Seu WhatsApp compartilha suas mensagens com o Facebook?
A criptografia de ponta a ponta protege a mensagem no trajeto. O arquivo onde o WhatsApp guarda tudo no iPhone fica em texto claro, sem senha própria.
Existe um arquivo chamado Axolotl.sqlite dentro do seu iPhone agora mesmo. Se você usa WhatsApp, ele está lá, guardando todo o histórico das suas conversas. Pesquisadores da empresa de segurança Mysk encontraram esse arquivo e constataram que ele está armazenado sem criptografia adicional - texto claro, sem senha própria, sem proteção extra além das camadas padrão do iOS.
É daí que a polêmica da semana nasceu.
O WhatsApp usa criptografia de ponta a ponta, também chamada de E2E. Na prática, isso significa que a mensagem é cifrada no seu aparelho antes de sair pela internet e só é decifrada no dispositivo de quem vai ler. Nem o WhatsApp, nem a Meta, nem a operadora conseguem ler o conteúdo durante o trajeto. Essa parte funciona, e ninguém está disputando isso.
O problema é o que acontece depois que a mensagem chega.
Quando o WhatsApp recebe e decifra uma mensagem, ele precisa guardar o conteúdo em algum lugar para que você acesse dias depois. O lugar escolhido é um banco de dados SQLite local chamado Axolotl.sqlite. Outros arquivos expostos pela pesquisa incluem ContactsV2.sqlite e LocalKeyValue.sqlite. O conteúdo desses arquivos: texto claro, sem criptografia em repouso. A criptografia E2E cobre o transporte. Não o armazenamento local.
Isso, por si só, não é necessariamente catastrófico. A maioria dos apps de mensagens funciona assim. O iOS tem um mecanismo chamado Data Protection, que usa a senha do dispositivo como chave para proteger arquivos quando o aparelho está bloqueado. Com uma senha forte e o aparelho sem comprometimentos, a exposição é limitada.
Vale deixar claro o escopo: a pesquisa da Mysk cobre especificamente iOS e macOS. No Android, o WhatsApp armazena as mensagens em um formato criptografado próprio chamado crypt15, dentro de uma pasta protegida pelo sandbox do sistema - inacessível a outros apps sem acesso root. O mecanismo de container compartilhado entre apps que é o centro desta polêmica não existe no Android. Se você usa WhatsApp num celular Android, esta vulnerabilidade específica não te afeta.
O que acendeu mais bandeiras para usuários Apple é onde esse banco de dados fica guardado.
Containers da Meta e o argumento do Facebook
O WhatsApp armazena os dados dentro de uma “app group container” - um recurso do iOS que permite que apps do mesmo desenvolvedor troquem informações entre si. O container identificado pelos pesquisadores: group.net.whatsapp.WhatsApp.shared. A Mysk encontrou também um container compartilhado entre todos os apps da Meta: group.com.facebook.family.
Daí veio a afirmação que tomou conta das redes: o Facebook estaria lendo suas conversas do WhatsApp.
A realidade é mais nuançada. A sandbox do iOS - o sistema que isola cada app no seu próprio espaço - cria barreiras técnicas reais. Para que o Facebook lesse os dados do WhatsApp, a Meta precisaria configurar explicitamente as permissões no código dos aplicativos, uma mudança que qualquer pesquisador analisando os binários detectaria. Ninguém encontrou essa configuração ativa.
O WABetaInfo, que acompanha mudanças no WhatsApp de perto, argumentou que o sistema de sandbox do iOS impede acesso entre apps em condições normais, e que qualquer mudança nas permissões “não passaria despercebida”, já que pesquisadores monitoram os binários dos apps da Meta.
A ressalva que a Mysk levanta: a barreira atual é uma decisão da Meta, não um bloqueio imposto pelo iOS. Ativar o acesso entre apps exigiria “apenas uma pequena alteração nas ferramentas de desenvolvimento”. A proteção existe. Mas ela depende de confiar na empresa que tem interesse comercial em cruzar esses dados.
Para quem usa o WhatsApp como comunicação isolada dentro do ecossistema da Meta, essa distinção importa. A mesma Meta que, no início do mês, removeu a criptografia das DMs do Instagram às vésperas do prazo de conformidade com a legislação americana - a Take It Down Act.
