Hollywood levou um tapa: o Oscar 2026 que enterrou os blockbusters
Sinners fez história com 16 indicações. Wicked levou zero. A Academia finalmente escolheu substância.
Se tem uma coisa que aprendi assistindo ao cinema de Jean-Pierre Melville ou perdendo noites com a filmografia densa do mestre Michael Haneke, é que o silêncio e a curadoria dizem muito mais do que qualquer explosão coreografada em CGI. E as indicações ao Oscar 2026, anunciadas recentemente, são basicamente um plano-sequência de dez minutos onde a substância finalmente resolveu dar um soco no estômago da pura euforia vazia.
A gente vive num ciclo onde o marketing tenta nos convencer de que tamanho é documento. Mas se você olhar para a lista deste ano, vai perceber que a Academia (que costuma ser aquele tiozão que descobre memes três meses depois) resolveu sentar na mesa dos cinéfilos de verdade. Temos uma disputa que parece saída de um roteiro de rivalidade clássica dos anos 70, com distribuidoras independentes jogando xadrez enquanto os grandes estúdios ainda tentam entender como o tabuleiro funciona.
Neon e A24: o Magic Johnson e o Larry Bird do cinema indie

Eu sei, eu sei, a comparação é coisa de tiozão da ESPN, mas é impossível não olhar para a Neon e a A24 hoje sem pensar no Lakers e no Celtics dos anos 80. São dois titãs de prestígio que transformaram o cinema independente em uma arena de gladiadores onde quem ganha é o espectador que não aguenta mais a fórmula de bonequinho.
Ambas já têm dois prêmios de Melhor Filme na estante: a A24 com a delicadeza de Moonlight: Sob a Luz do Luar e a anarquia multiversal de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo; enquanto a Neon ostenta o histórico Parasita e o polêmico Anora. Mas, em 2026, o coroa de louros pertence à Neon. O domínio deles na categoria de Filme Internacional é algo que beira o absurdo cinematográfico.
Eles emplacaram quatro dos cinco indicados. Estamos falando de O Agente Secreto, Foi Só Um Acidente, Valor Sentimental e Sirāt. Se Se Não Houver Outra Escolha tivesse entrado no lugar de A Voz de Hind Rajab, a Neon teria simplesmente fechado a categoria sozinha. É o tipo de curadoria que me faz lembrar de como o cinema de autor respira por aparelhos, mas esses aparelhos são operados por gente que realmente ama a sétima arte. E não parou por aí: na corrida principal de Melhor Filme, a Neon ainda deu um chega pra lá na A24 com Valor Sentimental e O Agente Secreto cruzando a fronteira e garantindo seus lugares no topo.
O massacre de Oz: ninguém deveria chorar pelo fracasso de Wicked

Agora, vamos falar de justiça poética. No ano passado, Wicked foi o queridinho, levou dez indicações, ganhou em Design de Produção e Figurino… um espetáculo visual, ok, eu admito. Mas a sequência, Wicked: For Good, chegar em 2026 com absolutamente zero indicações? Isso é uma reviravolta tão chocante que nem o roteiro mais barato do M. Night Shyamalan conseguiria prever.
Olha, eu sou um crítico confesso de Wicked. Pra mim, transformar um musical que já é uma releitura em um épico de duas partes é o ápice da ganância de estúdio que ignora a montagem e o ritmo em prol de vender balde de pipoca temático. Mas até eu achei que o pessoal do figurino ou a Cynthia Erivo e a Ariana Grande conseguiriam um “alô” da Academia. Mas nada. Nadinha.
Pra você ter uma ideia, até Jurassic World: Renascimento tem mais indicações ao Oscar que essa segunda parte de Oz. Se você me perguntar, ninguém deveria lamentar. É o preço que se paga por esticar uma história até ela perder o sentido cinematográfico. Quando o espetáculo é vazio, nem a trilha sonora mais inspirada consegue salvar o filme de virar um fracasso histórico na temporada de premiações.
De herdeiro a rei: a batalha dos pesos-pesados
Se tem uma categoria que vai me fazer roer as unhas como se eu tivesse assistindo ao clímax de Fogo Contra Fogo, é a de Melhor Ator. Temos um duelo de titãs que é pura metalinguagem: Leonardo DiCaprio, o veterano seletivo, contra Timothée Chalamet, o herdeiro aparente que parece estar em todo lugar, mas com uma precisão cirúrgica.
DiCaprio está indicado por Uma Batalha Após a Outra. O cara é tão seletivo que qualquer papel dele vira evento. Ele agora soma 12 participações em filmes indicados a Melhor Filme, empatado com Robert De Niro no topo da história. Já Chalamet, com apenas 30 anos, chegou à sua oitava indicação em produções que disputam o prêmio principal por Marty Supreme.
Pensa no peso disso. Aos 30 anos, Chalamet está no mesmo patamar de lendas como Daniel Day-Lewis, Gregory Peck, Meryl Streep e Henry Fonda em termos de “fator de boa sorte” para Melhor Filme. É uma companhia de elite. Esses dois não estão lá só porque são bonitos ou populares; eles são atores excepcionais que entendem a técnica, o tempo da câmera e a importância de escolher diretores que têm uma visão, não apenas um cronograma de entrega.
O recorde quebrado e o peso de Sinners

