Ele matou a família inteira para continuar sendo uma pessoa que nunca existiu

O adversário de Carrère chega ao Brasil com nova tradução e o caso Romand intacto: dezoito anos de mentira, cinco mortos, e um veredito de sanidade plena.

Sicko
Sicko Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
17 de março de 2026 7 min
Capa da edição brasileira de O adversário, de Emmanuel Carrère, pela Alfaguara
!!

Em 1988, Jean-Claude Romand enviou para os pais uma fotografia do prédio da OMS em Genebra com um X marcando a janela do escritório onde trabalhava. Mas ele não trabalhava lá, o que pressupõe que ele foi até o prédio ou obteve a foto de algum modo, avaliou qual andar e qual janela seriam verossímeis dados os detalhes que havia contado sobre o cargo e o departamento, fez o X com caneta ou marcador, colocou no envelope e mandou pelo correio com algum grau de satisfação pelo gesto, um grau de satisfação que se torna mais perturbador quanto mais você tenta imaginar qual seria. Ele não trabalhava em lugar nenhum, o X apontava para uma sala que pertencia a outra pessoa num prédio onde entrava com passe de visitante para pegar folhetos gratuitos que depois espalhava no banco traseiro do carro como prova de presença. É esse detalhe que não consigo largar. Não os assassinatos (aguarde). O X.

DEZOITO anos.

Desde 1975, quando disse para a família que havia passado no exame de medicina que no ano anterior não conseguira sequer sentar para fazer. Todo dia saía de casa como se fosse ao trabalho, dirigia até algum estacionamento no interior da França ou até Genebra, e ficava sentado no carro por horas, sozinho, em silêncio, fazendo NADA. Voltava no horário certo com uma história plausível sobre reuniões e colegas e pacientes que não existiam. A foto com o X estava na parede da casa dos pais. Quando eles morreram, em janeiro de 1993, ela provavelmente ainda estava lá.

O que é notável, antes de qualquer outra coisa, é a ausência de custo subjetivo visível. Manter uma ficção dessa magnitude, num sujeito com integração mínima do ego, geraria erosão progressiva, pressão de deposição, o que os clínicos chamam de depleção do repertório de supressão: a mentira vai custando cada vez mais até que o custo se torna insuportável.

Em Romand isso não aconteceu, e a ausência é mais informativa do que qualquer achado positivo que os laudos produziram, porque indica que a ficção não estava sendo mantida, estava sendo habitada: Romand não mentia sobre si mesmo, ERA a mentira, não havia distância psíquica entre o sujeito que sabia da fraude e a persona que a executava, o que significa que não havia sujeito separado da persona, o que é uma formulação que parece técnica até você sentar com ela por tempo suficiente para perceber o que implica. ANTES de ter qualquer coisa a esconder, antes de qualquer vantagem a proteger, ele já havia ESCOLHIDO existir como outra pessoa. A mentira não foi uma resposta à realidade. Precedeu a realidade. Foi a condição de possibilidade do Romand que a família conheceu.

Que isso tenha durado dezoito anos sem colapso visível não é surpreendente, dentro dessa leitura. É exatamente o que se esperaria.

Em janeiro de 1993 a estrutura começou a ceder. A escola dos filhos ligou para a OMS em Genebra. Ninguém no prédio conhecia aquele nome. A amante pressionava pela devolução do dinheiro que havia entregado para aplicações que não existiam. A mulher fazia perguntas. Ele tinha duas opções.

Em 9 de janeiro matou a mulher com um rolo de macarrão enquanto ela dormia. Passou a manhã assistindo televisão com as crianças e as matou. No dia seguinte foi à casa dos pais, almoçou, atirou nos dois logo depois. Tentou matar a amante com um cordão e gás lacrimogênio; ela se defendeu, ele pediu desculpa, a levou para casa e pediu que ficasse quieta. Incendiou a casa, tomou comprimidos. Matou também o cachorro. Sobreviveu.

