Mousetrap fez 19,2 milhões de horas na semana de estreia e virou a quinta série mais vista da Netflix fora do inglês. No Brasil ela chegou como O Rato

Minissérie coreana de 10 episódios estreou em 28 de agosto e já está no top 10 brasileiro. A lenda por trás dela fala de um rato que come unhas cortadas.

Yumi Rodrigues
Yumi Rodrigues Já vi tudo, ainda acho que tem série boa pra descobrir
6 de setembro de 2026 6 min
Je Moon-jae, vivido por Ryu Jun-yeol, sentado de óculos num sofá verde e olhando para cima, com a silhueta ampliada de um rato projetada na parede atrás dele
!!

Imagina encostar o dedo no celular e a digital não funcionar.

Você tenta de novo. Nada. Tenta o outro dedo. O aparelho é seu, você comprou, você está segurando ele, e ele decidiu que você é um estranho.

Essa é a cena que abre a espiral de Mousetrap na Netflix, minissérie coreana que no catálogo brasileiro aparece como O Rato. Dez episódios, todos liberados de uma vez em 28 de agosto, entre 50 e 55 minutos cada, classificação 16 anos. Eu emendei quatro numa sentada e fui dormir mal.

Prometo que não tem spoiler nenhum daqui pra frente. A graça da série é justamente a ordem em que ela te conta as coisas.

O protagonista é Je Moon-jae, escritor de mistério que está trancado em casa há três anos por transtorno de pânico e agorafobia, que é o medo de sair e de ficar exposto em lugar aberto ou cheio de gente. Ele já vivia com o mundo reduzido a um apartamento. Aí o celular para de reconhecer a digital dele, o único amigo que ele tinha some sem deixar recado, e começam a aparecer sinais de que outra pessoa está andando por aí sendo ele.

Sem digital, sem amigo, sem ninguém do lado de fora que possa dizer quem ele é. Ele precisa provar a própria identidade, e cada porta que ele bate exige exatamente o documento que já não é mais dele.

A lenda diz que o rato que come suas unhas cortadas vira você

A série sai de um conto folclórico coreano chamado Sontop Meogeun Jwi, que traduzindo fica alguma coisa como “o rato que comeu as unhas”. A premissa da lenda é essa mesma: um rato encontra as unhas que você cortou e jogou fora, come, e se transforma em você. Aparece na sua casa. Senta na sua mesa. Sua família não percebe.

Cresci ouvindo história de mula sem cabeça e ainda assim essa me pegou, porque o detalhe é doméstico demais. Unha cortada é lixo. Você joga fora sem pensar, todo mundo joga, e a lenda diz que é exatamente por ali que alguém entra.

A adaptação faz a jogada certa e tira o sobrenatural inteiro. Some o rato mágico, e o que entra no lugar da unha é senha, conta bancária e identidade digital, quer dizer, exatamente as sobras que a gente espalha por aí sem pensar duas vezes.

E é impossível assistir isso no Brasil sem sentir um friozinho de reconhecimento. Faz poucas semanas que a gente escreveu por aqui sobre um único login roubado que expôs o CPF e o saldo de milhões de usuários da Vakinha. A lenda coreana precisa de um rato comendo unha. O Brasil precisa de uma credencial vazada numa planilha.

Ryu Jun-yeol faz o escritor e faz quem roubou o escritor

Quem segura o papel é Ryu Jun-yeol, e ele faz os dois lados: o Moon-jae e o impostor. Se você o conhece de Reply 1988, prepara o coração, porque a distância entre aquele personagem e esse é de outro planeta.

Do lado dele está Sul Kyung-gu como Noja, um agiota. A dupla é a melhor ideia do roteiro: o cara que perdeu a identidade só consegue caçar quem roubou ela se aliando a alguém que trabalha justamente com dívida, cadastro e nome sujo. O sujeito que vive de saber quem é quem no submundo vira a única ferramenta de quem deixou de ser alguém.

Na direção está Kim Hong-sun, com roteiro de Lee Jae-gon. É minissérie fechada, sem gancho de segunda temporada, e depois de anos de série que termina no meio pra emplacar renovação, isso conta muito na minha lista.

O IMDb está em 7,0. O Rotten Tomatoes ainda não tem análises de crítica suficientes pra fechar porcentagem, o que costuma acontecer com produção coreana que estreia sem grande campanha de imprensa fora da Ásia.

2 milhões de visualizações contra os 7 milhões de Sacrifício de Sangue, e a conta engana

Agora a parte que as manchetes estão contando torto.

Na semana de 24 a 30 de agosto, Mousetrap fez 2 milhões de visualizações e 19,2 milhões de horas assistidas, ficando em quinto lugar entre as séries não faladas em inglês. Se você comparar com os 7 milhões de visualizações que Sacrifício de Sangue tinha feito na semana anterior, parece que a coreana levou uma surra.

Só que “visualização” na contabilidade da Netflix é horas assistidas divididas pela duração total da temporada. Uma série de dez episódios precisa de umas nove horas de gente na frente da tela pra registrar uma única visualização. A sueca fecha em quatro.

Refazendo a conta em horas, que é a medida que não muda de tamanho: 19,2 milhões contra 29,3 milhões. A coreana continua atrás, e a diferença real é bem menor que a de três vezes e meia que o número da manchete sugere. Guarde essa régua pra próxima vez que compararem minissérie curta com temporada longa como se fosse a mesma coisa.

No Brasil ela entrou em décimo, atrás de um c-drama e de um dorama de piano

No ranking brasileiro do dia 2 de setembro, O Rato apareceu na décima posição. À frente dele estavam Quatro Mãos, Duas Sonatas em nono, Sacrifício de Sangue em oitavo, Outer Banks em sétimo, e o primeiro lugar era do chinês The Early Spring.

Ou seja: das dez séries mais vistas do Brasil naquele dia, três eram asiáticas legendadas e uma era turca. Metade do top 10 brasileiro não fala inglês nem português. Isso teria sido impensável há uns seis anos, e ninguém está comentando o suficiente sobre o tamanho da virada.

Décimo lugar numa semana de estreia com esse nível de concorrência é um bom sinal, ainda mais pra uma série que chegou sem alarde e cuja premissa exige que você aguente um protagonista em pânico por episódios inteiros antes da coisa engrenar.

O aviso honesto: os dois primeiros episódios são lentos de propósito, porque a série quer que você sinta o aperto do apartamento antes de abrir a rua. Se você desistir no meio do segundo, você vai perder o momento em que ela vira outra série.

Eu cortei as unhas ontem e me peguei olhando pra pia. Nesse ponto a série já ganhou.

Yumi Rodrigues
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Yumi Rodrigues

Já vi tudo, ainda acho que tem série boa pra descobrir

Especialista em séries de TV e plataformas de streaming. Analisa lançamentos e tendências.

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