A Palantir publicou um manifesto fascista, a imprensa americana leu como vilão de HQ e foi almoçar
A Palantir publicou 22 pontos no Twitter: rearmar Alemanha e Japão, conscrição universal, hierarquia cultural. Vilão de HQ perde. Esse manifesto não foi escrito pra perder.
A Palantir se chama Palantir porque Peter Thiel é fã de Tolkien. Mas o nome não é easter egg de nerd, não é homenagem ingênua, não é piada de fundador. A palantír, no livro, é um objeto amaldiçoado. Faz quem olha ser visto, no mesmo segundo, pelo olho que olha de volta.
No meio do segundo volume de O Senhor dos Anéis, Pippin apanha a pedra de Orthanc, olha dentro, e é imediatamente reconhecido por Sauron. A pedra queima. O hobbit vomita, se contorce, balbucia, e tem que ser carregado por Gandalf para longe de uma Mordor que agora sabe exatamente onde ele está.
Thiel leu o livro. Thiel sabia. Em 2003, com dinheiro da In-Q-Tel, o fundo de capital de risco da CIA, abriu uma empresa de software e escolheu pra ela o nome desse objeto específico, cuja função no cânone de onde o nome vem é entregar o usuário ao inimigo no segundo em que o usuário liga o aparelho.
A empresa nunca precisou explicar a escolha. O nome era a tese.
Tolkien publicou a cena em 1954, vinte anos antes do primeiro computador pessoal existir e quarenta antes da internet comercial. A pedra não tem vontade. A pedra é INSTRUMENTO. Quem tem vontade é o outro lado. E o outro lado, no exato segundo em que você encosta o olho, já te acessou. Não é preciso ter algo a esconder. Não é preciso consentir. A porta fica aberta pelo USO.
Uso é consentimento retroativo.

Nos últimos dias, a Palantir publicou no Twitter, que o Elon Musk insiste em chamar daquele outro nome CAFONA, um resumo de mil palavras dos 22 pontos centrais do livro “The Technological Republic: Hard Power, Soft Belief, and the Future of the West”, escrito pelo presidente-executivo Alex Karp com o coautor Nicholas Zamiska, publicado em 2025.
O post circulou algumas horas antes de ser comparado, no próprio Twitter, a monólogo de vilão de HQ. A comparação virou manchete. A comparação virou artigo da Engadget. A comparação se espalhou e, nas últimas 48 horas, é o único ângulo crítico que a imprensa mainstream conseguiu articular.
A comparação é certa e é covarde.
Certa porque a ESTÉTICA do manifesto é, de fato, indistinguível da fala final de um Lex Luthor mal roteirizado.
Covarde porque reduz a gravidade do texto a categoria de comédia.
Vilão de HQ é figura feita para criança. Vilão de HQ tem plano mal executado e é derrotado na página seguinte. Vilão de HQ PERDE. O manifesto da Palantir não está escrito para ser derrotado. Está escrito para documentar a posição da empresa agora que a empresa não precisa mais fingir. É diferente. É pior.
E a imprensa mainstream escolheu rir porque rir é mais fácil do que ler com atenção um texto que diz, em frases curtas, o que a diplomacia das últimas oito décadas foi construída para impedir que ninguém dissesse em voz alta.
Algumas frases precisam ser lidas em voz alta para serem compreendidas.
“Hard power neste século será construído sobre software.”
Hard power é categoria de Joseph Nye, anos oitenta, para distinguir coerção militar direta de persuasão cultural. Karp está dizendo, na cadência de um memorando trimestral, que a próxima guerra é a DELE. Não diz que a Palantir vai auxiliar. Diz que hard power SERÁ CONSTRUÍDO SOBRE. A preposição é arquitetônica. A empresa não quer ser fornecedora. Quer ser a própria laje. É a diferença conceitual entre vender arma e SER a arma. É o que uma empresa que firmou mais de quatro bilhões de dólares em contratos ativos com o Pentágono escreve quando o mercado já está em posição de não punir a franqueza.
“Algumas culturas produziram avanços vitais; outras permanecem disfuncionais e regressivas.”
