O diretor de Oldboy vai fazer o western que Hollywood deixou engavetado por 20 anos. McConaughey, Pascal e Butler confirmados.
Park Chan-wook vai dirigir The Brigands of Rattlecreek, western ultraviolento com McConaughey, Pedro Pascal e Austin Butler. O roteiro ficou parado em Hollywood por 20 anos.
Em 2006, um roteiro chamado The Brigands of Rattlecreek entrou na Black List - a lista anual que Hollywood usa para reconhecer os melhores scripts ainda não produzidos, espécie de prêmio de consolação para filmes que existem só no papel.
O script era de S. Craig Zahler, que naquele momento não tinha dirigido nada. Em 2015, ele estreou na direção com Rastro de Maldade (no original, Bone Tomahawk) - um western com Kurt Russell no qual a violência ultrapassa tudo que o gênero tinha colocado na tela em décadas, filmado com orçamento mínimo e que tornou Zahler um nome que cinéfilos passaram a acompanhar de perto. Era um roteiro diferente, mas provou o instinto dele para o gênero.
The Brigands ficou parado por vinte anos mesmo assim. Passou por Warner Bros. A Amazon adquiriu os direitos e em 2019 chegou a considerar Matthew McConaughey para o papel principal. O projeto não saiu do papel.
Nesta semana, no mercado paralelo do Festival de Cannes - onde distribuidoras e produtoras negociam projetos antes de qualquer câmera ser ligada -, The Brigands of Rattlecreek ressurgiu com um novo diretor: Park Chan-wook. Com McConaughey confirmado como Sheriff Bill Adams. Com Austin Butler como Henry Lee, o líder da gangue antagonista. Com Pedro Pascal e Tang Wei no elenco.
Vinte anos de gaveta e o que isso significa para o projeto
Um script ficar duas décadas sem ser produzido pode significar duas coisas: que ele é problemático demais para qualquer estúdio tocar, ou que ele ainda não encontrou a combinação certa de diretor, elenco e momento. The Brigands claramente pertence à segunda categoria.
Os materiais de divulgação do projeto descrevem The Brigands como “uma síntese de tudo que Park Chan-wook explorou na carreira até agora.” A escolha do verbo importa. Não é uma incursão nova. É convergência. O produtor é Bradley Fischer, que trabalhou com David Fincher em Zodiac.
A premissa é direta: um xerife e um médico buscam vingança contra uma gangue que aproveitou uma tempestade para roubar e aterrorizar uma cidade pequena. Os temas que emergem dessa estrutura - vingança como impulso, o custo real de agir sobre ela, o que violência faz com quem a pratica - são exatamente o DNA de Park Chan-wook desde o início da carreira.
Por que Park Chan-wook e não outro diretor
Oldboy (2003) é a versão mais extrema do que Park Chan-wook faz: um homem preso sem explicação por quinze anos, solto sem explicação, consumido pela necessidade de entender. A Criada (2016) inverte o ângulo: o predador virado presa pela lógica da própria exploração que criou. Decisão de Partir (2022), onde Tang Wei vive uma chinesa investigada pela morte do marido numa das atuações mais precisas da última década, é sobre desejo e culpa como formas de violência que não precisam de arma.
Um western de vingança nas mãos de Park Chan-wook não é uma escolha estranha. É a aplicação natural de uma obsessão ao gênero americano que mais sistematicamente tratou esse tema ao longo do século XX. A diferença é que Zahler, como roteirista, não faz contenção - Rastro de Maldade existe exatamente para ultrapassar qualquer limite de decoro que western anterior tinha respeitado. A combinação dos dois não vai ser um exercício de estilo. Vai ser algo mais difícil de assistir e mais difícil de esquecer.
O elenco e o que cada escolha sinaliza

McConaughey como xerife é o tipo de casting que parece óbvio depois que você ouve. Ele tem o peso certo para um personagem que vai ser forçado a agir diante de violência que não tem saída limpa - o tipo de situação que Park Chan-wook constrói com precisão cirúrgica.
Austin Butler chegou ao radar internacional por Elvis (2022) e consolidou a presença física como Feyd-Rautha em Duna: Parte Dois - um personagem definido por ameaça contida. O papel de líder da gangue antagonista pede exatamente esse registro.
Pedro Pascal está num momento de carreira em que o prestígio de The Last of Us - e da performance de Joel que ele construiu ali - funciona como garantia de que o projeto vai ser levado a sério. O papel dele em The Brigands ainda não foi detalhado publicamente.
Tang Wei voltando a trabalhar com Park é a informação mais reveladora do elenco. Ela não é uma contratação de prestígio genérico. É uma colaboração que já provou funcionar.
O segundo filme em inglês de Park Chan-wook
Segredos de Sangue (no original, Stoker, 2013) foi a primeira vez que Park dirigiu em inglês, com Mia Wasikowska e Nicole Kidman. Funcionou como filme; não teve o alcance de seus trabalhos coreanos no circuito de cinéfilos.

The Brigands seria a segunda tentativa, mas com uma diferença de escala e gênero. Segredos de Sangue era um thriller íntimo que cabia dentro da sensibilidade de Park - ele trouxe o estilo, o roteiro deu o espaço. Brigands é outra coisa: Zahler escreve western na tradição mais americana que existe, com toda a gramática de violência, honra e território que o gênero carrega há um século. Entrar nisso e fazer o que Park Chan-wook faz é uma aposta diferente da que ele tomou em 2013.
O orçamento estimado está acima de 60 milhões de dólares, posicionado como projeto independente para venda internacional. Park está presidindo o júri da competição principal em Cannes este ano, o que coloca o anúncio num contexto de visibilidade máxima.
Quem acompanha Park Chan-wook pelo Brasil tem um ponto de entrada recente: A Única Saída, o thriller que chegou às salas brasileiras em janeiro de 2026 e depois à MUBI em março, mostra o diretor num registro mais contido do que Oldboy mas com a mesma atenção milimétrica ao que violência faz com as pessoas que a praticam e com as que sobrevivem a ela. The Brigands vai ser diferente em tom - Zahler não escreve contenção. Mas a lógica é a mesma.
Não há data de estreia confirmada. O projeto está em fase de venda internacional. O que existe agora é o anúncio, o elenco e a evidência de que vinte anos de gaveta não estragaram o roteiro - só esperaram pela pessoa certa para dirigi-lo.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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