Hot Water: O drama de estrada que conquistou Sundance

Direto de Sundance 2026: Hot Water subverte os clichês de filmes de estrada com uma narrativa sobre hóquei, família e as pequenas irritações do amor.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
23 de janeiro de 2026 4 min
Hot Water - Still do filme com crédito para Alfonso Herrera Salcedo
!!

O gênero “road movie” já tá tão batido que a gente pode pensar: “ah, mais um filme de estrada indie, mãe e filho no carro, paisagem passando, alguem chora no final”. Mas honestamente, quando vi que Ramzi Bashour estreava em Sundance com Hot Water, eu fiquei curioso. E cara, depois de ver o que o diretor fez aqui, a montagem desse filme é simplesmente preciosa. Vou te explicar por que essa estreia tá sendo chamada de “obra complexa” pela crítica e por que ela merece cada elogio.

Não se deixe enganar pela premissa simples de travel log. O que parece ser só mais uma viagem de carro se revela um estudo de personagem que te pega pelo pescoço – ou melhor, pelo equipamento de hóquei fedorento no banco de trás. A crítica do TheWrap tá certa em chamar de “enganosamente complexo”, e bota enganosa nisso.

O peso (literal) da bagagem emocional

A trama gira em torno de Layal (a magnética Lubna Azabal, lembra de Incendies, filme de Villeneuve que é pura poesia visual) e seu filho adolescente Daniel (Daniel Zolghadri, de Funny Pages). O gatilho pra viagem? Daniel se mete numa briga violenta durante um jogo de hóquei e é expulso da escola em Indiana. Layal decide levar o garoto pro oeste, cruzando o país até a Califórnia pra deixar com o pai distante.

Aqui entra o brilhantismo de Bashour: os detalhes. Sabe qual é um dos maiores conflitos do filme? Não é um segredo de família obscuro revelado no terceiro ato. É o equipamento de hóquei.

💡 Curiosidade: A crítica tem elogiado como o filme retrata a irritação genuína de viajar com tralhas. Quem já viajou de carro com malas demais vai se identificar na hora.

O diretor usa essa “bagagem” física como metáfora pro que eles carregam emocionalmente. É irritante, ocupa espaço, cheira mal, e você tem vontade de jogar pela janela – mas não pode, porque faz parte de quem você ama. É uma abordagem tão humana e tão “pé no chão” que honestamente, faz os dramas exagerados de Hollywood parecerem artificiais.

A química que segura a estrada

Layal não é a típica “mãe sofredora” de cinema americano. Ela é uma professora universitária durona, com raiva acumulada e uma desconexão palpável com o filho. Daniel, por sua vez, traz aquele humor “inexpressivo” que o Zolghadri faz tão bem. A dinâmica deles não é de melodrama, é de atrito constante, daquele tipo que solta faísca.

Bashour, que já tinha chamado atenção na lista de “25 New Faces of Film”, mostra que tem mão firme pra direção de atores. O editing aqui é loucura – ele permite que o silêncio e as paisagens do oeste americano contem a história tanto quanto os diálogos. É cinema sobre o espaço entre as palavras, e o direção de fotografia captura cada olhar desconforto como se fosse um close-up.

Mais que um filme de estrada

O que faz Hot Water ser classificado como um “drama de estrada vencedor” não é apenas a execução técnica, mas a honestidade. O filme aborda temas pesados como histórias geracionais e a dificuldade de encontrar uma linguagem comum com quem amamos, mas faz isso com uma leveza surpreendente.

Tem aquela cena específica envolvendo uma parada na estrada e uma amiga excêntrica (vivida pela sempre incrível Dale Dickey, de Winter’s Bone, que é pura arte) que encapsula o filme: é estranho, é engraçado, e é dolorosamente real. O tipo de cena que só funciona quando o diretor entende que cinema é sobre tempo e espaço, não só enredo.

Veredito: Vale a pena o hype?

Hot Water é cinema de “vibes” e sentimentos represados. É sobre a raiva que ferve em banho-maria até transbordar, mas filmado com uma sutileza que me lembra os melhores dramas independentes dos anos 2000.

Pra quem ama quando o cinema pega o ordinário e o transforma em algo digno de tela grande – tipo Nebraska de Alexander Payne ou The Straight Story do Lynch – esse filme é um prato cheio. É o tipo de estreia que coloca Ramzi Bashour no mapa e nos faz querer ver mais do trabalho dele.

Ainda não tem data de estreia confirmada no Brasil, mas considerando a recepção calorosa em Sundance, é provável que chegue em algum streaming ou festival local em breve. Enquanto isso, fiquem de olho no trabalho desse diretor que claramente se inspirou na melhor tradição do cinema americano independente.

Para mais detalhes sobre a seleção do festival, confiram o site oficial de Sundance ou a crítica completa no TheWrap.

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