O iPhone vai deixar você instalar apps fora da App Store no Brasil, e a Apple perdeu o prazo que ela mesma assinou

O iOS 26.5 traz o código que libera sideloading no iPhone para o Brasil, com quase um mês de atraso em relação ao acordo que a Apple assinou com o CADE.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
5 de maio de 2026 5 min
iPhone com ícones de apps de terceiros fora da App Store, representando sideloading no Brasil
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Em 23 de dezembro de 2025, a Apple assinou um acordo com o CADE e se comprometeu a liberar o sideloading no iPhone no Brasil em 105 dias. Esse prazo venceu no início de abril. O iOS 26.3 não trouxe a mudança. O iOS 26.4 também não. A primeira versão com o código foi o iOS 26.5 Release Candidate, lançado em 4 de maio, quase um mês depois do prazo.

A funcionalidade não está ativa ainda. Ela precisa ser ativada remotamente pela Apple, depois do lançamento público do iOS 26.5, previsto para esta semana. Mas o código está lá: desenvolvedores vasculharam o RC e encontraram o Brasil na lista de regiões com sideloading habilitado, ao lado da União Europeia e do Japão.

A Apple não anunciou nada. Nenhum comunicado oficial, nenhuma publicação no site. Quem descobriu foram os desenvolvedores garimpando o binário.

Sideloading no iPhone não funciona como no Android

Antes de comemorar: isso não vai transformar o iPhone em Android. No Android, sideloading significa baixar um arquivo APK de qualquer site e instalar após desativar uma configuração de segurança. A Apple não vai deixar isso acontecer.

O que o acordo com o CADE determina é diferente: terceiros podem criar lojas de aplicativos próprias, as chamadas lojas alternativas, que rodam no iOS. Apps distribuídos por essas lojas ainda passam por uma revisão de segurança da Apple antes de aparecer para download. A empresa chama esse processo de “notarização”.

Junto com isso, desenvolvedores vão poder colocar links e botões dentro dos apps que redirecionam o usuário para pagamento externo. Quem quis pagar uma assinatura diretamente por PIX ou cartão, sem passar pelo ecossistema da Apple, vai ter essa opção. Hoje, se um desenvolvedor tentar te mandar para fora do app para fechar uma compra, a Apple rejeita o app.

O Mercado Livre acendeu esse fogo em 2022

O processo começou com uma representação do Mercado Livre ao CADE em 2022. A reclamação era direta: a Apple obriga todo app no iOS a usar exclusivamente a App Store para distribuição e cobra comissão sobre cada transação dentro dos apps. Para uma plataforma do tamanho do Mercado Livre, essa comissão representa muito dinheiro.

Depois de anos de disputa, em 23 de dezembro de 2025 a Apple chegou a um Termo de Compromisso de Cessação com o CADE. Prazo de 105 dias para implementar as mudanças. Penalidade por descumprimento: multa de até R$ 150 milhões. Com quase um mês de atraso, a Apple está na zona de risco, e o CADE ainda não se pronunciou sobre o descumprimento.

A estrutura de taxas que a Apple criou para o Brasil

Aqui é onde o otimismo esfria um pouco. A Apple usou o mesmo modelo que implementou na União Europeia, chamado de “pílula envenenada” pelos desenvolvedores de lá porque desincentiva a migração sem proibir.

Funciona assim: aplicativos distribuídos por lojas alternativas pagam uma Core Technology Commission de 5%. Aplicativos que ficam na App Store mas incluem links ou botões para pagamento externo (um botão “pagar via PIX” dentro do aplicativo, por exemplo) pagam 15% de comissão. Quem não muda nada continua na comissão padrão existente.

Cinco por cento é uma fração do que os desenvolvedores pagam hoje na App Store. Para quem tem volume suficiente para justificar uma loja alternativa (o Mercado Livre se enquadra perfeitamente), o incentivo financeiro é considerável. Para um desenvolvedor independente brasileiro, construir ou se associar a uma loja alternativa envolve fricção suficiente para que a maioria fique onde está.

Brasil é o terceiro mercado, e todos os três foram forçados

A Apple só abriu o iOS para distribuição alternativa onde foi compelida por lei. União Europeia em 2024, via Digital Markets Act. Japão depois. Brasil agora. Em todo mercado onde não houve pressão regulatória (Estados Unidos, Canadá, Austrália), o iPhone continua fechado como em 2007.

O argumento da empresa também não mudou uma linha. A Apple disse que as mudanças vão “abrir novos riscos de privacidade e segurança para usuários”. É a mesma frase que usou quando implementou o sideloading na Europa, palavra por palavra. Depois de mais de dois anos de sideloading na UE, não houve catástrofe de segurança documentada.

O sideloading não aparece amanhã

Para a maioria dos usuários de iPhone no Brasil, a mudança vai ser invisível a princípio. A App Store continua igual. Para aproveitar o sideloading de fato, vai ser preciso que alguém (o Mercado Livre, um banco, uma plataforma de streaming) construa e publique uma loja alternativa. Isso leva meses de desenvolvimento e aprovação.

O que pode mudar mais rápido são os apps que já têm interesse em aceitar pagamento direto: plataformas de assinatura, academias, apps de delivery. Esses podem começar a mostrar um botão de pagamento externo dentro do próprio app, sem precisar te mandar para o site pelo navegador.

O iOS 27, previsto para setembro, vai trazer as mudanças que a Apple de fato quer mostrar: recursos novos, personalização, funcionalidades que a empresa tem orgulho de anunciar. O sideloading não está nessa lista. É o que acontece quando a Apple perde no regulador.

Lucas Ferreira
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Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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