Essa é a frase inaugural de qualquer tratado de racismo científico do século dezenove. A bibliografia é tediosa e conhecida. Arthur de Gobineau em 1853. Herbert Spencer nos anos sessenta. Houston Stewart Chamberlain em 1899. Todos esses autores tinham em comum a impáfia retórica de classificar culturas humanas num ranking evolutivo e identificar as “atrasadas” com os povos que a Europa colonizava. A frase volta quase intacta em 2026, publicada pelo canal corporativo de uma empresa avaliada em dezenas de bilhões de dólares, cujo produto de maior receita é o software que o ICE usa para localizar, capturar e deportar famílias inteiras categorizadas pela narrativa executiva americana como “atrasadas”. A Palantir está tecnologicamente ACOPLADA à deportação enquanto publica a frase que justifica a deportação. Outros tempos chamariam isso de cinismo. Esse tempo chama de conteúdo.
“Serviço nacional deve ser dever universal.”
Conscrição. Mobilização compulsória da população civil em função do Estado. É a gramática do Reichsarbeitsdienst traduzida para inglês corporativo. Não é leitura conspiratória. É decomposição da frase. A palavra dever não admite voluntariedade. A palavra universal não admite exceção. A palavra serviço, quando conjugada com as duas anteriores, é mobilização forçada.
“A castração pós-guerra da Alemanha e do Japão precisa ser desfeita.”
Essa não é ambígua. Rearmar os dois países que a humanidade condenou especificamente por terem sido Estados fascistas, especificamente por causa do que fizeram enquanto rearmados, é dizer que o problema da Segunda Guerra não foi o fascismo. Foi a PUNIÇÃO ao fascismo. É uma posição coerente. É uma posição historicamente identificável. E está agora publicada no canal oficial da empresa que processa os dados do ICE e do Exército israelense simultaneamente.

“Inclusão no quê?” é o último golpe. É resposta à retórica pluralista.
Karp zomba da ideia de inclusão porque inclusão pressupõe sujeito indefinido, plural, em construção. O projeto dele é de Estado positivo, unitário, com identidade nacional definida pela EXCLUSÃO. Karl Popper passou a Segunda Guerra inteira escrevendo A Sociedade Aberta e Seus Inimigos para explicar que a pergunta “inclusão no quê” não tem resposta estável porque a resposta estável é o começo do totalitarismo.
Popper sabia disso porque fugiu do nazismo. Adorno e Horkheimer sabiam disso porque também fugiram. Aqui a coisa fica ainda mais curiosa. Alex Karp defendeu em 2002 tese de doutorado em teoria social neoclássica na Universidade Goethe de Frankfurt, a cidade-origem da Escola de Frankfurt. Orientação de Karola Brede. Isso está no currículo dele, está na Wikipedia, está em toda entrevista que ele dá como ornamento intelectual. Ele cita Kierkegaard e Habermas em conferência como quem exibe cicatriz de batalha.
Frankfurt é a cidade onde Adorno e Horkheimer escreveram em 1944, fugindo do mesmo nazismo, a Dialética do Esclarecimento. O livro argumenta, em prosa tão densa que parece estar sendo passada por lâmina, que a razão iluminista levada ao limite produz o próprio totalitarismo que dizia combater. Que a administração racional do mundo, quando tecnicamente completa, vira Auschwitz. Que o cálculo vira o forno. Esse livro é leitura obrigatória em qualquer programa sério de teoria crítica e Karp passou o doutorado inteiro nesse perímetro intelectual. Ele LEU. Ele ENTENDEU a tese. E vendeu a tese para o lado exato do argumento que o livro combatia. Isso não é lapso teórico. É apostasia profissional. É o tipo de traição intelectual que só é possível para quem estudou o suficiente para saber o que está traindo.
Peter Thiel é caso mais estranho. Estudou em Stanford sob René Girard, antropólogo literário francês que argumentava que toda sociedade humana é fundada em violência coletiva contra um bode expiatório, e que o cristianismo foi a primeira teologia a tornar esse mecanismo visível.
Thiel pegou essa teoria e virou pro lado mais sombrio possível. Se a violência fundadora é o que mantém a sociedade unida, então o papel do cristão em tempos finais é sustentar o katechon, a força do capítulo dois da Segunda Epístola aos Tessalonicenses, que segura o anticristo.
