Backrooms custou US$ 10 milhões, abriu com US$ 118 milhões e botou o Mandaloriano no chinelo. O diretor tem 20 anos.

Backrooms abriu com US$ 81 mi nos EUA e US$ 118 mi no mundo, maior estreia da história da A24. O diretor tem 20 anos e começou no YouTube.

Beatriz Almeida
Beatriz Almeida Cinema é entretenimento, e eu tô aqui pra diversão
1 de junho de 2026 6 min
Corredor infinito de escritório vazio com papel de parede amarelo e luz fluorescente, cena do filme Backrooms da A24
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Senta que lá vem história. A bilheteria de Backrooms acabou de fazer Hollywood inteira engolir em seco, e o motivo é meio constrangedor pros estúdios: um filme de terror feito por US$ 10 milhões abriu com US$ 81,4 milhões nos Estados Unidos e US$ 118 milhões no mundo todo. Em um fim de semana, ele faturou onze vezes o próprio orçamento. É a maior estreia da história da A24, o estúdio independente por trás de Hereditário, Midsommar e Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo.

E o filme nem é sobre super-herói. É sobre papel de parede amarelo.

US$ 10 milhões viraram US$ 118 milhões num fim de semana

Vamos aos números, porque eles são absurdos. O recorde anterior de abertura da A24 era de Guerra Civil, do Alex Garland, com US$ 25,5 milhões em 2024. Backrooms triplicou isso e ainda sobrou troco. É a maior estreia da história para um filme de terror original, ou seja, sem ser sequência, sem franquia, sem um número no título. Coisa que não acontecia faz tempo.

Pra você ter ideia do tamanho da surra: na sexta-feira de estreia o filme já tinha feito US$ 38 milhões. “Ninguém esperava abrir acima de 80 milhões. Existe uma obsessão com a mitologia de Backrooms, e parte disso é responsável por essa abertura do tamanho de uma da Marvel”, disse Jeff Bock, analista da Exhibitor Relations. Filme de terror baratinho fazendo número de Vingadores. É isso que tá deixando todo mundo maluco.

Kane Parsons tinha 19 anos na filmagem e um canal no YouTube

Aqui a história fica boa. O diretor se chama Kane Parsons, mas a internet conhece ele como Kane Pixels. Ele tem 20 anos. Tinha 19 quando filmou. E não, não é filho de ninguém importante de Hollywood. É um moleque de Petaluma, na Califórnia, que aos 17 já tinha sido contratado por uma agência depois de viralizar fazendo vídeo no YouTube.

A série dele, “The Backrooms: Found Footage”, juntou 224 milhões de visualizações em 22 vídeos. Found footage é aquele formato de filme feito como se fosse uma gravação caseira encontrada por acaso, igual A Bruxa de Blair ou Atividade Paranormal. Parsons fazia tudo sozinho no Blender e no Unreal Engine, programas de animação e de criação de games. Sozinho, no quarto.

O conceito de Backrooms nem é dele, na verdade. É uma creepypasta, uma dessas lendas urbanas que nascem na internet. Essa surgiu em 2019 num fórum anônimo: a ideia é que, se você der azar, pode “atravessar” a realidade sem querer e cair num lugar infinito de corredores de escritório vazios, com papel de parede amarelo encardido e aquele zumbido de lâmpada fluorescente que nunca apaga. Sem saída, sem ninguém. Só você e o barulho. Deu calafrio? Pois é, foi exatamente esse calafrio que rendeu US$ 118 milhões.

Com isso, Parsons virou o cineasta mais jovem a ter o filme número 1 da bilheteria, batendo a marca do Josh Trank, que tinha 27 anos quando lançou Poder Sem Limites em 2012. Pra segurar a onda do garoto, a A24 botou o veterano Oz Perkins (de Longlegs - Vínculo Mortal) como mentor no set. E o elenco não é de brincadeira: Chiwetel Ejiofor, indicado ao Oscar por 12 Anos de Escravidão, no papel principal, e a norueguesa Renate Reinsve, de A Pior Pessoa do Mundo, como uma terapeuta. Trinta dias de filmagem em Vancouver. Foi só isso.

O público que a Disney perdeu apareceu pra ver papel de parede amarelo

Agora a parte que devia tirar o sono dos executivos. Quem foi ver Backrooms? Os jovens. Quase 85% do público tinha menos de 35 anos, e metade tinha 25 anos ou menos. É aquela galera que cresceu ouvindo que “ninguém mais vai ao cinema”. Pois foram, em peso, ver um filme de terror sobre uma lenda de internet.

E no mesmo fim de semana, sabe quem tomou um tombo? O Mandaloriano e Grogu, da Disney, que despencou 70% na segunda semana mesmo com muito mais salas. Traduzindo: o público jovem não quer mais a vigésima sequência de uma coisa que ele já viu. Ele quer algo que parece dele, que fala a língua dele, que nasceu nos fóruns e no YouTube que ele frequenta.

O terror já vinha mostrando essa força em 2026. Faz pouco tempo, Pânico 7 fez em três dias o que nenhum outro filme de terror tinha conseguido no ano, e a crítica nem precisou gostar pro público lotar a sessão. Com Backrooms é parecido: o público deu um morno B- no CinemaScore, aquela nota que a galera dá na saída da sala, de A+ a F. Mesmo assim, foi. Porque o que vendeu o ingresso não foi a promessa de um sustinho. Foi pertencer a uma piada interna gigante que a internet inteira já conhecia.

Jason Blum, o cara da Blumhouse que praticamente inventou o terror lucrativo moderno, comparou essa molecada com os revolucionários da Nova Hollywood dos anos 70. “Uma nova geração de jovens fazendo filmes ousados que estão conectando nos cinemas de um jeito louco”, ele disse. Não é exagero. É a sensação de que o jogo virou.

A A24 fez marketing em fax na Comic-Con Brasil

E como você convence essa turma a sair de casa? Não foi com outdoor e propaganda na TV. A A24 foi atrás do público jovem onde ele vive: TikTok, YouTube, Reddit. O trailer virou o mais visto da história do estúdio nas primeiras 24 horas. Teve experiência ao vivo com DJ que esgotou a lista de espera em 15 minutos, parceria com o McDonald’s e até easter eggs escondidos, com direito a mensagens de fax misteriosas distribuídas na Comic-Con Brasil. No total, foram 220 milhões de menções nas redes, 48% acima da média do gênero terror.

O produtor Peter Chernin resumiu o recado que Hollywood precisava ouvir: “Temos a obrigação de descobrir como atrair esse público. Desistir seria inútil.” É isso. Os estúdios passaram anos chorando que o cinema morreu, que o jovem só fica no celular. Um garoto de 20 anos pegou um meme de fórum, um orçamento de filme médio e provou que a plateia sempre esteve ali. Só estava esperando alguém parar de oferecer requentado.

Vale o ingresso? Pela coragem de apostar em algo novo, vale cada centavo. E olha, eu já tô vendo a fila de estúdios atrás do próximo youtuber. O futuro do terror pode ter começado num quarto, no Blender, com um adolescente entediado. Bem-vindos aos Backrooms.

Beatriz Almeida
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Beatriz Almeida

Cinema é entretenimento, e eu tô aqui pra diversão

Redatora de entretenimento e cultura pop. Cobre blockbusters e tendências do audiovisual.

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