O app de vídeo que a OpenAI promoveu como o futuro durou 6 meses. E levou junto um acordo de US$1 bilhão com a Disney
OpenAI encerrou o Sora, seu app de geração de vídeo com IA. A Disney, que investiria US$1 bilhão e licenciaria 200 personagens, saiu do acordo no mesmo dia.
A OpenAI encerrou o Sora nesta segunda-feira, puxando a tomada do app de geração de vídeo com IA, da API para desenvolvedores e de toda a funcionalidade de vídeo dentro do ChatGPT. No mesmo dia, a Disney confirmou que o acordo de investimento de US$1 bilhão na OpenAI, anunciado em dezembro de 2025, não vai mais adiante. O dinheiro nunca chegou a trocar de mãos.
O Sora era uma ferramenta que transformava texto em vídeo usando inteligência artificial. Você digitava uma descrição, a IA gerava um clipe. A OpenAI apresentou a tecnologia em fevereiro de 2024 com demos impressionantes, abriu ao público em dezembro daquele ano, e em setembro de 2025 lançou o Sora 2 junto com um app próprio. O app não era só um gerador de vídeo: era uma rede social no estilo do TikTok, com feed vertical infinito, curtidas, comentários e remix de vídeos gerados por outros usuários. Tinha até uma função chamada “Cameo”, que permitia escanear o rosto e se inserir em clipes gerados por IA.
Nos primeiros 10 dias, passou de 1 milhão de downloads e chegou ao topo da App Store americana. Seis meses depois, está morto.
O comunicado oficial da OpenAI fala em “liberar recursos para os modelos de IA de próxima geração” e “simulação de mundo para robótica”. A CEO de aplicativos da empresa, Fidji Simo, foi mais direta num memo interno vazado pelo Wall Street Journal: “não podemos perder esse momento por estarmos distraídos com missões secundárias. Precisamos simplificar nossos esforços. A fragmentação estava nos atrasando.”
Missão secundária. É assim que a empresa descreve o produto que usou pra convencer a Disney a licenciar mais de 200 personagens de Disney, Marvel, Pixar e Star Wars. Mickey Mouse, Darth Vader, Homem de Ferro, Groot, Simba, personagens de Frozen, Encanto, Toy Story, Monstros S.A. O acordo previa investimento de US$1 bilhão da Disney, com direito a compra de mais participação acionária, exclusividade de um ano, e vídeos de fãs com personagens licenciados que seriam distribuídos pelo Disney+. Três meses depois, a OpenAI classificou o produto que sustentava tudo isso como distração.
A Disney, pra crédito dela, respondeu com o tipo de frase corporativa que soa educada mas diz tudo: “respeitamos a decisão da OpenAI de sair do mercado de geração de vídeo e de redirecionar suas prioridades.”
Sair do mercado. Não “pausar”. Não “reestruturar”. Sair.
Os problemas do Sora eram visíveis antes do encerramento. O custo de processamento era altíssimo. O app era gratuito no lançamento, com acesso completo custando US$200 por mês na versão Pro. Depois do pico inicial, os downloads despencaram e o uso sustentado nunca veio. A moderação de conteúdo era um desastre: deepfakes de celebridades mortas como Martin Luther King Jr. e Robin Williams apareceram nos primeiros dias, vídeos de furto em loja fotorrealistas eram fáceis de gerar, e conteúdo usando propriedade intelectual sem autorização era rotina. Em novembro de 2024, antes mesmo do lançamento público, um grupo de 300 artistas que tinham acesso antecipado vazaram o Sora em protesto, chamando o programa de “exploratório” e denunciando trabalho gratuito de teste de bugs para uma empresa avaliada em 150 bilhões de dólares.
A função Cameo era o ponto mais sensível. Qualquer pessoa podia escanear seu rosto e criar vídeos. Outros usuários podiam usar esse rosto escaneado em seus próprios clipes. O potencial de abuso era evidente, e a TechCrunch não mediu palavras ao chamar o Sora de “o app mais assustador do seu celular”.
O Sora também era o mais caro e o mais lento do mercado. O Google Veo 3.1 gera vídeos em 4K com áudio nativo. O Runway Gen-4 tem fluxo de trabalho voltado pra produção profissional com colaboração em equipe. O Pika 2.5 gera em 30 a 90 segundos e custa US$8 por mês com plano gratuito. O Sora levava de 5 a 8 minutos por vídeo e cobrava 25 vezes mais que o Pika pra acesso completo. O produto não competia em velocidade, não competia em preço, e o diferencial - a rede social de vídeo com IA - criava mais problemas do que resolvia.
O contexto estratégico ajuda a entender a decisão. A OpenAI está construindo um “super app” de produtividade que vai fundir ChatGPT, Codex e o navegador Atlas num único produto desktop. A empresa mira um possível IPO no quarto trimestre de 2026. E os números da concorrência apertam: a Anthropic, segundo análise da Axios, captura 73% dos gastos de empresas que estão comprando IA pela primeira vez. A OpenAI fica com os 27% restantes. Nesse cenário, manter um app de vídeo que queima processamento, gera polêmica e não traz receita é o tipo de coisa que um conselho de administração corta primeiro.
A frase da OpenAI no X resume a situação de um jeito que seria constrangedor se não fosse tão previsível: “Para todos que criaram com o Sora, compartilharam e construíram comunidade ao redor dele: obrigado. O que vocês fizeram importou, e sabemos que essa notícia é decepcionante.”
O que eles fizeram importou, mas não o suficiente pra justificar o custo de servidor.
Pra quem acompanha o ciclo de hype da IA generativa, o padrão é familiar: demo impressionante, lançamento barulhento, problemas de moderação impossíveis de resolver, custos que não fecham a conta, concorrência que chega mais rápido e mais barata, e um comunicado educado dizendo que a empresa vai “focar em prioridades”. A geração de vídeo por IA continua existindo. O Sora era só o mais caro e o mais barulhento.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.
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