O processo no Texas e o marketing que não bate com a realidade
No mesmo período, o Procurador-Geral do Texas, Ken Paxton, entrou na justiça contra a Meta. O argumento: o WhatsApp afirma que “ninguém fora da conversa, nem o próprio WhatsApp, consegue ler o que você diz”. Segundo a ação, essa afirmação é “blatantemente imprecisa” e “uma deturpação completa e total”.
A Meta respondeu pelo porta-voz Andy Stone: “O WhatsApp não consegue acessar as comunicações criptografadas das pessoas, e qualquer sugestão em contrário é falsa.”
As duas afirmações podem coexistir se você for muito preciso com os termos. O WhatsApp realmente não acessa as mensagens em trânsito - a criptografia E2E funciona exatamente como anunciado. O que a pesquisa mostra é que o arquivo resultante, depois da descriptografia, fica em texto claro no dispositivo. O usuário comum não faz essa distinção ao ver o cadeado verde no app.
É um problema de honestidade de marketing, não de falha de engenharia.
O vazamento de metadados que passou despercebido
Em paralelo com a controvérsia dos containers, o pesquisador de segurança Tal Be’ery identificou uma vulnerabilidade diferente nos IDs das chaves de criptografia do WhatsApp. No iPhone, esses identificadores seguem uma sequência previsível e incremental. No Android, são gerados aleatoriamente.
Resultado: com apenas o número de telefone de alguém, um atacante consegue determinar com alta certeza se a pessoa usa iPhone ou Android, sem nenhuma interação da vítima. Isso não quebra a criptografia das mensagens, mas essa informação serve para escolher o ataque certo para o sistema operacional da vítima.
A Meta começou a corrigir o problema no Android. O iOS ainda não foi atualizado.
Be’ery foi direto sobre a postura da empresa: a Meta classificou internamente a vulnerabilidade como “baixa severidade”, pagou o bug bounty sem comunicação pública, e começou a corrigir silenciosamente. Funciona como gerenciamento de danos, não como comprometimento com transparência.
O que você pode fazer agora
A exposição real depende de variáveis que dá para controlar. Em ordem de prioridade:
Ative o backup criptografado do WhatsApp. Em Configurações > Conversas > Backup de Conversas > Backup criptografado de ponta a ponta. Protege a cópia na nuvem com senha. Sem isso, o Google Drive ou o iCloud guarda o histórico sem criptografia E2E.
Criptografe o backup local do iPhone. Ao fazer backup pelo Mac ou pelo Finder, ative “Criptografar backup local”. Sem essa opção, o arquivo Axolotl.sqlite fica acessível dentro do backup para quem tiver acesso físico ao computador.
Use uma senha forte no aparelho. O mecanismo Data Protection do iOS usa sua senha como chave. Uma senha de 6 dígitos é exponencialmente mais fraca do que uma senha alfanumérica longa.
Mantenha iOS e WhatsApp atualizados. Explorações que contornam a sandbox do iOS - exatamente o tipo de ataque necessário para um app acessar o container de outro - são corrigidas em atualizações de sistema.
Quem lida com informações sensíveis e precisa de garantias mais sólidas tem no Signal uma alternativa mais rigorosa: o app criptografa o banco de dados local usando uma chave ligada ao Secure Enclave do iPhone, o chip dedicado a operações de segurança. Um recurso que o WhatsApp não oferece. Vale lembrar que o WhatsApp já foi alvo de ataques via SMS que clonavam contas sem o usuário perceber - a segurança do app depende de um conjunto de boas práticas, não só da criptografia do trajeto.
A polêmica “o Facebook lê seu WhatsApp” foi amplificada além do que os dados suportam. Mas o armazenamento local sem criptografia em repouso é real, o mecanismo de containers compartilhados é real, e a resposta da Meta - afirmar que tudo está protegido sem detalhar onde a proteção começa e termina - é o tipo de comunicação que funciona melhor para relações públicas do que para privacidade de fato.
Bruno Silva
Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
Especialista em hardware, benchmarks e overclock. Analisa componentes e tendências do mercado.
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