O narcisismo maligno oferece uma leitura para o que aconteceu em janeiro de 1993. A maioria das pessoas, encurralada assim, sentiria vergonha: dolorosa, insuportável, mas com substrato neurofisiológico, processável, sobrevivível. A coisa humilhante mas sobrevivível que seria confessar.

O self que existe exclusivamente como reflexo externo não tem esse recurso. Não experimenta vergonha. Experimenta injúria narcísica, que é outra coisa: a percepção de dissolução. O equivalente psíquico de cessar de existir. Uma coisa que não é metáfora.

O que Romand fez não foi um crime para esconder um segredo. Foi uma tentativa de PRESERVAR a única versão de si mesmo que existia eliminando todos que estavam prestes a dissolvê-la. A distinção parece fina até você tentar imaginar a experiência subjetiva de alguém para quem confessar não é uma opção dolorosa. É literalmente impensável. No sentido EXATO do termo.

Três equipes de psiquiatras independentes examinaram Romand antes do julgamento de 1996. As três chegaram à mesma conclusão: legalmente são, plenamente responsável.

Depois de 26 anos preso, Romand foi para um mosteiro beneditino, onde se tornou profundamente religioso. Encontrou, em suma, uma nova estrutura que lhe fornece identidade via reflexo externo e que por definição não pode ser verificada empiricamente. É uma conclusão satisfatória para quem precisa de uma.


Jean-Claude Romand
Jean-Claude Romand

Emmanuel Carrère leu sobre o caso em 1993 e escreveu para Romand na prisão ainda naquele ano, dizendo que não estava atrás de curiosidade mórbida, que via ali a ação de alguém empurrado ao limite por forças terríveis. A correspondência começou em 1996. Carrère esteve no tribunal todos os dias como correspondente do Nouvel Observateur, visitou Romand na prisão três vezes, mandou o manuscrito antes da publicação com um bilhete: “Não posso me encarregar da sua Verdade. Ela pertence a você.”

O adversário, que a Alfaguara publica no Brasil em fevereiro de 2026 na tradução de Mariana Delfini, levou sete anos para ser escrito. Parte do tempo foi paralisia. Carrère descreve ter ficado incapaz de produzir qualquer coisa durante um período enquanto mantinha as aparências de que estava trabalhando normalmente, e ele registra isso com consciência total do que significa colocá-lo num livro sobre Jean-Claude Romand: a distância entre ele e o sujeito do livro era de escala e de consequência, não de estrutura. A operação de construir uma versão de si mesmo para consumo externo, de habitar a lacuna entre o que se aparenta e o que se é, não era algo que ele observava de fora.

Isso diferencia o livro de A Sangue Frio, com o qual será inevitavelmente comparado: Capote passou anos em intimidade com os assassinos e depois se apagou do texto para fingir objetividade. Carrère não se apaga, e a argumentação implícita é que se você escreve sobre um homem que construiu uma identidade inteiramente fictícia e depois se apaga do texto para parecer neutro, está fazendo a mesma operação em escala menor, com menos consequências, mas a mesma operação.

O título vem do vocabulário cristão: o adversário é o Diabo, não como entidade sobrenatural mas como princípio ativo de oposição ao real. Carrère escreveu o livro dentro de um período de fé que depois perdeu. O adversário de Jean-Claude Romand não era a lei nem os credores nem a mulher com perguntas. Era a possibilidade de ser visto como aquilo que era. Que, neste caso, era NINGUÉM.

A edição brasileira anterior, pela Record em 2007, passou sem deixar marca. Esta chega com Carrère já estabelecido como um dos autores centrais da literatura europeia contemporânea, depois de Limonov, depois de O Reino, depois de V13, temos agora O adversário como o texto fundador de tudo que veio depois. A prosa foi descrita pela crítica francesa como deliberadamente chata e drenada, escolha formal contra o sensacionalismo. Não há imagens de horror. Há lógica, que é pior.

Um homem acumulou dezoito anos de escolhas coerentes com uma premissa impossível, e quando a premissa foi ameaçada fez o que qualquer estrutura faz quando a fundação cede: desabou sobre tudo que estava dentro.

E foi declarado SÃO.

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