidade de falar. Ela se chama Princesa Donut. É um dos livros mais vendidos dos últimos cinco anos e pouca gente que você conhece pessoalmente leu.
Isso está prestes a mudar, e do jeito mais frustrante possível pra quem mora aqui.
A Peacock encomendou a adaptação em live-action direto como série, sem passar por episódio piloto, o que na prática significa que o canal apostou o dinheiro antes de ver um minuto filmado. Quem escreve é Chris Yost, roteirista dos dois primeiros filmes do Thor. A produção fica com a Fuzzy Door, produtora do Seth MacFarlane, junto com a Universal Global Television. A primeira temporada cobre só o livro 1, aquele das dezoito fases criadas pelo Sindicato.
A escalação que fez o fandom perder a cabeça
Aqui vem a parte que fez o fandom surtar, e que eu não consigo parar de pensar.
Jeff Hays vai dublar a Princesa Donut.
Se esse nome não diz nada pra você, deixa eu contextualizar, porque essa decisão é a coisa mais generosa que um estúdio fez com um fandom em muito tempo. Hays é o narrador dos audiolivros de Dungeon Crawler Carl, produzidos pela Soundbooth Theater, a empresa que ele fundou. Esquece a imagem do senhor de voz grave lendo capítulo por capítulo: são produções com elenco completo, efeitos sonoros e trilha, mais perto de uma radionovela do que de uma leitura. Andrea Parsneau, Travis Baldree e Heath Miller dividem o microfone com ele nos volumes mais recentes.
E funcionou de um jeito absurdo. Os audiolivros já acumulam mais de 140 milhões de horas ouvidas no Audible. Tem muita gente que ama essa história e nunca leu uma página dela, só ouviu. A voz da Donut na cabeça dessas pessoas é a voz do Jeff Hays. Trocar isso por um ator famoso seria a decisão óbvia de estúdio, e alguém na sala teve a decência de não tomar.
O Matt Dinniman, autor dos livros, resumiu assim: “Estamos tentando mostrar aos fãs que a gente está ouvindo, e fazendo o nosso melhor pra permanecer o mais fiel possível à história.”
Eu quero muito acreditar. Já ouvi essa frase antes, dita com a mesma sinceridade, por gente que depois entregou coisa irreconhecível.
De site de fanfic a 14 milhões de cópias
A trajetória desses livros é o tipo de história que os fãs adoram contar, e com razão.
Dinniman começou a publicar Dungeon Crawler Carl de graça no Royal Road, um site onde qualquer pessoa posta capítulos de ficção seriada e recebe comentário de leitor em tempo real. Isso foi em 2020. Ele autopublicou o primeiro livro na Amazon em outubro do mesmo ano e seguiu sozinho, sem editora, até 2024, quando a Penguin Random House comprou os direitos de impressão pelo selo Ace.
Os oito livros já venderam mais de 14 milhões de cópias. Só o primeiro fez 2,7 milhões e ficou dezenove semanas seguidas na lista de mais vendidos do New York Times. O sétimo chegou a segundo lugar na lista de ficção em áudio do mesmo jornal.
Pra ter noção do que isso significa: LitRPG, o gênero da série, é literatura que usa a estrutura de um RPG dentro da narrativa. O personagem sobe de nível, ganha atributos, recebe notificação de sistema no meio da cena. É um gênero que praticamente nenhuma editora grande tocava até anteontem, tratado como nicho de internet. Dinniman transformou isso em fenômeno de lista de bestseller sem pedir licença pra ninguém.
O problema para os brasileiros
A Peacock não opera no Brasil.
A própria plataforma avisa, na cara dura, que o seu aparelho precisa estar fisicamente nos Estados Unidos pra assistir qualquer coisa. Não existe assinatura brasileira, não existe catálogo brasileiro, não existe data.
O timing é o que dói. A HarperCollins Brasil lançou os dois primeiros volumes em português em novembro de 2025, com tradução de Letícia Werner: Carl, o Explorador de Masmorras, com 416 páginas, e Carl e o Cenário Apocalíptico, com 336. Custam R$ 69,90 cada em preço sugerido. Ou seja, tem um público brasileiro sendo formado exatamente agora, comprando os livros, se apaixonando pela Donut, e esse público vai chegar na estreia da série e bater numa porta trancada.
A saída provável é a de sempre: a NBCUniversal licencia o título pra alguma plataforma que existe aqui, meses ou anos depois, e a gente descobre por acaso navegando no catálogo. Enquanto isso, spoiler no Twitter à vontade.
Fico irritada com isso de um jeito específico. A gente já passou por essa fila com as adaptações de livros que dominaram as telas em 2026, e o padrão se repete: quanto mais nichada a obra, mais tarde ela chega, apesar de o público nichado ser justamente o que já está pronto pra assistir no dia um.
O que ainda não sabemos
Quase tudo, pra ser honesta. Não tem ator escalado pro Carl, que é, sabe, o protagonista. Não tem contagem de episódios. Não tem janela de estreia. A produção está rodando e o resto é silêncio.
O que me deixa cautelosamente otimista é a escolha de adaptar só o primeiro livro na temporada de estreia. Dá tempo de estabelecer as regras malucas do jogo antes de correr pra frente, que foi exatamente o erro de tanta adaptação de fantasia recente. É a mesma paciência que a HBO prometeu com a série de Baldur’s Gate do Craig Mazin, e que ainda vamos descobrir se alguém consegue cumprir.
Por ora, o mais próximo que o Brasil chega dessa história custa R$ 69,90 e tem 416 páginas. Sinceramente? Comece por aí. A Donut merece.
Yumi Rodrigues
Já vi tudo, ainda acho que tem série boa pra descobrir
Especialista em séries de TV e plataformas de streaming. Analisa lançamentos e tendências.
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