A OMS recomendou contra o adoçante artificial em 2023. A ciência de 2025 e 2026 só acumulou mais razões.

Em 2023, a OMS desaconselhou adoçantes para perda de peso. Em 2025, pesquisadores da USP ligaram o consumo ao declínio cognitivo. Em 2026, um estudo apontou efeitos na geração seguinte.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
25 de abril de 2026 5 min
Gotejador de adoçante líquido despejando gotas em xícara de café preto
!!

O mercado de refrigerantes sem açúcar cresce no Brasil há anos. A premissa é simples: trocar açúcar por adoçante artificial - aspartame, sucralose, acessulfame-K, sacarina - seria uma escolha mais saudável. Menos caloria, mesmo prazer, zero culpa.

O problema é que a ciência das últimas décadas nunca foi tão favorável quanto a indústria fez parecer. E 2023, 2025 e 2026 não ajudaram.

A OMS quebrou a promessa número um em 2023

Em maio de 2023, a Organização Mundial da Saúde publicou uma diretriz específica sobre adoçantes sem açúcar. A recomendação principal: não use para controle de peso a longo prazo.

Isso é mais direto do que parece. A premissa central de vender adoçante artificial sempre foi “você come menos caloria, então emagrece ou mantém o peso”. A OMS revisou as pesquisas disponíveis e concluiu que isso não funciona de forma sustentável em adultos ou crianças. Substituir açúcar por adoçante não resulta em perda de peso relevante no longo prazo.

E acrescentou: pode haver efeitos indesejáveis com o uso prolongado.

A diretriz tem classificação “condicional” - o que significa que a OMS não tem evidência suficiente para uma proibição, mas tem evidência suficiente para dizer que a promessa é falsa. A indústria não fez muito barulho com isso. O mercado de zero caloria continuou crescendo.

A USP acompanhou 12 mil pessoas por oito anos

Em 2025, pesquisadores da Universidade de São Paulo publicaram um estudo na revista Neurology usando dados do projeto Elsa-Brasil, um levantamento longitudinal com mais de 12 mil participantes acompanhados por oito anos.

O que encontraram: pessoas com alto consumo de adoçantes artificiais apresentaram taxa de declínio cognitivo 62% maior do que as com baixo consumo. Memória e fluência verbal - medida pela capacidade de evocar e nomear palavras rapidamente - deterioraram mais rápido nos grandes consumidores.

As ressalvas existem. Os dados dietéticos são autorrelatados, o que cria margem para imprecisão. Sucralose, hoje o adoçante mais popular no mundo, não foi incluída porque não era comum no Brasil quando o projeto começou em 2008. E associação não é causalidade: pessoas que consomem mais adoçante podem ter outros hábitos que contribuem para o declínio cognitivo.

Mas 12 mil pessoas por oito anos não é pesquisa de laboratório feita em roedores. É epidemiologia de longo prazo.

Os pesquisadores propõem dois mecanismos possíveis: adoçantes podem causar inflamação cerebral ou neurotoxicidade direta, ou podem alterar a microbiota intestinal - o conjunto de bactérias que vive no intestino e que afeta metabolismo, sistema imunológico e a integridade da barreira entre intestino e cérebro.

O problema da microbiota apareceu de novo em 2026

Em abril de 2026, um estudo publicado na Frontiers in Nutrition mostrou que sucralose e stévia alteram a composição da microbiota intestinal em camundongos. Isso afeta a expressão de genes ligados ao metabolismo energético. O ponto mais perturbador: esses efeitos apareceram nos filhotes dos animais expostos. A geração seguinte nasceu com alterações que não existiam nos pais antes do consumo.

Pesquisa em camundongo não é pesquisa em humano. Ninguém está afirmando que adoçante artificial vai afetar seus filhos. Mas é aí que começa a preocupação científica antes de chegar aos ensaios clínicos em humanos.

Aspartame e coração: mais um estudo em 2025

Em maio de 2025, um estudo associou aspartame - o adoçante do Coca-Cola Diet clássico e de vários sachês de mesa - ao agravamento da aterosclerose. Aterosclerose é o acúmulo de placas nas paredes das artérias, o precursor de infarto e AVC.

Outros estudos já tinham ligado acessulfame-K e sucralose a maior risco de doenças coronarianas. A evidência ainda é predominantemente associativa. Mas a direção está se repetindo.

Christopher Gardner, pesquisador da Universidade Stanford, tem uma crítica metodológica importante para esse debate todo: a maioria dos estudos sobre adoçantes compara o consumo com água, não com açúcar. Quando o parâmetro é água, quase qualquer coisa parece pior. A comparação relevante - adoçante versus açúcar - ainda está sendo construída, e aí a resposta não está clara. Mas “neutro” claramente não está nas opções.

Nem a OMS nem a USP recomendam jogar fora o adoçante hoje

A resposta honesta dos próprios pesquisadores, incluindo os autores do estudo da USP, não é “jogue fora o adoçante hoje”. É: consuma menos doce no geral.

O raciocínio é simples. Adoçante artificial não ensina o paladar a preferir menos doçura. Ele mantém a dependência do sabor intenso e doce, mas troca a fonte. Você continua querendo doce, só muda o mecanismo de entrega.

Água com gás funciona como alternativa. Chá sem adoçar funciona. Tomar menos refrigerante - com ou sem açúcar - é o que a maior parte dos pesquisadores recomendaria se fossem honestos sobre o estado atual da ciência.

O padrão “seguro até prova em contrário” que a indústria usa pra lançar ingredientes processados tem um histórico ruim. É o mesmo raciocínio que atrasou por décadas o reconhecimento dos riscos de substâncias encontradas em produtos de consumo cotidiano - como mostrou o estudo sobre compostos químicos em fones de ouvido publicado no ano passado.

Adoçante artificial não te mata. A promessa de que ele é uma alternativa inofensiva ao açúcar, capaz de te ajudar a manter o peso sem consequências, é o que a ciência está questionando. E vem questionando com dados cada vez mais consistentes.

A OMS falou em 2023. A USP estudou 12 mil pessoas por oito anos em 2025. Em 2026, a pesquisa chegou à geração seguinte dos animais de laboratório.

O Brasil continua bebendo.

Lucas Ferreira
AUTOR

Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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