Killing Satoshi e o cinema sintético: quando a pós-produção vira o próprio filme
O novo thriller de Doug Liman sobre o criador do Bitcoin vai substituir locações reais por cenários gerados por IA e usar algoritmos para ajustar atuações em vez de refilmagens. O cinema está mudando de pele.
Se tem uma coisa que aprendemos com a história do cinema é que o realismo nem sempre mora na realidade. George Méliès já sabia disso quando pintava a lua no começo do século passado, e Doug Liman parece querer levar esse conceito para um lugar onde nem o mestre dos efeitos práticos ousaria pisar. O diretor, que já nos entregou a agilidade nervosa de A Identidade Bourne e o loop temporal viciante de No Limite do Amanhã, agora mergulha no submundo das criptomoedas com Killing Satoshi.
Mas o que está fazendo a minha cabeça explodir não é o tema - afinal, o mistério sobre Satoshi Nakamoto e seus estimados US$ 100 bilhões em Bitcoin intocados desde 2010 é material de primeira para um conspiracy thriller - mas sim o método. O filme, estrelado por Pete Davidson e Casey Affleck, vai abrir mão de filmagens em locações reais para usar cenários criados integralmente por inteligência artificial. É o cinema entrando em uma fase de “deepfake geográfico” que me deixa entre o fascínio técnico e o puro pânico estético.
A estética do algoritmo e a performance ajustada
A notícia de que Killing Satoshi vai usar IA para “ajustar” as atuações dos atores em vez de fazer refilmagens é um balde de água fria para quem, como eu, ainda acredita no frescor da interpretação orgânica. As notas de casting do filme reservam explicitamente o direito de “alterar, adicionar, traduzir, reformatar ou reprocessar” performances usando IA generativa e aprendizado de máquina - incluindo ajustes de movimentos labiais, expressões faciais e linguagem corporal. A produção garante que todos os atores serão reais, mas o que sai na tela pode ser uma versão editada algoritmicamente do que aconteceu no set.
Imagina o Casey Affleck - que nos deu aquela atuação devastadora e minimalista em Manchester à Beira-Mar - tendo sua microexpressão “corrigida” por um software na ilha de edição. É o ápice do controle de estúdio, ou talvez a evolução final do que diretores como David Fincher fazem ao pedir 90 takes para conseguir exatamente o que querem. Só que aqui, o take perfeito é fabricado.
Os atores trabalham em um “markerless performative capture stage” em Londres, onde a produção começou em outubro de 2025. Sem marcadores físicos no rosto, sem locações reais ao redor. Apenas o ator e o vazio esperando ser preenchido por uma GPU.
Pete Davidson e o contraste de estilos
A escolha do elenco é, no mínimo, curiosa. De um lado, temos o Affleck, um veterano do cinema de autor que respira densidade. Do outro, Pete Davidson, que vem de uma escola de improviso e caos do Saturday Night Live. Davidson já flertou com o terror em The Home (2025) e mostrou que tem um timing dramático interessante em O Rei de Staten Island, mas colocá-lo num thriller de conspiração sobre Bitcoin parece uma aposta alta.
O roteiro é de Nick Schenk, o mesmo de Gran Torino e A Mula - dois filmes com Clint Eastwood que compartilham uma secura narrativa que não perdoa excesso. Se Schenk trouxe esse mesmo rigor para Killing Satoshi, a pergunta que fica é: quanto desse “ajuste de performance” vai ser usado para equalizar tons tão distintos? Se a IA conseguir costurar a energia caótica de Davidson com o estoicismo de Affleck sem parecer um remendo digital, podemos estar diante de um novo marco técnico. Se flopar, vai ser apenas mais um experimento caro que esqueceu que o cinema é, antes de tudo, sobre a verdade do momento capturado.
O fantasma de Satoshi e a herança do gênero
Histórias de hackers e mistérios tecnológicos têm um histórico oscilante em Hollywood. Temos desde o clássico cult Jogos de Guerra até coisas mais obscuras como Hide and Seek (1984), onde um jovem hacker chamado Gregory descobre que um programa que ele criou - a IA autorreplicante P-1 - ganhou consciência própria e tomou o controle de um reator nuclear. Killing Satoshi parece querer se posicionar naquele nicho de thrillers cerebrais que usam a tecnologia como pano de fundo para discutir poder e anonimato.
A premissa oficial pergunta: “E se Satoshi Nakamoto for real - e se alguém tentasse matá-lo ou apagar sua identidade para impedir que qualquer Satoshi viesse a público?” É o tipo de questão que transforma governos, Wall Street e o Vale do Silício em antagonistas simultâneos. O roteiro de Schenk, com sua tradição de thrillers morais, pode dar a isso o peso que o tema merece.
A produção fica por conta de Ryan Kavanaugh (Proxima Media), o ex-chefe da Relativity Media que financiou A Rede Social e O Lutador antes de ir à falência em 2015. Kavanaugh se converteu ao mundo cripto nos últimos anos, o que transforma Killing Satoshi em algo que vai além de um projeto profissional - é quase uma tese pessoal. Distribuição ainda não anunciada.
O meta-comentário involuntário
Particularmente, eu preferia ver Liman sujando os sapatos em locações reais em Zurique ou Tóquio, mas entendo o meta-comentário aqui: um filme sobre a moeda digital mais famosa do mundo ser construído em um ambiente puramente digital. É poético, tipo um filme do Cronenberg onde a tecnologia e a carne se fundem, só que no caso, a carne dos atores está sendo processada por uma GPU de última geração.
Liman sempre foi um diretor de movimento, de câmera na mão e de uma certa urgência visual. Substituir o mundo real por um cenário sintético pode dar a ele um controle de iluminação digno de um quadro de Caravaggio, mas corre o risco de cair no temido “vale da estranheza”. Se o filme pretende desvendar por que a identidade de Nakamoto ameaça a estrutura de poder global, ele vai ter que lutar para que a própria técnica não se torne mais barulhenta que a trama.
Espero que o roteiro sustente o hype, porque se a história não for sólida, não vai ter algoritmo no mundo que salve o filme de parecer um comercial de luxo para uma placa de vídeo. No fim das contas, a gente assiste cinema para ver seres humanos em situações extraordinárias, e não apenas pixels muito bem organizados por uma máquina que nunca sentiu o frio de uma locação noturna.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
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