Hamnet e a vitória do luto sobre a teoria da conspiração no box office
O drama visceral de Chloé Zhao sobre a família Shakespeare acumula US$ 74 milhões no box office, 8 indicações ao Oscar e prova que a substância emocional ainda vence o espetáculo vazio.
Se olharmos para a história do cinema, existe uma obsessão quase fetichista em tentar “desmascarar” William Shakespeare. Já vimos de tudo, mas nada foi tão bizarramente equivocado quanto Anônimo, aquele projeto de 2011 do Roland Emmerich - sim, o cara que adora explodir a Casa Branca resolveu brincar de revisionismo histórico. Mas o cinema, como um mestre de montagem paciente, coloca as coisas no lugar. Hamnet, a obra de Chloé Zhao que estreou em Telluride em agosto de 2025 e agora acumula 8 indicações ao Oscar, acaba de ultrapassar os números daquele thriller de conspiração esquecido, e isso diz muito sobre o que buscamos nas salas hoje em dia.
Enquanto Emmerich estava preocupado em vender a ideia de que o Bardo era uma fraude (com David Thewlis como William Cecil no meio daquela bagunça), Zhao faz o caminho inverso, o caminho do cinema de autor de verdade. Ela mergulha na dor doméstica, no vazio que a história deixou. Hamnet não quer saber quem escreveu as peças; ele quer saber quem sentiu a morte de uma criança de 11 anos em 1596.
O peso de Zhao versus o CGI de Emmerich
A bilheteria mundial de Hamnet já bateu US$ 73,8 milhões contra um orçamento de US$ 35 milhões - um retorno de 210% que é praticamente inédito para cinema de autor. O Anônimo de Emmerich, com orçamento similar de US$ 30 milhões, parou em míseros US$ 15,4 milhões. Hamnet fez quase cinco vezes mais. O público votou com a carteira.

Jessie Buckley carrega o filme nas costas com uma Agnes Hathaway que é menos “esposa de gênio” e mais uma mulher que conhece a terra, o luto e a fúria silenciosa de quem foi reduzida pela história a “a que ganhou a segunda melhor cama no testamento”. Buckley já levou o Globo de Ouro de Melhor Atriz por esse papel e é a favorita para o Oscar em 15 de março. Paul Mescal, que já tinha nos devastado em Aftersun, entrega um William que é menos gênio das letras e mais um pai sucumbindo sob o peso de uma perda que não sabe processar. É interessante notar que Hamnet já ultrapassou o próprio Aftersun nas bilheterias americanas: US$ 22,1 milhões contra US$ 1,6 milhão. Quase catorze vezes mais.
O elenco vai além: Emily Watson, Joe Alwyn como Bartholomew (irmão de Agnes), Noah Jupe como o ator que interpreta Hamlet no palco e Jacobi Jupe como o próprio Hamnet. É o tipo de casting que não busca rostos famosos por marquee, mas atores que respiram o peso do material. Sam Mendes, que originalmente dirigiria o filme, ficou como produtor ao lado de Steven Spielberg (Amblin) e Liza Marshall. Quando Spielberg coloca o nome como produtor num drama de autor, é porque ele enxergou algo que transcende o nicho.
O silêncio como linguagem
Zhao usa a câmera do mesmo jeito que usou em Nomadland: a trilha sonora e a montagem não estão ali para te dar sustos ou reviravoltas de roteiro baratas. Estão ali para simular o tempo circular da dor. O filme é adaptado do romance de Maggie O’Farrell (2020), vencedor do Women’s Prize for Fiction, com roteiro coescrito pela própria autora e por Zhao. O’Farrell usa “Agnes” em vez de “Anne” para o nome de Hathaway, baseada em documentos históricos que sugerem que esse era o nome de batismo e Anne, o apelido.
A premissa é simples e devastadora: o único filho homem de Shakespeare morre aos 11 anos, e quatro anos depois o dramaturgo escreve Hamlet. O filme não explica a conexão. Ele deixa o vazio falar. É a marca de um cinema que confia na inteligência do espectador, coisa rara num mercado que infantiliza o público com exposição mastigada.
Por que Anônimo fracassou no longo prazo (e Hamnet não)
O problema de filmes como Anônimo é que eles são datados antes mesmo de saírem do render. É o tipo de cinema que depende de um “choque” que não se sustenta - Emmerich com seu 47% no Rotten Tomatoes, gastando US$ 30 milhões para defender uma tese que nenhum shakespeariano sério leva a sério. Já Hamnet, com seus 87% no Tomatoes, 84 no Metacritic e zero resenhas negativas em 54 críticas, foca no que é universal: como a morte de um filho pode ter sido o combustível para a criação de uma das maiores tragédias da humanidade.
As 8 indicações ao Oscar
O filme chega à cerimônia de 15 de março com oito indicações:
- Melhor Filme
- Melhor Direção - Chloé Zhao
- Melhor Atriz - Jessie Buckley (favorita)
- Melhor Roteiro Adaptado - Zhao e O’Farrell
- Melhor Casting
- Melhor Trilha Sonora Original
- Melhor Figurino
- Melhor Design de Produção
Buckley já levou os dois Globos de Ouro que importam (Melhor Filme Drama e Melhor Atriz Drama). Se ela levar o Oscar, será a coroação de uma performance que opera mais no silêncio do que na fala - o que, para um filme sobre Shakespeare, é uma ironia deliciosa.
Cinema de substância ainda funciona
É curioso e reconfortante ver os números. Hamnet está em cartaz desde novembro de 2025, com 70% da receita vindo de mercados internacionais (especialmente Reino Unido e Europa). Pode parecer pouco perto de qualquer franquia de super-herói, mas para um drama de época de autor sobre o luto de um casal elisabetano, US$ 74 milhões é um sinal de vida verdejante. É o tipo de filme que você assiste no cinema e depois passa horas no MUBI tentando achar algo que preencha o vazio que ele deixou.
Se você ainda não viu, vá preparado. Não é um filme sobre “como ser um escritor famoso”. É um filme sobre como sobreviver quando o seu mundo desaba e a única coisa que resta é transformar essa dor em algo que dure 400 anos. É muito mais cinema do que qualquer teoria da conspiração barata sobre quem segurava a pena no século XVI.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
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