A chefe de robótica da OpenAI pediu demissão por causa do Pentágono. E o "modo adulto" do ChatGPT foi adiado. De novo.
Caitlin Kalinowski pediu demissão da OpenAI citando vigilância e armas autônomas. Enquanto isso, o modo adulto do ChatGPT foi adiado pela segunda vez.
Caitlin Kalinowski liderava a divisão de robótica da OpenAI desde novembro de 2024. Na sexta-feira, 7 de março, anunciou no LinkedIn e no X que estava indo embora. O motivo: o acordo da OpenAI com o Pentágono, o mesmo contrato que já provocou uma debandada de 2,5 milhões de usuários do ChatGPT na semana anterior. Dessa vez, não é usuário saindo. É gente de dentro.
E enquanto a empresa lida com a crise mais séria da sua história, encontrou tempo para anunciar outra coisa: o “modo adulto” do ChatGPT, prometido desde outubro de 2025, foi adiado pela segunda vez. Sem nova data.
Vigilância e armas autônomas: as palavras que pesaram
Kalinowski não é uma funcionária qualquer. Antes da OpenAI, ela passou quase uma década na Oculus construindo headsets de realidade virtual, liderou o projeto dos óculos de realidade aumentada Orion na Meta e trabalhou no design do MacBook na Apple. Era uma das contratações mais experientes da divisão de hardware.
Na publicação de despedida, foi direta: “Vigilância de americanos sem supervisão judicial e autonomia letal sem autorização humana são limites que mereciam mais deliberação do que tiveram.”

Num post adicional no X, Kalinowski esclareceu que o problema não era necessariamente trabalhar com defesa, mas a pressa: “O anúncio foi apressado sem que as salvaguardas estivessem definidas. É uma questão de governança antes de tudo.”
A OpenAI respondeu dizendo que o acordo com o Pentágono inclui “linhas vermelhas: nada de vigilância doméstica e nada de armas autônomas.” Sam Altman, o CEO, já havia admitido dias antes que o lançamento do contrato “pareceu oportunista e descuidado.”
O contexto que a OpenAI esperava que você esquecesse
Pra quem chegou agora: o Pentágono estava negociando com a Anthropic, criadora do Claude, pra implantar IA em redes militares classificadas. A Anthropic traçou limites claros sobre vigilância em massa e armas autônomas. O Pentágono não aceitou. As negociações quebraram.
Horas depois de o governo Trump classificar a Anthropic como “risco à cadeia de suprimentos de segurança nacional”, a OpenAI apareceu com seu próprio contrato assinado. O timing foi tão conveniente que até Altman reconheceu o problema. Nos dias seguintes, as desinstalações do ChatGPT dispararam 295% e o Claude virou o app mais baixado nos EUA.
E agora a chefe de robótica pediu demissão. Funcionários da OpenAI, segundo a Fortune, “respeitam muito” a Anthropic por ter enfrentado o Pentágono. Não é exatamente o tipo de sentimento que uma empresa quer alimentar no próprio escritório.
O modo adulto: segunda temporada do adiamento
No meio dessa turbulência, a OpenAI adiou pela segunda vez o lançamento do “modo adulto” do ChatGPT. A funcionalidade permitiria que usuários com idade verificada acessassem conteúdo voltado para adultos, incluindo textos eróticos.
Altman anunciou a ideia pela primeira vez em outubro de 2025. O primeiro prazo era dezembro de 2025. Não rolou. O segundo prazo era o primeiro trimestre de 2026. Também não rolou.
A justificativa oficial é que a empresa quer “focar em trabalho que é prioridade maior para mais usuários agora”, citando melhorias de inteligência, personalização e uma experiência “mais proativa”. Não há nova data prevista.
Em tradução livre: prometemos uma coisa, não conseguimos entregar, e agora estamos dizendo que tem coisa mais importante pra fazer. É o tipo de comunicação corporativa que você encontra em roadmaps de jogos que nunca saem do acesso antecipado.
O que isso significa na prática
A OpenAI está perdendo gente qualificada por causa de uma decisão que seu próprio CEO admitiu ter sido mal executada. Está perdendo usuários. E não está conseguindo entregar funcionalidades que prometeu meses atrás.
Nada disso significa que a empresa vai falir amanhã. O ChatGPT continua sendo o chatbot mais usado do planeta, e contratos militares costumam render muito dinheiro. Mas existe uma diferença entre ser a empresa que lidera a corrida da IA e ser a empresa que aceita qualquer contrato, perde talentos por isso e adia promessas sem prazo.
A Kalinowski saiu por uma questão que ela mesma chamou de governança. Se a OpenAI quer manter gente do calibre dela, talvez precise começar a tratar essas questões antes de assinar os contratos, e não depois que o LinkedIn dos ex-funcionários vira trending topic.
Enquanto isso, o modo adulto do ChatGPT continua sendo a funcionalidade mais adiada da IA. Se a OpenAI precisa de mais tempo pra verificar idade, ninguém deveria reclamar. Mas se o motivo real é que a empresa está ocupada demais apagando incêndio, talvez o problema seja maior do que um recurso adiado.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
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