Uma atriz de IA vai estrelar um filme de verdade. Falta a ela tudo que o cinema aprendeu a filmar em 130 anos
A atriz de IA Tilly Norwood vai protagonizar o longa Misaligned. Falta a ela tudo que o cinema passou 130 anos aprendendo a filmar num rosto humano.
Em 1928, Carl Theodor Dreyer filmou o rosto de Maria Falconetti em A Paixão de Joana d’Arc quase todo em close, sem maquiagem, arrancando dela um sofrimento tão real que a atriz praticamente nunca mais voltou às telas depois daquilo. Passados quase cem anos, uma empresa britânica resolveu botar pra protagonizar um longa uma criatura que nunca teve rosto de verdade, nunca sofreu e nunca saiu de lugar nenhum, pela simples razão de que ela não existe: é uma atriz de IA.
Ela se chama Tilly Norwood, e o filme se chama Misaligned. É a primeira vez que uma personagem inteiramente gerada por inteligência artificial, a tecnologia que produz imagens imitando padrões de material humano, vai carregar um filme nas costas como protagonista. A criatura saiu da Xicoia, braço de IA da produtora Particle6, comandada pela comediante e roteirista holandesa Eline Van der Velden.
E o roteiro tem uma ironia que nenhum crítico precisaria inventar. Misaligned é uma comédia dramática sobre uma IA seduzida por um “robô rebelde” que a convence a desenvolver qualidades humanas. O único jeito de a história funcionar é fingir que a máquina quer desesperadamente ser aquilo que os produtores decidiram descartar.
O que Falconetti tinha e Tilly nunca vai ter
Ingmar Bergman dizia que o rosto humano é o grande tema do cinema, que está tudo ali. Não era pose de cinéfilo. O cinema nasceu apontando a câmera pra corpos reais saindo de uma fábrica, e passou 130 anos aprendendo a ler o que um rosto de verdade entrega sem querer: o cansaço, o tique, a hesitação de meio segundo antes de uma mentira.
Atuação é isso. É John Cassavetes deixando a câmera ligada até o ator esquecer que está atuando. É a biografia inteira de uma pessoa vazando pela cara dela num close. Existe até um princípio antigo do cinema, o efeito Kuleshov, que mostra como a montagem, a ordem em que os planos são cortados e colados, dá sentido a um rosto humano neutro. O truque sempre dependeu de ter um humano ali pra começo de conversa.
Teve diretor que foi na direção oposta e ainda assim provou o ponto. Robert Bresson desprezava atuação teatral e usava gente comum que chamava de “modelos”, mandando repetir as falas até esvaziar qualquer interpretação. Mesmo ele, o mais radical dos radicais, precisava de um corpo vivo na frente da câmera, de uma respiração real pra capturar. O que ele perseguia era a verdade de uma presença, jamais a imitação dela.
Tilly não tem nada disso. Ela tem uma superfície que lembra uma atriz, treinada em cima do trabalho de milhares de atrizes de verdade que nunca autorizaram nada. Whoopi Goldberg cravou o problema técnico no The View: “dá pra sempre diferenciar eles da gente. A gente se move diferente, o rosto se move diferente, o corpo se move diferente”. Ela está falando do vale da estranheza, aquele desconforto que sentimos quando algo é quase humano, mas erra por um triz.
O pincel que assina contrato de atriz
Van der Velden se defende com uma metáfora esperta. Ela insiste que a IA é “uma nova ferramenta, um novo pincel” e que Tilly seria “uma obra de arte, uma peça pra provocar discussão”. Jura que já recusou propostas de usar o modelo pra substituir atores existentes, porque cruzaria uma linha ética. E garante que Tilly é a primeira de umas quarenta criaturas iguais que ela tem na gaveta.
O problema da metáfora do pincel é que ninguém escala um pincel pra um papel. Ninguém agencia um pincel. E foi exatamente isso que rolou em setembro do ano passado, quando vazou que agências de talento de Hollywood cogitavam assinar contrato com Tilly como se ela fosse cliente. O pincel virou “atriz” no material de divulgação, virou “protagonista”, vai aparecer no crédito. A defesa desmonta sozinha no instante em que o produto é vendido como gente.
Tem ainda o argumento preguiçoso de que não dá pra frear a tecnologia, então engula. O cinema convive com efeito visual, dublê digital e rejuvenescimento por computador faz tempo, sem ninguém sair às ruas. Essas ferramentas serviam a uma atuação humana embaixo. Dessa vez a ferramenta foi promovida a protagonista.
O sindicato dos atores americanos, o SAG-AFTRA, foi direto: Tilly “não é uma atriz”, “não tem experiência de vida pra recorrer” e foi montada com performances roubadas pra tirar trabalho de gente e desvalorizar a arte humana. Emily Blunt, quando perguntaram, nem tinha discurso pronto: “não sei bem como responder, além de dizer o quão aterrorizante isso é. Meu Deus, a gente tá ferrado. Isso é muito, muito assustador”.
O abaixo-assinado de 83 mil dubladores contra a IA
No Brasil, esse futuro já bateu na porta pelo lado da dublagem. Desde o fim de 2023, o movimento Dublagem Viva junta dubladores brasileiros e de outros países num abaixo-assinado que passou de 83 mil profissionais pedindo regra pro uso de IA. O manifesto deles resume a briga melhor que qualquer editorial: “nosso interesse não é proibir qualquer evolução tecnológica, só queremos garantir que aquilo que é apenas uma ferramenta de criação não seja entendido como nosso criador”. Um estudo de Oxford que eles citam projeta que até 47% dos empregos podem ser automatizados até 2033.
E o problema não mora só longe, em Hollywood. A A24, a produtora queridinha dos cinéfilos, fechou uma parceria de 75 milhões de dólares com a Google DeepMind pra meter IA no cinema. Quando até a casa que lançou Backrooms entra na dança, o recado é que ninguém está imune.
Van der Velden diz que quer “provocar uma discussão”. Provocou. Só que a discussão que importa é outra: quem paga a conta quando o estúdio percebe que uma protagonista sem sindicato, sem cachê e sem hora de almoço sai mais barata. Já escrevi por aqui sobre a IA publicando livros pra outras IAs lerem, com o leitor sumindo do meio. O cinema testa agora a própria versão disso: o ator some, e a plateia que se vire pra sentir alguma coisa por um rosto que nunca sentiu nada.
Falconetti chorou de verdade em 1928 e ainda arranca a gente da cadeira quase cem anos depois. Boa sorte pra Tilly.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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