A Odisseia realiza o sonho que Nolan começou a perseguir em Batman: O Cavaleiro das Trevas

Nolan explicou como o manual de regras que recebeu em O Cavaleiro das Trevas em 2008 abriu o caminho para filmar A Odisseia inteira em IMAX. E o brasileiro vai ficar de fora da melhor parte.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
4 de julho de 2026 6 min
Christopher Nolan ao lado de uma câmera IMAX 70mm no set de A Odisseia
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Christopher Nolan gosta de contar histórias sobre limites que ele mesmo ultrapassou. Quando filmou “Batman: O Cavaleiro das Trevas” em 2008, foi o primeiro diretor a levar câmeras IMAX pra dentro de um longa dramático de estúdio, e recebeu junto um manual de regras “grosso deste tamanho” com tudo o que não podia fazer com aquele equipamento. Dezoito anos depois, A Odisseia de Nolan chega como a resposta atrasada a esse manual: o primeiro filme da história rodado inteiramente com câmeras IMAX. A linha que liga um ao outro é mais reta do que parece, e o próprio diretor acabou de traçá-la em voz alta.

IMAX é um formato de película de 70mm, o dobro da largura do rolo de 35mm que rodou o cinema por um século. A câmera expõe cada quadro deitado, ocupando quinze perfurações do filme em vez de quatro, e captura várias vezes mais detalhe: uma imagem gigante que não perde nitidez mesmo projetada em telas de prédio inteiro. O problema sempre foi prático. Essas câmeras eram pesadas, comiam película numa velocidade absurda e faziam um barulho de trator, o que inviabilizava gravar diálogo com som limpo. Por décadas, diretor nenhum usava IMAX para uma cena inteira. Usavam para dois ou três planos de vitrine, uma paisagem, uma explosão, e voltavam pro 35mm.

A lente de Hasselblad que salvou a abertura do Coringa

Numa entrevista ao Collider no começo de julho, Nolan reconstruiu como tudo começou. “Quando começamos a filmar em IMAX, éramos os primeiros cineastas a fazer isso num longa dramático de cinema. Fizemos em O Cavaleiro das Trevas. Era algo que eu queria fazer desde criança, e nos entregaram um manual de regras grosso deste tamanho com tudo o que dava e não dava pra fazer.”

O que dava era pouco. Para conseguir aquela abertura do assalto ao banco e as cenas noturnas com o Coringa de Heath Ledger, Nolan e o diretor de fotografia Wally Pfister precisaram improvisar. “Em O Cavaleiro das Trevas, a gente teve que adaptar uma lente antiga de Hasselblad, uma lente de câmera fotográfica, de médio formato, pra câmera de cinema, pra câmera IMAX. Era uma lente T2”, contou. Traduzindo o jargão: eles pegaram uma peça pensada para tirar foto e a enxertaram numa câmera de filmar, só para conseguir capturar imagem com pouca luz. Deu tão certo que aquela lente, a única do tipo no mundo na época, virou objeto de disputa: J.J. Abrams e Zack Snyder brigaram para pegá-la emprestada em seus próprios filmes.

Foi um remendo genial, do tipo que define uma carreira. E plantou uma obsessão. A cada filme seguinte, Nolan foi empurrando o formato um pouco mais longe: mais minutos de IMAX em “Interestelar”, quase o longa inteiro em “Dunkirk”, até o preto e branco em película grande de “Oppenheimer”, que ninguém tinha feito antes. “O que a gente foi aprendendo ao longo dos anos é que o formato é bem mais versátil do que diziam”, resumiu. O manual grosso foi ficando fino.

A câmera que faltava por 18 anos

A peça que faltava para fechar o círculo era de engenharia. Enquanto as câmeras IMAX continuassem barulhentas demais, gravar um filme inteiro de atores conversando seria impossível: cada tomada de diálogo viria com um ronco por baixo. A própria IMAX desenvolveu uma nova geração de câmera para Nolan, mais leve que os modelos antigos, e a equipe ainda construiu uma blindagem acústica em volta dela para abafar o motor durante as falas. A Panavision entrou com as lentes, e a FotoKem, último laboratório do mundo que ainda revela cópias em 70mm, cuidou da película. É com esse conjunto que A Odisseia foi filmada do primeiro ao último plano, algo que Nolan tentava viabilizar desde aquele set de Gotham.

O resultado é o projeto mais caro da carreira dele, um orçamento na casa dos 250 milhões de dólares para adaptar o poema de Homero, com Matt Damon como Odisseu tentando voltar de Troia e um elenco que empilha Zendaya, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong’o e Charlize Theron. Quando o primeiro trailer mostrou a tal câmera de película que não aparece em mais nenhum filme do planeta, muita gente achou fetichismo de diretor rico. A entrevista deixa claro que é o oposto de capricho: é o encerramento de um projeto técnico de quase vinte anos.

Menos de 30 salas no mundo, nenhuma confirmada no Brasil

E é onde a festa esfria para quem vai assistir do lado de cá do equador. O formato que Nolan filmou, a tal película 70mm de quinze perfurações, precisa de um projetor específico e raríssimo. Pouco mais de 30 salas no mundo conseguem projetar a película como ela foi capturada, a esmagadora maioria nos Estados Unidos. A demanda por elas beira o irracional: a pré-venda americana abriu um ano antes da estreia, vendeu mais de 23 mil ingressos em menos de 24 horas, derrubou o site da AMC, e apareceu na revenda por até 500 dólares. Um pacote de quatro lugares no AMC Lincoln Square, em Nova York, foi anunciado por mil dólares, uns R$ 5.500.

No Brasil, o IMAX que temos é digital. É uma bela tela, som imenso, experiência ótima, mas o projetor não roda película. A rede Cinemark chegou a anunciar expansão de salas de olho no filme, e a IMAX falou em abrir uma sala nova de 70mm ou Laser na América do Sul, possivelmente aqui, ainda sem cidade definida. O brasileiro vai ver A Odisseia, e vai ver muito bem. O que ele quase certamente não vai ver é a versão que justificou toda essa engenharia.

Tem algo comovente e cruel nisso ao mesmo tempo. Nolan é hoje o principal cineasta segurando a chama da película grande, ao lado de gente como Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson, que insistem no 70mm quando o mercado inteiro já migrou pro arquivo digital. Ele mantém vivos laboratórios e câmeras que morreriam sem um comprador do tamanho dele. Construiu, no fim, a catedral que sonhava desde criança. Só esqueceu de avisar que a maioria dos fiéis vai rezar do lado de fora, ouvindo o órgão pela porta.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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