A A24 faturou US$ 270 milhões com Backrooms e logo fez a única coisa que os fãs não perdoam
O estúdio de Hereditário e Midsommar aceitou US$ 75 milhões do Google para mexer com IA. Os fãs decretaram luto e começaram a cancelar a assinatura.
Tem um tipo de filme que você reconhece pela textura antes de ver o logo. O grão da imagem, a coragem de deixar um plano respirar tempo demais, a trilha que parece vazar de outro cômodo. Por mais de uma década esse logo foi o da A24, o estúdio de Hereditário, de Midsommar, de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, a casa que transformou cinema de autor em grife para uma geração inteira. Por isso o anúncio de que a A24 e a inteligência artificial agora dividem o mesmo contrato caiu como traição. O Google pôs US$ 75 milhões na mesa, e parte da plateia decretou luto.
O acordo, anunciado no blog oficial da DeepMind, o laboratório de IA que o Google comprou em 2014, tem um detalhe inédito: é a primeira vez que a gigante de busca compra uma fatia de um estúdio de Hollywood. Não é patrocínio nem empréstimo. O Google virou sócio. Os US$ 75 milhões batem com o tamanho da rodada que a Thrive Capital já tinha feito na A24, o que dá a dimensão da aposta.
Pelo combinado, a A24 ganha acesso à pesquisa, à infraestrutura e às ferramentas da DeepMind. Entram nessa lista o Veo 3, o modelo que gera vídeo a partir de uma descrição em texto, e o Flow, o painel onde esses clipes são montados e ajustados (movimento de câmera, continuidade de personagem de um quadro para o outro). Em troca, a DeepMind ganha o que dinheiro não compra fácil: gente da A24 sentada do lado dos engenheiros, dizendo o que serve e o que não serve para quem faz filme de verdade. O contrato não dá ao Google acesso ao catálogo nem aos dados da A24. Esse detalhe importa, e eu volto nele.
O que Scott Belsky promete que a IA da A24 não vai ser
A defesa do estúdio veio por Scott Belsky, que toca a divisão de tecnologia da A24. O recado, em resumo, é que as ferramentas vão servir principalmente para storyboard, aquele mapa de desenhos que organiza cada plano antes de a câmera rodar. “As ferramentas não vão se parecer em nada com aquele tipo de IA de gerar a partir de prompt que deixa as pessoas desconfortáveis”, disse Belsky. E completou: “Achamos que existem usos melhores, que preservam o controle criativo e sustentam o risco.”
Do lado de lá, o discurso é o de sempre. Demis Hassabis, presidente da DeepMind, afirmou que “a melhor forma de criar ferramentas que empoderam artistas é trabalhar diretamente com eles”. Eli Collins, vice-presidente de produto, foi na mesma linha: “Avanços acontecem quando você põe a tecnologia nas mãos das melhores cabeças.” É bonito no papel. Também é exatamente o que toda empresa de tecnologia fala antes de entrar num setor que não é o dela.
Por que vender IA justo para o público da A24 é tiro no pé
A fúria não veio do nada. A A24 construiu o nome inteiro sendo o oposto do Vale do Silício: curadoria humana, gosto pessoal, a promessa de que tinha alguém com bom olho escolhendo cada projeto. Era o estúdio anti-algoritmo. Aceitar o algoritmo como sócio, ainda por cima o algoritmo do Google, soa como entregar a chave da casa para quem o público jurava odiar.
E o público é específico. Backrooms, o longa de Kane Parsons que nasceu de uma creepypasta de YouTube, virou a maior bilheteria da história da A24: mais de US$ 270 milhões com um orçamento de US$ 10 milhões. Cerca de 85% da plateia tinha menos de 35 anos. Pesquisas recentes mostram que perto de metade dos adultos com menos de 30 acha que a IA vai fazer mal à sociedade. Ou seja, a A24 foi vender parceria de inteligência artificial justo para a faixa etária mais hostil a ela. No subreddit r/A24 a reação foi de velório, com gente anunciando o cancelamento da assinatura AAA24 do estúdio, e os comentários no anúncio de The Debut, a comédia com Julianne Moore e Jesse Eisenberg, viraram um paredão de “assinatura cancelada”.
Não é a primeira vez que a A24 cutuca esse vespeiro. Em 2024 o estúdio usou cartazes feitos com IA para divulgar Guerra Civil, do Alex Garland, e levou a mesma bordoada dos cinéfilos. A diferença é que cartaz é marketing. Sócio é estrutura.
O acordo da A24 não é o desastre do Sora, mas mora no mesmo bairro
Vale separar uma coisa da outra. O que a A24 assinou é mais cauteloso que a média de Hollywood. A Lionsgate fez parceria com a Runway para treinar modelos em cima da própria biblioteca de filmes. A Amazon foi de OpenAI. A A24 não está treinando IA com o acervo dela nem terceirizando produção, está bancando pesquisa de ferramenta. É uma distinção real, e a IndieWire argumenta que isso coloca o estúdio na posição de moldar a tecnologia em vez de só consumi-la.
O problema é que a gente já viu esse filme. Faz pouco tempo que o app de vídeo que a OpenAI vendia como o futuro do entretenimento durou seis meses e levou junto um acordo bilionário com a Disney. A história recente da IA em Hollywood é feita de promessas grandiosas que envelhecem mal. Quando o estúdio que vendia gosto humano coloca a Alphabet no quadro de sócios, o “controle criativo” passa a depender de um relatório trimestral que não é mais só dele.
Aqui no Brasil a A24 chega quase toda por streaming e por sessão de cinema de rua, e o selo virou crachá de cinefilia, moeda de Letterboxd, aquele filme que você posta para sinalizar que tem repertório. Esse valor simbólico foi construído por gente como Ari Aster, os Daniels, Robert Eggers fazendo coisa estranha que ninguém mais bancaria. A pergunta que ninguém da DeepMind responde é se esse tipo de risco sobrevive quando o financiador também é dono de metade dos dados do planeta.
O cinema já passou pelo som, pela cor, pelo CGI, e seguiu vivo. Ferramenta nunca foi o inimigo. Hitchcock desenhava storyboard, Miyazaki desenha até hoje. A A24 nunca prometeu um mundo sem máquina. O que ela vendia era uma cabeça com gosto decidindo o que entrava em cena, e vendeu bem. Enquanto essa cabeça for humana, o estúdio segue sendo a A24. No dia em que o gosto virar otimização de modelo, vai sobrar o logo. E logo, a gente reconhece em qualquer lugar. Textura é outra história.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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