Hantavírus tem 40% de mortalidade e nenhuma vacina no Ocidente. A OMS avaliou o risco de pandemia.
O vírus Andes, cepa do hantavírus com 40% de mortalidade, matou três passageiros do navio MV Hondius. Não há vacina aprovada no Ocidente e a OMS rastreia casos em dois continentes.
Um casal holandês passou quatro meses percorrendo Chile, Uruguai e Argentina. No dia 1.º de abril, embarcou no MV Hondius, navio de expedição da empresa Oceanwide Expeditions, com partida em Ushuaia. Em 6 de abril, o homem, 70 anos, apresentou os primeiros sintomas. Em 11 de abril, morreu a bordo. A causa inicial não foi identificada.
A esposa, 69 anos, desembarcou em Santa Helena com “sintomas gastrointestinais” e embarcou num voo da KLM para Joanesburgo. Foi retirada do avião por estar mal. Morreu em 26 de abril numa sala de emergência da África do Sul. O diagnóstico confirmado depois: vírus Andes, uma cepa do hantavírus.
O navio ainda estava no mar. Em 2 de maio, uma alemã de 65 anos morreu a bordo. Sequenciamento genético confirmou a cepa em 4 de maio. Um boletim da OMS publicado nesta semana lista 7 a 8 casos, 3 mortos e 147 pessoas em risco, passageiros e tripulação de 23 países. Hoje, o navio navega em direção às Ilhas Canárias. Uma comissária de bordo da KLM está internada em Amsterdã com sintomas leves, testada por ter estado no mesmo voo que a segunda vítima. A organização rastreia mais de 80 passageiros daquele avião.
O que é o hantavírus
O hantavírus vive em roedores. Chega a humanos pelo ar - excrementos secos, urina, poeira contaminada em ambiente fechado. Quando evolui, destrói o pulmão. Quarenta por cento de mortalidade.
O Brasil convive com isso desde 1993. Entre 1993 e 2024, foram 2.377 casos e 540 mortes, cerca de 70% em áreas rurais. É o tipo de dado que existe em relatórios do Ministério da Saúde e raramente vira manchete porque mata gente longe dos centros urbanos.
A cepa deste surto é o vírus Andes, responsável pela maioria dos casos na América do Sul. Ela tem uma característica que nenhuma outra cepa conhecida tem: transmissão entre humanos. Rara, requer contato prolongado e próximo - não se espalha como gripe. Mas é o suficiente para transformar um navio fechado com 147 pessoas em problema de saúde pública em dois continentes.
Não existe vacina no Ocidente
Nenhuma vacina contra hantavírus é aprovada na Europa ou nos Estados Unidos.
Existe a Hantavax, aprovada desde os anos 1990 na China e na Coreia do Sul, que protege contra duas cepas que circulam na Ásia. Ela não cobre o vírus Andes nem as cepas europeias. No Ocidente, candidatas a vacina chegaram a fases iniciais de testes clínicos, algumas com resultados de segurança e resposta imunológica promissores em fase 1. Nenhuma concluiu fase 3. FDA ou EMA aprovando algo antes do fim de 2026 está fora de qualquer cenário plausível.
Não existe antiviral. O tratamento é manter o paciente vivo enquanto o corpo decide o que faz.
O que a OMS disse sobre pandemia
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, foi direto quando perguntado sobre comparação com a Covid-19: “Não, não acredito que isso se assemelhe ao início da Covid-19.”
A avaliação formal da OMS, publicada em 4 de maio, classifica o risco para a população geral como “baixo”. O Centro Europeu de Controle de Doenças (ECDC) vai na mesma direção: risco “muito baixo” para a população da União Europeia. O vírus não tem reservatório natural na Europa. A transmissão requer contato estreito e prolongado. Não existe mecanismo de dispersão em massa comparável a vírus respiratórios de alta transmissibilidade.
A hipótese de trabalho do ECDC é que os passageiros foram expostos ao vírus Andes na Argentina, provavelmente antes do embarque, com possível transmissão interpessoal subsequente nas cabines compartilhadas do navio. Tedros sinalizou que, dado o período de incubação de até seis semanas, novos casos podem aparecer. A OMS continua rastreando.
Pandemia não é o cenário. A biologia do vírus não permite. Para isso ser uma pandemia, o vírus precisaria de transmissão eficiente entre humanos, o que o hantavírus não tem, nem mesmo a cepa Andes.
O que preocupa além do surto imediato
A Argentina reportou 101 infecções por hantavírus desde junho de 2025, aproximadamente o dobro do mesmo período do ano anterior. Mudanças climáticas estão expandindo o território de roedores portadores do vírus para regiões que antes eram frias demais para sustentar as populações desses animais. “A Argentina ficou mais tropical por causa das mudanças climáticas, e isso trouxe perturbações, como dengue e febre amarela, mas também novas plantas tropicais que produzem sementes para os ratos proliferarem. Não há dúvida de que, com o tempo, o hantavírus está se espalhando cada vez mais”, disse um especialista argentino em doenças infecciosas ao Al Jazeera.
O vírus Andes, com sua capacidade única de transmissão interpessoal, circula num ambiente onde o número de casos base está crescendo e a faixa geográfica dos reservatórios animais se expande. Não existe vacina no pipeline que chegue ao mercado em tempo útil. Num surto com pacientes de 23 países, o rastreamento de contatos se torna uma operação logística que depende de dezenas de sistemas de saúde pública funcionando em sincronia.
Não é pandemia. Mas é exatamente o tipo de situação que revela o quanto a ausência de vacina para um patógeno com 40% de mortalidade é uma escolha, não uma fatalidade.
Sicko
Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
Editor literário e resenhista. Especialista em ficção, graphic novels e cultura digital.
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