Mas o grande elefante na sala (e que elefante maravilhoso) é Sinners. Antes das indicações, o burburinho em Hollywood era se o filme conseguiria bater o recorde histórico de 14 indicações de A Malvada, Titanic e La La Land.
Pois bem, Sinners não só bateu, como atropelou: 16 indicações. É o tipo de reconhecimento que a gente raramente vê para obras que desafiam o espectador. O filme conseguiu indicações de atuação que muita gente não esperava, como Wunmi Mosaku e Delroy Lindo como coadjuvantes, além de Michael B. Jordan cravado como Melhor Ator.
A montagem técnica e os marcos históricos
Para quem, como eu, gosta de olhar os bastidores e a técnica pura, 2026 está sendo um prato cheio. Temos Amy Madigan fazendo história ao voltar para a cédula de votação 40 anos depois da sua primeira indicação em 1986. Isso é cinema. É longevidade, é entender que a carreira de um ator é uma maratona, não uma corrida de 100 metros para o próximo blockbuster da Marvel.
E por falar em técnica, não dá pra ignorar o retorno de Sam Raimi ao terror adulto depois de 26 anos. O cara empatou seu recorde pessoal no Rotten Tomatoes e mostrou que, quando você tem um diretor que entende de cinematografia e montagem de gênero, o resultado é sólido. É o oposto do que vemos em franquias cansadas; é alguém usando a câmera para contar uma história, não para preencher espaço.
Tankando a realidade: por que 2026 é um ano de ruptura
Muita gente reclama que o Oscar ficou “chato” ou “cult demais”. Eu digo que ele finalmente parou de tentar ser o People’s Choice Awards. A quantidade de filmes independentes e internacionais na lista mostra que o público (e a Academia) está cansado de ser tratado como se tivesse déficit de atenção crônico.
A análise técnica de Sinners revela que o filme é construído sobre diálogos (Michael B. Jordan é responsável por 75% das falas, uma atuação magistral) e uma sequência original de 2025 que é simplesmente de tirar o fôlego. É o cinema voltando a ser uma experiência sensorial e intelectual, e não apenas uma lista de requisitos de marketing.
O fechamento da sessão
No fim das contas, os indicados de 2026 nos mostram que o “meta” mudou. Não basta mais ser grande; tem que ser relevante. A Neon provou que a inteligência na distribuição vale mais que um orçamento de marketing infinito. Chalamet provou que o talento jovem pode ter a densidade dos clássicos. E Wicked provou que o público não é bobo: a gente sabe quando estão tentando nos vender o mesmo truque de mágica duas vezes.
Se você quer se preparar para a cerimônia, minha dica é: procure os filmes da Neon. Assista a O Agente Secreto e tente não pensar na montagem soviética ou no expressionismo alemão. É o tipo de obra que nos lembra por que nos apaixonamos por essa tela gigante em primeiro lugar. O Oscar 2026 pode não ter as dancinhas do TikTok, mas tem o suor, a técnica e a alma de quem faz cinema de verdade. Como diria o velho Hitchcock, o cinema não é um pedaço de vida, é um pedaço de bolo. E este ano, o bolo tem um gosto amargo para os blockbusters e doce para quem ainda acredita na força de um bom diretor.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
LEIA TAMBEM
A BBC censurou 'free Palestine' no BAFTA mas transmitiu um insulto racial ao vivo. Ninguém foi demitido.
'Foi como levar um soco na boca': Matthew Lillard e a crueldade casual de Tarantino