'Foi como levar um soco na boca': Matthew Lillard e a crueldade casual de Tarantino
Tarantino desdenhou de Lillard em um podcast com três palavras. O ator comparou o que sentiu a assistir ao próprio velório.
Quentin Tarantino tem um talento particular para transformar opinião pessoal em execução pública. A arena mudou - saiu das entrevistas para revistas de cinema nos anos 90 e chegou aos podcasts -, mas o instinto permanece intacto. E no final de 2025, a vítima da vez foi Matthew Lillard, desdenhado pelo diretor em uma frase que doeu mais do que qualquer crítica elaborada poderia.
Durante uma participação no The Bret Easton Ellis Podcast, Tarantino fez o que faz de melhor depois de escrever diálogos: opinou sem filtro. Chamou Paul Dano de “o ator masculino mais fraco do sindicato dos atores de Hollywood”, criticou a franquia Jogos Vorazes e, quase de passagem, disparou: “Não ligo para Owen Wilson. Não ligo para Matthew Lillard.”
Sem elaboração. Sem argumento. Sem a cortesia mínima de explicar por quê. Apenas o desdém de quem não merece nem o esforço de uma crítica fundamentada.
A resposta de quem levou o soco
Lillard estava na GalaxyCon, em Columbus, Ohio, promovendo Cinco Noites no Freddy’s 2 quando a bomba caiu. Diante de uma plateia lotada de fãs, reagiu primeiro com a armadura do humor: “Quentin Tarantino disse essa semana que não gosta de mim como ator. E daí? Quem liga?”
A plateia vaiou. Não Lillard. Tarantino.
Então a armadura rachou.
“A questão é que dói. É uma merda. E ele não diria isso sobre Tom Cruise. Não diria sobre alguém que é um ator de primeira linha em Hollywood.”
A frase seguinte define tudo: “Eu sou muito popular nessa sala. Eu não sou muito popular em Hollywood. São dois microcosmos completamente diferentes. E isso é humilhante, e dói.”
Em entrevistas posteriores, Lillard aprofundou. Disse à Variety que sentiu como se tivesse “levado um soco na boca” e comparou a onda de apoio que recebeu a “assistir ao próprio velório, só que vivo.”
O velório mais bonito de Hollywood
E aqui a história ganha uma segunda camada que Tarantino não roteirizou.
A reação da indústria foi imediata. Mike Flanagan, que dirigiu Lillard em vários projetos, chamou-o de “o mais foda que existe.” James Gunn declarou que ele é “um dos meus caras e atores favoritos.” George Clooney disse que “teria honra de trabalhar” com qualquer ator de quem Tarantino desdenhou. E Neve Campbell, parceira de Lillard desde Pânico, foi direta: chamou os comentários de “insanos” e disse que Tarantino “deveria fazer a lição de casa.”
Lillard descreveu o momento à revista People: “Parecia que eu tinha morrido e estava no céu assistindo todo mundo postar seus RIPs.” E depois: “Na realidade, eu só tive a chance de viver tudo isso em primeira mão, vivo e inteiro.”
Existe algo dolorosamente poético nisso. Um ator que passou a carreira sendo adorado por fãs e ignorado por Hollywood viveu, em tempo real, a prova de que as duas coisas podem coexistir sem que uma invalide a outra.

O ator que você esqueceu que é brilhante
O paradoxo Matthew Lillard é real. Todo mundo reconhece o rosto, todo mundo gosta, quase ninguém lembra de escalar.
Em Pânico (1996), Lillard transformou Stu Macher de coadjuvante descartável em uma das performances mais desequilibradas e magnéticas do terror dos anos 90. O terceiro ato daquele filme pertence a ele - o colapso nervoso na cozinha, o pânico real misturado com humor doentio. Wes Craven sabia o que tinha nas mãos. SLC Punk! (1998) mostrou que o cara podia carregar um filme nos ombros. Twin Peaks: The Return (2017) provou que David Lynch confiava nele o suficiente para incluí-lo na obra mais ambiciosa da televisão moderna.
E agora, em 2026, Lillard está no centro de duas franquias - Cinco Noites no Freddy’s 2 e Pânico 7, cujo trailer acaba de ser lançado -, com uma relevância que dispensa validação de qualquer diretor.
A carreira dele não precisa da aprovação de Tarantino. Mas a opinião pública de um dos diretores mais influentes do cinema moderno carrega peso, e Lillard tem toda razão em dizer que dói.
A crueldade casual
O que incomoda na fala de Tarantino não é a opinião em si. Todo mundo tem o direito de não gostar do trabalho de alguém. É a crueldade casual. A naturalidade de quem sabe que suas palavras viram manchete e escolhe ser desdenhoso em vez de construtivo - ou pelo menos em vez de silencioso.
Tarantino, o diretor que construiu uma carreira inteira sobre a precisão cirúrgica do diálogo, sobre cada palavra pesando exatamente o que deveria pesar, aparentemente não aplica esse rigor quando fala de colegas. A ironia é grossa.
Quando atacou Paul Dano, pelo menos dedicou argumentos - destrutivos, cruéis, mas argumentos. Para Lillard, não houve nem isso. Apenas “não ligo.” É a diferença entre ser criticado e ser ignorado. E qualquer pessoa que trabalha com algo criativo sabe: ser ignorado machuca mais.
Na Hollywood que recentemente mostrou sinais de que está mudando, onde o Oscar finalmente premiou substância sobre espetáculo, talvez haja espaço para reconhecer que popularidade entre fãs e talento de verdade não são coisas excludentes. Que Wes Craven e David Lynch e Mike Flanagan não estavam errados sobre Matthew Lillard. Que o cara merece mais do que três palavras de desdém.
Lillard resumiu melhor do que eu poderia: “Acho ele um cineasta adorável, e simplesmente levar um soco na boca assim foi um balde de água fria.”
A boa notícia é que o velório de Matthew Lillard aconteceu em vida. E ele teve a chance rara de ouvir tudo que as pessoas diriam se ele não estivesse mais ali. O velório estava cheio.
Felipe Ouder
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