Em palestras abertas desde 2020, Thiel defende que o anticristo, na era contemporânea, é o multilateralismo liberal, e que o katechon é a nação armada. A Palantir não é a empresa de software dele. A Palantir é o KATECHON de Thiel. É a barragem técnica contra a dissolução. É, na cosmologia pessoal dele, literalmente a obra cristã de conter o apocalipse. Se isso soa enlouquecido é porque é. Mas é exatamente o que ele diz em público com a cadência de quem descobriu uma tabuada esquecida. E é por isso que JD Vance, que Thiel financiou com quinze milhões de dólares para chegar ao Senado e que hoje é vice-presidente dos Estados Unidos, se converteu ao catolicismo pós-liberal de Patrick Deneen e Adrian Vermeule, a ala que defende que a liberdade constitucional americana foi um erro teológico a ser corrigido. Não é acidente. É herança.

O produto carro-chefe da Palantir chama-se Gotham. Foi usado na captura de Osama bin Laden, na busca por informantes durante a invasão do Iraque, e hoje roda em operações do ICE, da polícia de Nova York, de Los Angeles, de Nova Orleans. O produto secundário chama-se Foundry, vendido para corporações, utilizado entre outros pela Airbus, pelo JPMorgan e pelo Serviço Nacional de Saúde britânico durante a pandemia.
O produto mais recente chama-se AIP, Artificial Intelligence Platform, lançado em 2023, que a própria Palantir comercializa como ferramenta de identificação de alvos militares em tempo real. Existem vídeos OFICIAIS no canal da empresa no YouTube em que um operador usa o AIP para, em poucos cliques, identificar movimentação de blindados e gerar ordens de ataque. A voz no vídeo é suave. A cadência é de comercial de seguro de automóvel. Os ícones são amigáveis. Tudo é limpo. A estética limpa é PARTE do produto. É o que permite que o operador execute a ordem sem vomitar.
Em janeiro de 2024 a Palantir anunciou parceria estratégica com o Ministério da Defesa de Israel. Detalhes do contrato não são públicos. Karp viajou a Tel Aviv para defender publicamente a operação israelense em Gaza, foi fotografado sorrindo em reuniões com gabinete de guerra, e vem publicando artigos em jornais americanos argumentando que a aversão moral do Ocidente ao uso letal da força com decisão é a vulnerabilidade central da civilização.
Sistemas de alvos como Lavender e Where’s Daddy, usados pelas IDF para gerar listas automatizadas de execução, não são produtos Palantir diretamente, mas rodam sobre infraestrutura de análise de dados do mesmo mercado globalizado em que a Palantir é a referência institucional e do qual Karp é o rosto público. Que esse argumento seja hoje articulado por um homem que fez doutorado em Frankfurt é a prova mais acabada de que a tese de Adorno e Horkheimer sobre a razão instrumental continua certa.
A arquitetura é exportada. A Agência Brasileira de Inteligência, sob o governo Bolsonaro, montou entre 2019 e 2022 um sistema de vigilância ilegal que monitorou jornalistas, ministros do Supremo Tribunal Federal e opositores políticos, investigado pela Polícia Federal desde março de 2023 na Operação Última Milha. A tecnologia envolvida era da Cognyte, empresa israelense que atua no mesmo ecossistema de contratos militares que a Palantir. Não é importação de ideologia. É importação de INFRAESTRUTURA. E uma vez importada, a infraestrutura não precisa de ideologia para operar. Ela opera. Encontra alvos. Fecha contas bancárias. Identifica marchas. Geolocaliza manifestantes. Chega antes do crime existir, porque o crime, pra essa arquitetura, é pré-existente, estrutural, inferido por padrão estatístico, e a pessoa específica é apenas a instanciação temporária do padrão.
Marielle Franco foi assassinada em março de 2018. Os executores foram presos em 2019. Os mandantes, identificados como os irmãos Brazão, foram presos apenas em março de 2024, seis anos depois. O sistema de inteligência brasileiro que deveria ter identificado os mandantes em 48 horas é o mesmo sistema que, poucos anos depois, foi convertido em arma contra os aliados políticos da vereadora assassinada. Isso não é ineficiência. É DESENHO. A máquina funciona precisamente do jeito que funciona. Ela vê o que o operador pede pra ver.
É aqui que o leitor liberal bem-intencionado aparece com a resposta pronta. Precisamos de regulamentação. Precisamos de transparência. Precisamos de accountability.
