Elio perdeu o personagem gay, faturou R$900 mi a menos do que a Pixar esperava, e o chefe ainda disse que cinema "não é terapia"
Pete Docter revelou que a Pixar tirou a orientação sexual do protagonista de Elio porque o filme "não é terapia". O resultado? O pior fim de semana de estreia da história do estúdio.
O chefe criativo da Pixar acabou de confirmar o que todo mundo suspeitava: sim, eles retiraram a orientação sexual do protagonista de Elio. E a frase que ele usou para explicar essa decisão vai ficar na história - do jeito errado.
Pete Docter, diretor geral criativo do estúdio, disse ao Wall Street Journal: “Estamos fazendo um filme, não uma terapia de centenas de milhões de dólares.”
Guardem isso. Vamos precisar dela lá na frente.
O que era o Elio original
O roteiro original de Elio foi desenvolvido por Adrian Molina - o mesmo co-roteirista de Viva: A Vida é uma Festa - e tinha um elemento central: Elio era um garoto de 11 anos que se sentia profundamente fora do lugar, e parte disso vinha da sua orientação sexual. Molina, que é gay, estava colocando na história algo da sua própria infância.
Na versão original, tinha uma bicicleta rosa. Tinha uma cena em que Elio imaginava uma vida ao lado do garoto que ele gostava.
Não era nenhum manifesto. Era um detalhe humano num filme sobre se sentir diferente do mundo.
Depois dos testes internos, Docter mandou refazer. Molina saiu do projeto. As novas diretoras, Madeline Sharafian e Domee Shi, assumiram e entregaram o filme que chegou às telas em junho de 2025: um Elio mais neutro, mais seguro, sem nada que forçasse qualquer conversa entre pais e filhos.
O resultado nas bilheterias
US$35 milhões no fim de semana de estreia global.
Para ter noção do que isso significa: foi o pior resultado de abertura da história da Pixar. O estúdio que fez Procurando Nemo, Up, Toy Story, Viva. O pior de todos.
O filme terminou com US$154 milhões no total mundial, contra um orçamento estimado entre US$150 e US$200 milhões. Isso sem contar marketing, distribuição, exibição. Os analistas estimam um prejuízo de mais de US$100 milhões para a Disney.
O filme recebeu 82-84% no Rotten Tomatoes. Crítica ok, público indiferente, caixa vazio.

A frase que não envelhece bem
Voltando ao “não é terapia.”
Docter também disse que o trabalho da Pixar é “fazer filmes que agradem todo mundo.” Que ele não quer forçar os pais a ter conversas para as quais não estão prontos.
O problema é que Elio - o personagem - é exatamente sobre um garoto que não se encaixa. Um menino que ninguém entende direito. Que se sente de outro planeta, literalmente e figurativamente. Tirar a parte que explicava de onde vinha esse sentimento é como fazer Viva sem a família mexicana porque “pode ser cultural demais pra alguns.”
A Pixar construiu um império inteiro em cima de contar histórias que forçam conversas difíceis. Sobre morte (Up, Viva), sobre identidade (Soul), sobre saúde mental (Divertida Mente), sobre crescimento doloroso (Luca). Ninguém reclamou que esses filmes eram “terapia.”
Não foi só o Elio
Isso não veio do nada. A Pixar já tinha tirado, no ano anterior, um personagem transgênero da série animada Win or Lose - que ficou meses sem estrear enquanto a Disney decidia o que fazer com o conteúdo.
O padrão virou claro: qualquer representação LGBTQ+ que demandasse mais do que uma leitura superficial foi sendo eliminada dos projetos do estúdio. Não por falta de talento criativo. Por decisão corporativa.
Dentro da Pixar, isso gerou atrito. Funcionários do estúdio ficaram frustrados com os cortes, especialmente num projeto em que o diretor original colocou tanto de si mesmo.
O que isso diz sobre a Pixar agora
Cara de Um, Focinho de Outro - que estreou essa semana com 96% no Rotten Tomatoes - prova que o estúdio ainda consegue fazer filmes emocionantes e originais. Mas Elio é uma cicatriz diferente.
Não é uma questão de qualidade técnica. O filme tem animação linda, Zoe Saldaña no elenco, uma premissa criativa. O problema é o que foi tirado e o motivo.
Quando Docter diz que não quer fazer “terapia”, ele está dizendo que não quer que certos grupos de pessoas se vejam na tela de um jeito que vá além do acidental. É uma palavra forte pra uma decisão que afeta diretamente crianças que estão naquele mesmo lugar em que Molina estava - sentindo que são de outro planeta, sem um filme que diga “você não está sozinho.”
A ironia maior? O filme fracassou de qualquer jeito.
Fez o pior fim de semana de estreia da história do estúdio. Sem o storyline original, sem a história que Molina queria contar, e com um prejuízo de mais de US$100 milhões.
Se for pra perder dinheiro de qualquer jeito, ao menos podia ter contado a história certa.
Beatriz Almeida
Cinema é entretenimento, e eu tô aqui pra diversão
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