Instalações do DuckDuckGo subiram 30% depois que o Google decidiu que você vai usar IA nas buscas, goste ou não

Após o Google anunciar no I/O 2026 que tornaria a IA nas buscas obrigatória e sem opt-out, as instalações do DuckDuckGo subiram até 30% em um dia nos EUA.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
27 de maio de 2026 5 min
Logotipo do DuckDuckGo com gráfico de crescimento ao lado de uma tela mostrando o Google AI Overview
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Trinta por cento. Esse foi o aumento de instalações do DuckDuckGo nos EUA no dia 25 de maio, um único dia depois que o Google confirmou, no Google I/O 2026, que vai tornar a inteligência artificial nas buscas obrigatória e permanente, sem opção de desligar. No iOS, o pico foi de quase 70%.

Para colocar em perspectiva: o DuckDuckGo tem menos de 1% do mercado global de buscas. O Google tem 89%. É literalmente a empresa mais irrelevante do setor tentando crescer às custas da mais dominante. E funcionou.

A decisão do Google I/O que fez os usuários procurarem a saída

O AI Overview é aquela caixa de texto que aparece no topo dos resultados do Google antes de qualquer link, com uma resposta gerada por inteligência artificial resumindo o que você buscou. Existe desde 2024, e desde o início dividiu opiniões.

No Google I/O 2026, a empresa confirmou que esse recurso vai virar o modo padrão permanente: sem botão de voltar para o modo com só links, sem modo legado, sem escapatória. Os tradicionais links azuis clicáveis vão sendo progressivamente substituídos por agentes de IA que decidem por você qual informação você precisa ver. Você vai usar, goste ou não.

Gabriel Weinberg, CEO do DuckDuckGo, foi direto na resposta: “O Google está forçando IA sem nenhuma forma de o usuário optar por não usar. Os resultados estão piorando, não melhorando.”

Uma pesquisa interna da empresa, com mais de 160.000 respondentes, descobriu que mais de 90% rejeitam ativamente recursos de IA nas buscas. Na semana seguinte ao Google I/O, a versão sem IA do buscador (noai.duckduckgo.com) também registrou alta de 22,7%.

Por que o AI Overview tem inimigos sérios

A rejeição não é só questão de gosto ou nostalgia pelos links azuis. Um estudo da Oumi, publicado pelo New York Times em abril de 2026, estimou que 1 em cada 10 respostas do AI Overview é incorreta. Taxa de erro de 10%.

Com 5 trilhões de buscas previstas pelo Google em 2026, essa taxa equivale a dezenas de milhões de respostas erradas por hora. Cada hora.

Depois da atualização do Gemini 3, em fevereiro de 2026, a discrepância entre o que a IA afirma e o que as fontes que ela cita realmente dizem saltou de 37% para 56%. Mais da metade das respostas diverge das próprias fontes que supostamente embasaram a resposta. A IA está inventando, e os links aparecem como decoração de credibilidade.

Não é a primeira vez que o AI Overview vira meme por resposta absurda: já recomendou colocar cola na pizza para segurar o queijo, e chegou a afirmar que 2027 está “a dois anos de distância” do ano atual de 2026. Mas antes, as pessoas podiam fechar a caixa de IA e usar os links normais. Agora não vão mais poder fazer isso.

DuckDuckGo: sem rastreamento, sem IA, sem Google

O DuckDuckGo existe desde 2008 com uma proposta simples: não rastreia você, não monta perfil de usuário, não vende seus dados para anunciantes. Os resultados de busca vêm majoritariamente do Bing com algum índice próprio. A privacidade é a proposta de valor principal.

Não é o Google. Em buscas em português, especialmente para assuntos locais, a diferença de qualidade é visível. Para quem está acostumado com a precisão do Google em pesquisas específicas, vai estranhar no início.

Mas para quem quer uma busca que respeita que você pode simplesmente não querer uma IA resumindo suas pesquisas sem permissão, é uma opção real. A empresa também lançou o Duck.ai, com acesso a modelos como Claude, Llama e GPT sem rastrear conversas, caso você queira usar IA por escolha própria em vez de obrigação.

Outros candidatos no páreo

O DuckDuckGo não está sozinho nessa. O Brave Search, que usa índice de busca próprio e independente tanto do Google quanto do Bing, passou de 50 milhões de buscas por dia. O Perplexity - que é ironicamente baseado em IA, mas com outra abordagem de transparência sobre fontes - processa entre 35 e 45 milhões de buscas por dia.

O Google ainda domina com 84% do mercado nos EUA e 89% globalmente. Mas está em queda: é o menor market share da empresa desde 2014 e a maior erosão anual desde 2009.

No Brasil, o efeito foi quase zero

Aqui cabe realismo. O Google domina mais de 91% das buscas no Brasil. O DuckDuckGo está abaixo de 1%. O movimento de crescimento nos EUA não produziu nenhum dado público expressivo no mercado brasileiro.

O que isso significa na prática é que a dependência do Google aqui é ainda maior do que nos EUA. Quando a empresa toma uma decisão sobre como você usa busca, os brasileiros têm menos histórico de usar qualquer alternativa e menos infraestrutura de hábito para migrar.

Não é a primeira vez que uma plataforma dominante faz mudanças que afetam diretamente o usuário sem transparência nem opção de recusa. Como acontece com o WhatsApp e a questão do banco de dados sem criptografia, grandes empresas tomam decisões sobre como seus dados e experiência funcionam de formas que você muitas vezes nem percebe até alguém apontar.

A saída de emergência existe, só não é perfeita

Se a ideia de inteligência artificial obrigatória nas buscas te incomoda, o DuckDuckGo está lá. Não vai ser o mesmo. Para o dia a dia em português, você vai sentir a diferença nos resultados, especialmente em assuntos locais.

Mas se você quer uma busca que não rastreia cada pesquisa que você faz, que não decide por você qual formato de resultado você merece receber, e que não tem 10% de chance de estar inventando a resposta com links falsos de credibilidade, é o que tem disponível agora.

O crescimento de 30% num único dia diz mais sobre como as pessoas se sentem em relação à decisão do Google do que sobre o DuckDuckGo em si. Quando você tira a opção de escolha, as pessoas procuram a saída de emergência, mesmo que ela seja menor e imperfeita.

Lucas Ferreira
AUTOR

Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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