Essa resposta é o que retroalimenta a máquina. Porque a Palantir não é um excesso do Estado. A Palantir é o Estado sendo franco sobre o que sempre foi. David Graeber escreveu um livro inteiro, Utopia das Regras, para explicar que a burocracia estatal moderna sempre foi violência em espera, e que o único momento em que a violência pausa é quando as vítimas internalizam a regra e se disciplinam sozinhas. Palantir é o ponto em que a violência deixa de esperar. É cálculo em tempo real. É o Estado CONFESSANDO que toda a infraestrutura civil construída ao longo do século vinte (hospital, escola, cadastro, carteira de identidade, cartão de crédito, CPF, celular, smart TV) serve, em última instância, para alimentar a pedra-vidente. A infraestrutura não foi traída. Foi CONSUMADA.
Bakunin brigou com Marx em 1872 no Congresso da Haia exatamente sobre isso. A previsão de Bakunin era que o socialismo de Estado iria reproduzir o aparato repressivo do capitalismo pintado de vermelho, porque o problema era a arquitetura do Estado, não a identidade de quem ocupava o topo. A URSS passou setenta anos confirmando a previsão pelo lado soviético.
O manifesto da Palantir expõe mais uma vez que Bakunin estava também certo pelo lado capitalista. A oligarquia não precisa do aparato bolchevique para construir um panóptico. O Vale do Silício basta. A CIA basta. A fusão entre capital de risco e aparato de segurança é suficiente para produzir, sem ideologia revolucionária nenhuma, a mesma máquina que já assustava Bakunin em 1872. E essa máquina agora tem um manifesto publicado. Só não deveria existir surpresa nenhuma sobre o que se encontrou lá dentro.
Em 2666, Roberto Bolaño dedicou a parte mais longa do romance, A Parte dos Crimes, a transcrever mais de cem assassinatos de mulheres em Santa Teresa, cidade fictícia baseada em Ciudad Juárez. A prosa é monótona. Cada crime em duas, três páginas, em tom de laudo forense. O que Bolaño estava fazendo era forçar o leitor a experimentar a INVISIBILIDADE institucional da violência de Estado quando executada por procedimento. Cada feminicídio, isolado, é tragédia singular. Trezentos feminicídios transcritos em linguagem burocrática viram tabela. E a tabela, em algum ponto, é a confissão. A Palantir está escrevendo agora a parte dos crimes do século vinte e um. Não literariamente. Em banco de dados. Em dashboard. Em alerta de celular de um oficial do ICE às quatro da manhã em El Paso. O manifesto do Karp é o prefácio dessa parte, publicado antes dos crimes terminarem porque os criminosos agora confiam que a imprensa mainstream não vai ler o prefácio a sério. Vai comparar com Lex Luthor. Vai rir. E vai passar para a próxima notícia.
A palantír, no livro do Tolkien, tem um detalhe que passa despercebido. Quando Pippin olha pra pedra e vomita do susto, Gandalf, furioso, explica que a pedra não foi perdida por Sauron. Foi DEIXADA onde foi deixada. Sauron sabia que algum hobbit iria olhar. O projeto da pedra é, sempre foi, ser encontrada por alguém que não sabe o que está encontrando. O uso é o consentimento. O usuário é o infiltrado pela própria mão.
O manifesto da Palantir é esse momento em escala coletiva. A empresa publicou a pedra no Twitter. A imprensa olhou. A imprensa comparou com vilão de HQ. A imprensa voltou a olhar para o próximo ciclo de notícias. E em Washington, em Tel Aviv, em Brasília, em Buenos Aires, em cada gabinete de inteligência que tem orçamento para licenciar Gotham ou adquirir infraestrutura equivalente, a pedra está ligada. A pedra está olhando. O olho do outro lado, que é a cadeia bilionária entre Thiel, Karp, a CIA, o Mossad, o ICE, o Pentágono e o conjunto difuso de contratantes que se alimenta dessas conexões, está olhando de volta.
Pippin pelo menos vomitou. A imprensa que transcreveu o manifesto como se fosse piada. Riu, postou, cumpriu a quota de conteúdo do dia e foi almoçar.
É dessa diferença que o século em curso vai se lembrar.
Sicko
Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
Editor literário e resenhista. Especialista em ficção, graphic novels e cultura digital.
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