Hollywood tá desenvolvendo cinquenta filmes de videogame ao mesmo tempo e a matemática diz que a maioria nunca vai estrear
Hollywood tem cinquenta filmes de videogame em desenvolvimento. Zelda, Elden Ring, Death Stranding. A maioria nunca vai sair.
Hollywood acabou de descobrir que videogame dá dinheiro. E, como sempre acontece quando Hollywood descobre algo novo, já exagerou. O GameSpot compilou nessa semana uma lista com cinquenta filmes de videogame em desenvolvimento simultâneo em estúdios americanos. Cinquenta. A matemática de produção cinematográfica dos últimos quinze anos diz que, na melhor das hipóteses, entre dez e quinze chegam aos cinemas. O resto vai morrer em development hell ou sair direto pra streaming com orçamento cortado pela metade.
Como Hollywood chegou em cinquenta ao mesmo tempo
Três filmes mudaram a conversa. O Super Mario Bros. O Filme, em 2023, faturou 1,36 bilhão de dólares globalmente. Um Filme Minecraft, em 2025, passou de 961 milhões. O Sonic 3, de 2024, entregou 492 milhões. Essas bilheterias apagaram de uma vez o estigma de “filme de videogame” que tinha durado desde o Super Mario Bros. de 1993 com Bob Hoskins. Estúdios que ignoraram a categoria por três décadas agora brigam por direitos em leilão fechado.
A A24 pegou Elden Ring com Alex Garland, orçamento acima de 100 milhões, estreia em março de 2028. A Sony produz Zelda com o Wes Ball na direção, estreia em 7 de maio de 2027. A Paramount tá com Sonic 4, estreia confirmada pra 19 de março de 2027. A Universal já lançou Super Mario Galaxy em abril de 2026. A Amazon prepara uma série de Tomb Raider com Phoebe Waller-Bridge no comando e Sophie Turner como Lara. A Netflix ficou com Gundam (Sidney Sweeney protagoniza) e Gears of War (David Leitch dirige desde maio de 2025).
A lista, dividida por status real
Estreiam nos próximos dois anos (produção avançada ou data firme)
- Super Mario Galaxy (Universal, Illumination e Nintendo, estreou em 1º de abril de 2026)
- Mortal Kombat 2 (New Line, 8 de maio de 2026)
- Five Nights at Freddy’s 2 (Blumhouse, já estreou em 5 de dezembro de 2025)
- Sonic 4 (Paramount, Jeff Fowler dirige, 19 de março de 2027)
- The Legend of Zelda (Sony e Nintendo, Wes Ball dirige, 7 de maio de 2027)
- Elden Ring (A24, Alex Garland dirige, 3 de março de 2028, orçamento acima de 100 milhões)
Em desenvolvimento ativo com diretor anexado
- Gears of War (Netflix e The Coalition, David Leitch dirige desde maio de 2025)
- Ghost of Tsushima (Sony e PlayStation Productions, Chad Stahelski dirige, roteiro de Takashi Doscher)
- Death Stranding (A24, Kojima Productions e Hammerstone, Michael Sarnoski dirige, Ari Aster produz, lançamento planejado pra 2027)
- OutRun (Universal, Michael Bay dirige, Sydney Sweeney produz, roteiro de Jayson Rothwell, anunciado em abril de 2025)
- Gundam (Netflix, Sidney Sweeney e Jason Isaacs no elenco, rodagem em 2026)
- Mortal Kombat 3 (New Line, Jeremy Slater no roteiro, confirmado em outubro de 2025)
- Helldivers 2 (Sony PlayStation Productions, em desenvolvimento aberto)
Travados com silêncio preocupante
- Metal Gear Solid (Sony, anunciado em 2012, Oscar Isaac escalado em 2020, Jordan Vogt-Roberts saiu em abril de 2026 e foi substituído por Zach Lipovsky e Adam Stein; rumores de 2024 indicam que Isaac pode ter deixado o projeto)
- BioShock (Netflix, anunciado em 2022, andamento pouco claro)
- Space Invaders (New Line)
- Sim City (Legendary)
- Subnautica
- Street Fighter (Capcom e Legendary)
- Just Dance (Screen Gems)
Séries live-action com ambição cinematográfica
- Tomb Raider (Amazon Prime Video, Phoebe Waller-Bridge e Chad Hodge como showrunners, Sophie Turner como Lara, produção começa em janeiro de 2026)
- Fallout (Amazon, segunda temporada confirmada após o sucesso da primeira)
- The Last of Us (HBO, terceira temporada em produção)
- Mass Effect (Amazon, em desenvolvimento)
- God of War (Amazon, em desenvolvimento)
- Like a Dragon (Amazon, adaptação da franquia Yakuza)
Projetos cancelados ou desfeitos que ainda aparecem em listas
- Horizon Zero Dawn (série Netflix com Steve Blackman foi cancelada em junho de 2024, após denúncias de comportamento tóxico contra o showrunner em processo de RH relacionado a The Umbrella Academy)
A lista do GameSpot tem cinquenta entradas, contando rumores, projetos em leilão e anúncios sem continuidade. A realidade verificável agora, com diretor anexado e produção começando, é menor: treze ou catorze. O resto é ruído de feira de negócios e IP em depósito corporativo.
