O que as 544 páginas de uma revista extinta revelam sobre o nosso eterno desconforto
Eightball Completo chega ao Brasil pela Darkside Books e revela a cartografia definitiva da misantropia de Daniel Clowes.
Existe um tipo específico de silêncio que só habita as lanchonetes de beira de estrada e as lojas de conveniência que permanecem abertas às três da manhã. É um silêncio carregado de uma melancolia muito particular, típica de quem se sente estrangeiro no próprio bairro. Nos anos 90, enquanto o grande público buscava refúgio nas cores vibrantes e nos heróis musculosos da indústria hegemônica, uma parcela significativa de leitores encontrou sua voz nesse silêncio desconfortável através de uma revista chamada Eightball. A chegada de Eightball Completo Darkside às livrarias brasileiras não é apenas um evento editorial de luxo; é a devolução de um espelho distorcido, mas brutalmente honesto, para uma geração que aprendeu a ler o mundo através da ironia.

Daniel Clowes, o arquiteto desse monumento ao estranhamento, nunca foi um autor de fácil digestão. Ele pertence a uma linhagem de observadores sociais que inclui nomes como o cineasta Todd Solondz ou o escritor Raymond Carver, figuras que dedicam suas carreiras a cutucar as feridas abertas sob a superfície plastificada da classe média americana. Ao reunir as dezoito edições icônicas publicadas entre 1989 e 1997 em um volume de 544 páginas, a Darkside Books permite que observemos o amadurecimento técnico e temático de Clowes em tempo real. É um percurso que começa na sátira agressiva e termina em uma espécie de existencialismo suburbano que ainda hoje ressoa com uma força perturbadora.
Para quem cresceu devorando as edições da revista Animal ou acompanhando a revolução silenciosa de Maus, de Art Spiegelman, a importância histórica de Eightball é evidente. Ela foi o laboratório onde Clowes destilou o que viria a ser o quadrinho alternativo moderno. Foi nestas páginas que nasceu Ghost World, a história de Enid e Rebecca que capturou o tédio pós-adolescente com uma precisão que o cinema tentou, mas raramente conseguiu, replicar com a mesma crueza. Mas reduzir Eightball ao nascimento de Ghost World seria como ler o Aleph de Borges apenas por seus contos mais famosos, ignorando a rede complexa de obsessões que sustenta toda a obra.

A edição brasileira traz a tradução de Érico Assis, um nome que se tornou sinônimo de rigor e sensibilidade na transposição de obras fundamentais para o nosso idioma. Traduzir Clowes exige uma compreensão fina da gíria americana e, simultaneamente, daquele tom de voz seco, quase burocrático, que ele utiliza para descrever situações absurdas. Érico Assis, que já nos entregou versões memoráveis de Chris Ware e Joe Sacco, consegue manter a cadência necessária para que o humor ácido de Clowes não se perca em adaptações fáceis. A escolha do tradutor é, por si só, um selo de qualidade que valida o investimento da editora em tratar o quadrinho com o mesmo prestígio literário de um romance de Svetlana Aleksiévitch.
Dentro deste volume, encontramos joias como Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, uma narrativa surrealista que parece um pesadelo filmado por David Lynch, e as sátiras impiedosas de Dan Pussey, onde Clowes exorciza suas frustrações com a própria indústria dos quadrinhos. Há uma conexão intrínseca entre o desespero desses personagens e a crônica social russa do século XIX. Clowes é, guardadas as proporções geográficas e temporais, um herdeiro espiritual de Tchekhov. Ambos compartilham o interesse pelos “pequenos homens”, pelas vidas que não chegam a ser tragédias gregas, mas que se perdem em pequenos atos de covardia e inércia cotidiana.
O projeto gráfico da Darkside respeita a densidade do material. Eightball Completo, com suas 544 páginas, é, fisicamente, um objeto de resistência. Ele exige que o leitor mude sua postura, que dedique tempo a uma experiência que é o oposto do consumo efêmero de telas. Ver esse calhamaço nas prateleiras brasileiras, ao lado de clássicos da literatura, reforça o movimento de legitimação das graphic novels que autores como Alan Moore iniciaram décadas atrás. Mas, ao contrário de Moore e suas reconstruções mitológicas, Clowes opera no rés do chão. Ele está interessado no colecionador de discos obsessivo, na jovem que não se encaixa em lugar nenhum, no homem que odeia tudo o que é popular por puro instinto de defesa.

Mapear a influência de Daniel Clowes é entender como o quadrinho deixou de ser uma mídia de nicho juvenil para se tornar uma ferramenta de análise psíquica. Sem Eightball, dificilmente teríamos a explosão de autoficção e de realismo sujo que dominou o mercado independente nos anos subsequentes. Ele preparou o terreno para que autores como Adrian Tomine pudessem explorar a solidão urbana com ainda mais minimalismo. Clowes, contudo, mantém um pé no grotesco. Seus personagens têm rostos que parecem derreter sob a pressão social; suas proporções são ligeiramente erradas, evocando uma sensação de estranheza que nos impede de desviar o olhar.
É interessante notar como a publicação desta coletânea dialoga com o atual momento da produção editorial no Brasil. Enquanto grandes editoras recuam para títulos de apelo garantido, a aposta em um volume integral de Eightball demonstra uma confiança na maturidade do público local. Já não somos mais os leitores que precisam de justificativas para ler quadrinhos. Entendemos que a linguagem sequencial de Clowes é tão sofisticada quanto a prosa de um Philip Roth. A tradução de Érico Assis funciona aqui como uma ponte segura, garantindo que o sarcasmo e a melancolia não sejam suavizados pela barreira linguística.
Ao percorrer as dezoito edições, percebemos que a verdadeira protagonista de Eightball é a própria mudança cultural americana. Clowes captura o fim da era das lojas de curiosidades e o início de uma homogeneização cultural que ele claramente detesta. Seus quadrinhos são pequenos atos de rebeldia contra a pasteurização do mundo. Em histórias como Art School Confidential, ele destrói as pretensões do mundo das artes plásticas com uma alegria quase infantil na destruição. É essa honestidade bruta que faz com que a obra envelheça tão bem. O mundo de 1989 mudou drasticamente, mas o sentimento de desajuste que Clowes descreve é universal e atemporal.
Para o leitor que chega agora, talvez seduzido pela estética cult que envolve o nome do autor, o conselho é que não tente consumir as 544 páginas de uma só vez. Eightball foi feita para ser lida em doses, respeitando a periodicidade original que permitia ao leitor digerir cada bizarrice antes da próxima. É um livro que exige pausas para respirar. Ele nos confronta com as nossas próprias mesquinharias e com o ridículo das nossas pretensões intelectuais. Ler Daniel Clowes é aceitar que todos somos, em algum nível, personagens de uma lanchonete vazia, esperando por algo que talvez nunca chegue, enquanto comentamos o quão ruim é o café.
Se este volume serve como porta de entrada, ele aponta para caminhos que levam a outros mestres do desconforto, como as crônicas de solidão de Chris Ware em Jimmy Corrigan ou o olhar clínico de Charles Burns em Black Hole. A jornada por Eightball não termina na última página; ela se expande para uma percepção mais aguçada das rachaduras na fachada da normalidade que nos cerca. É um mapa para quem prefere as estradas secundárias e os becos mal iluminados da alma humana, onde a verdade raramente é bonita, mas é sempre necessária.
Helena Braga
O livro que você procura provavelmente está na estante dela