Robert Eggers lançou o trailer de Werwulf e ele pode ser o mais perturbador da carreira
Robert Eggers lançou o trailer de Werwulf, filme de lobisomem ambientado no século XIII. Com Aaron Taylor-Johnson, Lily-Rose Depp e Willem Dafoe, estreia no Brasil em janeiro de 2027.
Existe uma linha clara na filmografia de Robert Eggers: ele pega mitos fundadores da Europa setentrional, posiciona a câmera no nível dos olhos de quem viveu aquilo e faz o sobrenatural acontecer de forma literal, sem metáfora, sem alívio. Em A Bruxa (2015), a feiticeira dos bosques da Nova Inglaterra colonial existia de verdade. Em O Farol (2019), a loucura dos dois faroleiros era indistinguível da presença de algo muito mais velho que eles. Em O Homem do Norte (2022), os deuses nórdicos apareciam porque haviam sido invocados. Em Nosferatu (2024) - que faturou US$ 182 milhões no mundo inteiro - o vampiro era uma força da natureza, não uma alegoria.
Werwulf segue a mesma lógica, só que no século XIII da Inglaterra. O trailer, lançado na segunda-feira pela Focus Features, não revela muito além do que já se sabia: Aaron Taylor-Johnson interpreta um homem amaldiçoado por um ancião e transformado em lobisomem, vivendo com a família numa comunidade rural assombrada por uma criatura que a câmera demora a mostrar. Robert Eggers descreveu o personagem assim: “É um homem que foi amaldiçoado e busca salvação através do amor. Um personagem atormentado, com muita dor.”
O que o trailer estabelece com competência, e que o diferencia de qualquer coisa produzida no gênero nos últimos anos, é o tom. Névoa. Barro. Arquitetura de pedra acumulada ao longo de gerações. A fotografia tem aquela textura fria que Eggers repete e afina desde A Bruxa - cada período histórico com sua paleta específica, cada projeto com um visual que só poderia ter nascido naquele contexto.
Por que o século XIII
O detalhe que distingue Werwulf de qualquer filme de lobisomem americano contemporâneo - e que justifica o título grafado em inglês médio, o idioma falado na Inglaterra a partir do século XII - é o recorte histórico preciso. Os lobos selvagens desapareceram da Inglaterra em algum momento do século XIV. Depois disso, sem lobos reais para alimentar o medo coletivo, o folclore do lobisomem inglês desapareceu junto.
A escolha de Eggers e do co-roteirista Sjón (o poeta islandês que também assinou o roteiro de O Homem do Norte) não é arbitrária: eles estão filmando o mito no único momento em que ele ainda tinha raízes em algo concreto. Lobisomem como personificação do animal que existia de verdade do lado de fora da vila, não como metáfora de repressão sexual ou subgênero de fantasia urbana.
Isso explica o “werwulf” do título. A grafia em inglês médio - “wer” para homem, “wulf” para lobo - data precisamente daquele período. Eggers está nomeando o projeto com a mesma obsessão filológica que o fez reconstituir dialetos escoceses do século XVII para A Bruxa.
O elenco de sempre
Aaron Taylor-Johnson e Lily-Rose Depp retornam após Nosferatu, onde viveram Thomas e Ellen Hutter. Willem Dafoe e Ralph Ineson, que já trabalharam com Eggers em projetos anteriores, completam o elenco principal. A dinâmica começa a lembrar o repertório de cineastas como Ingmar Bergman, que trabalhou repetidamente com os mesmos atores ao longo de décadas - não por inércia, mas porque existe uma linguagem compartilhada que permite ir mais fundo sem explicar do zero.
Dafoe, especificamente, parece ser uma figura recorrente na mitologia particular de Eggers. Em O Farol, era o faroleiro mais velho guardando um segredo impossível. Em Nosferatu, habitava o outro extremo da luta contra o vampiro. Pelos fragmentos do trailer de Werwulf, ocupa o lugar de uma autoridade moral ou espiritual que cruza o caminho do personagem de Taylor-Johnson.
O que esperar
Eggers declarou que Werwulf é o projeto mais visceral e perturbador de sua carreira. Quem acompanhou a evolução dos filmes anteriores sabe que a afirmação tem peso: A Bruxa era desorientante, O Farol era sufocante, O Homem do Norte era violento com frieza clínica, Nosferatu tinha a câmera colada no corpo dos atores de forma quase insuportável.
“Mais visceral” dentro dessa progressão é uma promessa séria.
O filme chega aos cinemas americanos em 25 de dezembro - a Focus Features já mostrou que a janela de Natal funciona para os projetos de Eggers, com a memória ainda fresca do domínio cultural que Nosferatu teve durante as festas de 2024. O Brasil recebe Werwulf em 21 de janeiro de 2027.
Para quem quer chegar preparado: A Bruxa é o ponto de entrada mais acessível para o universo visual de Eggers. O Farol, mais hermético, exige mais do espectador mas recompensa com a sequência final mais desconcertante do cinema de horror da última década. Werwulf, se o trailer diz alguma coisa, vai exigir mais do que os dois.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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