As primeiras reações de Dia D são unânimes: Spielberg não fazia nada assim em mais de vinte anos - Veja o trailer
As primeiras reações de Dia D chamam de o melhor Spielberg em 20 anos. Emily Blunt diz que o filme responde perguntas que Contatos Imediatos deixou em aberto desde 1977.
A nave mãe pousa no Devil’s Tower com aquela iluminação impossível, Roy Neary embarca com os aliens e Contatos Imediatos do Terceiro Grau termina sem nunca explicar o que aconteceu lá dentro.
Spielberg fez essa escolha em 1977 e deixou ela lá. Mas a porta aberta ficou, e quase cinco décadas depois Emily Blunt, que estrela o novo Dia D, disse o seguinte em entrevistas: “há definitivamente questões propostas em Contatos Imediatos que são respondidas em Dia D”.
Dia D abre nos cinemas brasileiros no dia 11 de junho - um dia antes dos Estados Unidos, o que é incomum para produções americanas de grande porte. As primeiras reações chegaram esta semana, de jornalistas que assistiram a exibições fechadas, e o consenso é animador: “o melhor Spielberg em 20 anos”.
O que esse número significa em termos concretos é melhor que A Ponte dos Espiões, Lincoln, Cavalo de Guerra, Os Fabelmans. Melhor que tudo que o diretor fez desde meados dos anos 2000. Essa não é uma avaliação pequena.
O que o trailer final revela
O trailer lançado esta semana é o primeiro material que mostra o rosto de um alien.
Os trailers anteriores operavam por recusa - aviões militares, luzes no céu, rostos humanos em choque - a tática clássica de suspense spielberguiano onde o que você não vê funciona melhor que o que está na tela. O material novo quebra isso.
A cena central do enredo que o trailer estabelece: Emily Blunt é uma meteorologista do Kansas City que, durante um boletim ao vivo, é “tomada” por uma força extraterrestre enquanto o sinal ainda está no ar. Algo muda nos olhos dela enquanto os telespectadores assistem em tempo real. Josh O’Connor, que marcou em Rivais de Luca Guadagnino, interpreta o crente, o tipo que passou a vida tentando provar que não estamos sozinhos. Juntos são perseguidos por agentes do governo numa perseguição de carro que aparece no trailer ao lado de planos abertos de algo imenso que não cabe no enquadramento.
Há um diálogo curto entre personagens onde eles se dizem “eu te conheço” - um para o outro, ou talvez para outra coisa. O roteiro é de David Koepp, parceiro de Spielberg desde Jurassic Park, que depois fez A Guerra dos Mundos e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal com ele. Koepp descreveu o script como “Arquivo X encontra a Bíblia”. Essa definição vai ficando mais clara conforme os trailers mostram mais: o filme opera simultaneamente como thriller de perseguição e como alguma coisa de escala quase religiosa.
A tagline que abre o material é: “E se alguém te mostrasse, te provasse, que não estamos sozinhos? Isso te assustaria?”
Spielberg dentro do próprio trailer
O movimento mais incomum do marketing de Dia D foi Spielberg narrar pessoalmente o trailer discutindo sua crença pessoal em vida extraterrestre. Diretores não fazem isso. Spielberg não fez isso em 1977, não fez em 1982, não fez em momento nenhum dos outros 34 filmes.
O que ele diz é: “Como a divulgação vai nos mudar? Acredito que para melhor. Vai nos lembrar da nossa capacidade de empatia. E que há algo maior lá fora além de nós mesmos.”
Isso reposiciona o filme em relação aos dois anteriores. Contatos Imediatos era sobre obsessão. E.T. era sobre infância e perda. Dia D parece ser sobre fé - a palavra que Spielberg não usa mas que o trailer inteiro constrói. Quando um diretor de 79 anos com 37 filmes decide colocar a própria voz no material de divulgação para dizer “eu acredito”, vale prestar atenção no que ele acredita.
O que os primeiros a ver estão dizendo
Germain Lussier, da Gizmodo, descreveu como “uma viagem de montanha-russa que mistura filme de perseguição, história de amor e mistério embrulhados em maravilha sci-fi” e chamou de “o melhor Spielberg em 20 anos, com uma performance de todos os tempos de Emily Blunt”.
Jim Hemphill, da IndieWire, foi mais específico em termos de filmografia: “Spielberg de alto nível, tão emocionante quanto Raiders, mas com a textura emocional e a ambição ampliada do trabalho pós-11 de setembro”. Simon Thompson acrescentou a perspectiva histórica que mais importa: “o parceiro perfeito para E.T. e Contatos Imediatos”.
Bill Bria, do Slashfilm, destacou a partitura de John Williams - que aos 94 anos saiu da aposentadoria especificamente para este filme, na 30ª colaboração com Spielberg iniciada em Tubarão em 1975 - e a chamou de “a melhor trilha de Williams em anos”. O fato de Williams ter voltado não é detalhe.
Tessa Smith foi mais direta: “absolutamente fenomenal”.
A trilogia que nunca foi declarada
Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977). E.T. (1982). Dia D (2026).
Quarenta e quatro anos separam o segundo do terceiro. Não é uma trilogia que Spielberg anunciou, e não é uma continuação narrativa. Mas o arco temático só se revela agora que a terceira parte existe: o primeiro faz a pergunta de como seria encontrar vida fora da Terra; o segundo a humaniza, transforma em amizade e perda; o terceiro parece responder o que acontece quando a pergunta não é mais hipotética.
A afirmação de Blunt sobre Dia D responder questões de Contatos Imediatos é a declaração mais cinematograficamente significativa que saiu do material de divulgação. Ela não está dizendo que é uma sequência. Está dizendo que é uma conclusão.
Dia D entra em cartaz no Brasil no dia 11 de junho.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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