O livro de fantasia medieval que não deveria funcionar tão bem quanto funciona
Christopher Buehlman escreveu um livro sobre a Peste Negra que lê como road movie medieval com anjos caídos. Chega ao Brasil em maio pela Morro Branco.
Eu tinha uns quatorze anos quando li Dragonlance pela primeira vez. Crônicas, o volume 1, capa com o dragão dourado. O livro era ruim de um jeito que eu não tinha vocabulário pra descrever na época, mas FUNCIONAVA. Funcionava porque a promessa era irrecusável: um grupo de pessoas diferentes atravessando um mundo em colapso, encontrando coisas que não deveriam existir, e chegando do outro lado transformadas. Essa promessa é o motor de noventa por cento da fantasia que já foi escrita. A maioria dos livros não entrega. Alguns entregam. Entre Fogo e Sangue, de Christopher Buehlman, entrega de um jeito que me fez sentir quatorze anos de novo, exceto que agora os cadáveres têm cheiro e os demônios não esperam o herói terminar o monólogo.
Não é literatura. Preciso tirar isso do caminho porque alguém vai perguntar. Buehlman não é Cormac McCarthy. Não está tentando ser. Não está escrevendo uma meditação sobre a natureza da violência ou uma investigação fenomenológica do mal. Está escrevendo fantasia gótica medieval com horror por baixo, e está fazendo isso com uma competência que deveria causar constrangimento em QUALQUER autor de gênero que já entregou 400 páginas de NPCs de videogame andando de taverna em taverna achando que estava fazendo worldbuilding. Buehlman está fazendo worldbuilding. A diferença é que o mundo dele cheira a merda e a gente morta e você acredita nele.
França, 1348. A Peste Negra matou um terço da Europa e a parte que sobrou não está comemorando. Thomas, um cavaleiro que perdeu a fé, a honra e a vontade de existir - nessa ordem -, encontra numa vila devastada uma menina que diz que anjos caídos estão se levantando para uma segunda guerra contra o céu. Os dois precisam chegar a Avignon. Essa é a premissa. Soa como Dragonlance cruzado com O Sétimo Selo de Bergman, e de certa forma É, exceto que Bergman não descrevia o que acontece com um corpo humano quando os bubões estouram.

Buehlman é, de profissão, um autor de horror. Those Across the River, The Lesser Dead, The Suicide Motor Club. Antes de escrever ficção, trabalhava como “Christophe the Insultor” no circuito de feiras renascentistas americanas. O emprego literal: ser pago pra insultar desconhecidos na cara deles enquanto eles comem peru defumado vestidos de camponês. Isso soa como piada, mas explica TUDO sobre o tipo de escritor que ele se tornou. Timing. Crueldade calibrada ao milímetro. A habilidade de ler o rosto de uma pessoa e saber exatamente onde vai doer antes de abrir a boca. Transfere isso pra prosa e você tem um autor que sabe quando apertar e quando soltar, quando mostrar o monstro e quando deixar o leitor imaginá-lo, que é sempre pior.
O livro roda dois filmes ao mesmo tempo e não pisca. O primeiro é um road movie medieval: Thomas e a menina atravessando uma paisagem que alterna entre o repugnante e o sublime, cruzando com bandidos que matam por um pedaço de pão, padres que perderam a fé antes de Thomas (o que é dizer algo), vilas onde os vivos arrombam casas de mortos pra roubar o que os ratos ainda não comeram. O segundo filme é uma guerra cósmica operando fora do campo de visão, mas cujos efeitos pingam em cada capítulo como sangue num teto branco. Demônios que parecem gente. Aparições que reorganizam o que você achava que o livro era. E uma menina que pode estar em contato com algo que a teologia do século XIV NÃO TEM VOCABULÁRIO pra nomear, e a do século XXI provavelmente também não.
A peste não é cenário. A peste é personagem. Buehlman descreve os bubões, o cheiro de tecido necrosado, a velocidade com que uma vila funcional vira vala comum com a precisão clínica de quem leu os relatos de época e não poupou o leitor de nenhum detalhe. Tem uma cena de um padre dando a extrema-unção com um pano sobre a boca que transmite mais pavor do que noventa por cento dos livros de horror que já li. A peste é terrível o suficiente sem os demônios. Os demônios são terríveis o suficiente sem a peste. Juntos, criam um efeito de compressão que faz o leitor virar a página com aquela sensação exata de quando você era criança assistindo filme de terror pela fresta da porta do quarto dos seus pais: você SABE que vai ser ruim, e não consegue parar.
Thomas funciona pela ausência. Fé, foi embora. Honra, foi embora. Razão pra levantar de manhã, foi embora faz tempo. O que sobrou é um homem que coloca um pé na frente do outro porque a alternativa é deitar e esperar os ratos. A menina é o oposto: uma certeza inabalável sobre algo que ninguém mais consegue perceber. A dinâmica entre os dois é o que move o livro, e Buehlman tem a decência narrativa de não transformar isso em redenção de autoajuda medieval. Thomas não “encontra propósito”. Thomas anda porque parar é pior do que andar. Se isso é salvação, o livro não confirma. E não quer confirmar. E não PRECISA confirmar, porque a vida real também não.
Quem leu Joe Abercrombie sabe o bairro: fantasia onde as pessoas mentem pra si mesmas com a mesma fluência com que mentem pros outros, e onde o herói é o sujeito que faz a coisa menos horrível disponível. Mas Buehlman vem do horror, não da fantasia, e a diferença é perceptível. A violência aqui não é coreografada pra ser divertida. Ninguém limpa o sangue da espada com uma frase espirituosa. E o momento mais perturbador de vários capítulos não é um monstro. É uma pessoa comum fazendo uma escolha que faz sentido perfeito dentro das circunstâncias e produz um resultado que não cabe dentro de nenhuma categoria moral que você trouxe de casa.

O livro tem trechos que desaceleram no meio, passagens de viagem que existem porque o mapa precisa ser percorrido. Não é perfeito. Mas é o tipo de livro que te faz perceber, sessenta páginas depois de ter jurado que ia dormir, que a luz do quarto ainda está acesa e você não se lembra de ter virado as últimas vinte páginas conscientemente.
A Morro Branco está trazendo Entre Fogo e Sangue pro Brasil com 392 páginas e pré-venda na Amazon a R$74,90 com desconto, entrega prevista pro começo de maio. Buehlman publicou depois The Blacktongue Thief (2021), seu primeiro livro de fantasia épica propriamente dita, que vendeu o suficiente pra gerar uma série com prequela e sequência. Se a Morro Branco continuar publicando, vai colocar nas mãos do leitor brasileiro um dos autores mais consistentes e injustamente desconhecidos do gênero em inglês. R$74,90 por 392 páginas de peste, demônios e um cavaleiro que se recusa a morrer não porque quer viver, mas porque não encontrou um motivo suficientemente bom pra parar de andar. Já comprei o meu.
Sicko
Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
Editor literário e resenhista. Especialista em ficção, graphic novels e cultura digital.
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