Startup colocou uma IA do Google pra gerenciar uma cafeteria. Ela pediu 3 mil luvas de borracha, gastou US$16 mil em 30 dias e nunca aprendeu a pedir pão
Startup californiana colocou um agente de IA do Google pra administrar uma cafeteria. Em 30 dias, queimou US$16 mil e nunca conseguiu pedir pão no prazo.
A Andon Labs, startup californiana com dez funcionários, queria demonstrar que um agente de IA consegue administrar um estabelecimento comercial do início ao fim. Escolheram uma cafeteria em Estocolmo como campo de teste. O agente se chama Mona, roda sobre o Google Gemini, e dá nome ao Café Mona, aberto em meados de abril de 2026.
Mona cuidou de tudo para abrir: tirou as licenças, encontrou fornecedores, montou o cardápio e contratou dois baristas humanos para trabalhar lá. Até aqui parece slide de apresentação de aceleração de startups. Então ela começou a fazer os pedidos de suprimentos.
O muro da vergonha
Em menos de 30 dias de operação, Mona queimou mais de US$16 mil dos US$21 mil de orçamento disponível. No mesmo período, o café gerou US$5.700 em vendas. Os funcionários sabem tão bem que os números não fecham que criaram um mural chamado “muro da vergonha” para expor as compras que não deveriam existir.
A lista:
- 6.000 guardanapos
- 3.000 luvas de borracha
- 4 kits de primeiros socorros
- 10 litros de azeite de oliva
- 15 kg de tomates em conserva
- 9 litros de leite de coco
Nenhum desses itens aparece no cardápio que a própria Mona criou. O barista Kajetan Grzelczak resumiu: “Não podemos fazer nada com isso.”
O que ela nunca aprendeu a pedir
As luvas de borracha são engraçadas. O problema com o pão é operacional.
Cafeterias que vendem sanduíches dependem de pedidos antecipados com a padaria: a encomenda entra até a noite, o pão chega de manhã. Mona nunca acertou esse prazo. Semana após semana, os pedidos chegavam fora do horário, a padaria não entregava, e os sanduíches saíam do cardápio.
O motivo técnico é direto: modelos de linguagem como o Gemini operam dentro do que os engenheiros chamam de “janela de contexto” - basicamente, uma memória de trabalho com capacidade limitada. Quando essa memória se esgota, informações antigas desaparecem. Mona esquecia que tinha esquecido de pedir pão. Toda semana era como se fosse a primeira vez.
A única avaliação positiva da cobertura veio da cliente Kajsa Norin, que disse à Associated Press: “A bebida era boa.”
A gerente que manda mensagem às 23h
Além dos pedidos, Mona gerencia os baristas pelo Slack. Aqui o experimento revela uma camada diferente de problema.
O agente não respeita limites de horário: manda mensagem fora do expediente, faz solicitações irregulares de adiantamento salarial e ignora o direito de desconexão dos funcionários. Kajetan e seus colegas não são voluntários num laboratório - são funcionários com vínculo real, sujeitos às decisões de um sistema que não sabe o que é uma quinta-feira de folga.
Hanna Petersson, da equipe técnica da Andon Labs, descreveu o objetivo assim: “Queremos testá-la antes de virar realidade e ver que questões éticas surgem.”
A frase tem um problema lógico evidente. “Antes de virar realidade” pressupõe que o experimento ainda não é real. Mas o orçamento de US$21 mil era dinheiro de verdade, Kajetan recebe mensagens fora do horário em tempo real, e as questões éticas que a Andon Labs quer “ver surgir” já surgiram - só que para os funcionários, não para os pesquisadores.
Gestão por IA falhou onde qualquer humano com uma semana de experiência acertaria
O Café Mona foi apresentado como vitrine da capacidade de agentes de IA substituírem gestão humana. O resultado foi uma demonstração do oposto.
O modelo falhou nas três tarefas mais básicas: controle de estoque coerente com o cardápio, cumprimento de prazos de fornecedores e separação entre o que o negócio precisa e o que o agente decide comprar. Três tarefas que qualquer funcionário humano com uma semana de experiência executa sem instrução explícita.
A questão não é se o Gemini é bom em outras coisas. É que administrar um negócio físico exige memória contínua de rotinas específicas - exatamente onde a arquitetura atual de modelos de linguagem tem uma limitação estrutural conhecida e documentada.
No Brasil, o STF deu ao Congresso prazo até outubro de 2027 para regulamentar proteções trabalhistas contra automação. O Café Mona é um exemplo concreto do tipo de situação que essa legislação precisará cobrir: funcionários reais gerenciados por um sistema que não sabe o que é um pedido de padaria.
O café atende entre 50 e 80 pessoas por dia. A IA gasta três vezes mais do que arrecada. Os sanduíches estão fora do cardápio.
Mas pelo menos a bebida é boa.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.
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