Os que provavelmente morrem no papel
A tabela de travados é mais longa que a de avançados. Esses projetos funcionam como opção corporativa. O estúdio pega os direitos, paga licença baixa, anuncia para subir cotação, e engaveta se o orçamento não fechar. A indústria tem nome pra isso: scripted IP banking. Depósito de pauta, não desenvolvimento.
O que o padrão histórico diz sobre os cinquenta
Não existe estatística oficial consolidada de quantas adaptações de videogame anunciadas na última década efetivamente saíram. Mas a lista de filmes que chegaram aos cinemas desde 2010 é curta: Angry Birds, Sonic 1 a 3, Mortal Kombat, Monster Hunter, Pokémon Detetive Pikachu, Uncharted, Five Nights at Freddy’s 1 e 2, A Monster Hunter, Um Filme Minecraft, O Super Mario Bros. O Filme, Super Mario Galaxy, Until Dawn, Borderlands, Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, e mais alguns poucos. Do lado dos flops confirmados, Borderlands e Resident Evil Raccoon City entregaram prejuízo contábil. Do lado das franquias que pegaram, só Sonic bateu um padrão consistente de sequência bilionária, com Pokémon Detetive Pikachu morrendo antes da continuação sair.
A conta grosseira, aplicada aos cinquenta em desenvolvimento agora, sugere que uns doze a quinze vão efetivamente chegar aos cinemas, talvez cinco ou seis gerem sequência, e um ou dois viram franquia que importa. Um. De cinquenta. O resto vai render mais box office de 300 milhões que ninguém lembra, mais flop de 100, mais streaming relegated, mais uma década de development hell.
Por que o Elden Ring da A24 é o projeto-termômetro
O mercado de 2026 tem uma diferença importante em relação à década passada. A base de fãs está maior, organizada em redes sociais, vocal o suficiente pra pressionar produtoras. A qualidade média subiu depois de Mario, depois de Sonic, depois de Minecraft, depois do The Last of Us na HBO. Diretores de nome começam a aceitar fazer adaptação sem achar que estão descendo de categoria. A taxa de 2,5% pode subir pra 10%. Cinco filmes bons saindo entre 2026 e 2030 ainda seria o melhor período que o gênero já teve.
O Elden Ring da A24 é exatamente o termômetro desse momento. 100 milhões de dólares pra um cineasta com filmografia autoral, adaptando um jogo sem protagonista definido, dirigido por alguém que nunca fez franquia. Se a A24 acertar em 2028, abre porta pra Dark Souls, pra Bloodborne, pra Shadow of the Colossus com diretores sérios. Se tropeçar, Elden Ring vira o exemplo que os executivos vão usar pra matar os próximos dez projetos parecidos com “lembra do que aconteceu quando tentaram”.
Cinquenta é um número absurdo. E quando Hollywood entra em gold rush, o efeito colateral sempre é o mesmo. Filmes que mereciam orçamento autoral viram tentativa de franquia. Histórias que mereciam duas horas de arte viram três horas de setup. E quando a bolha estourar, e bolhas de Hollywood sempre estouram, os estúdios vão cortar os filmes de videogame mais ambiciosos primeiro, porque são os mais caros e os mais fáceis de justificar como risco pro acionista.
Só não vão ser cinquenta. Nunca ia ser.
Beatriz Almeida
Cinema é entretenimento, e eu tô aqui pra diversão
Redatora de entretenimento e cultura pop. Cobre blockbusters e tendências do audiovisual.
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