Primetime fez US$ 2,7 milhões nas pré-estreias de quinta. Chris Hansen comprou anúncio pra rodar antes de toda sessão mandando a plateia sentar
Primetime fez US$ 2,7 mi em pré-estreias e mira US$ 16 a 20 mi na abertura. Chris Hansen deu nota D ao Pattinson e vende assinatura antes de cada sessão.
As sessões de pré-estreia de quinta-feira renderam US$ 2,7 milhões para Primetime, o filme em que Robert Pattinson faz o apresentador Chris Hansen, e a projeção para o fim de semana de abertura nos Estados Unidos ficou entre US$ 16 e 20 milhões. Na mesma noite, Brad Pitt fez US$ 2 milhões com Coração Selvagem, um drama de sobrevivência que custou US$ 82 milhões. Primetime custou pouco menos de US$ 15 milhões.
Antes de cada uma dessas sessões, a plateia americana assistiu a um comercial do Chris Hansen de verdade. Ele comprou espaço publicitário em todas as exibições do filme para divulgar a TruBlu, o serviço de streaming dele, que custa US$ 4,99 por mês. No anúncio, Hansen olha para a câmera e manda o público sentar. A frase que ele repetiu no Dateline, diante de homens que entravam numa casa esperando encontrar uma criança, era “por que você não senta ali?”.
Um documentarista dirigindo ficção pela primeira vez
Primetime é a estreia de Lance Oppenheim na ficção. Antes dele vieram oito curtas, três longas documentais e uma série da HBO. Some Kind of Heaven (2020) estreou em Sundance e acompanha quatro moradores de The Villages, a maior comunidade de aposentados dos Estados Unidos, filmada na Flórida com cor saturada e enquadramento simétrico de comercial dos anos 1960. Mundo Esperma (2024) entra no circuito não regulamentado de doação de esperma pela internet. Ren Faire (2024), série em três partes da HBO, registra a crise de sucessão na Texas Renaissance Festival como se fosse Rei Lear com armadura de plástico.
A Associação Internacional de Documentaristas resumiu o procedimento dele como “colheita de artifício” ao escrever sobre Ren Faire: Oppenheim monta a luz, coreografa o movimento de câmera e deixa a pessoa real reencenar a própria vida diante da lente. Chamar esse sujeito para dirigir um longa sobre um programa de TV que encenava operação policial é a decisão mais coerente que a A24 tomou no projeto.
A casa em Terrell, Texas
O roteiro é de Ajon Singh, se passa em 2006 e acompanha a produção do To Catch a Predator em parceria com o Perverted-Justice, o grupo de voluntários que se passava por adolescentes em salas de bate-papo para atrair adultos até uma casa cheia de câmeras escondidas. O filme termina no caso que derrubou o programa.
Em 5 de novembro de 2006, a equipe do Dateline, com Hansen junto, chegou às 8h30 à casa de Louis William Conradt Jr., de 56 anos, promotor assistente-chefe de crimes graves do condado de Rockwall. Os policiais de Murphy e de Terrell chegaram horas depois. Conradt tinha conversado com um voluntário do Perverted-Justice que se passava por um garoto de 13 anos e nunca apareceu na casa da emissora. Ele não atendeu a porta, e a polícia chamou a SWAT, que entrou forçando a porta de vidro dos fundos. Quando os agentes o encontraram no fim de um corredor, Conradt atirou na própria cabeça. Morreu num hospital em Dallas.
Patricia Conradt, irmã dele, processou a NBC em US$ 105 milhões por morte culposa. O caso foi encerrado por acordo de valor não revelado em 24 de junho de 2008. A NBC cancelou o To Catch a Predator naquele mesmo ano.
Quem interpreta Conradt é Alex Winter, o Bill de Bill & Ted e o Marko de Os Garotos Perdidos, que hoje dirige documentário e tem Zappa, Deep Web e Showbiz Kids no currículo. Um documentarista fazendo o homem cuja morte derrubou o programa, num filme dirigido por outro documentarista. O elenco ainda traz Merritt Wever como a produtora de Hansen, Phoebe Bridgers como uma das iscas, Anna Faris como a mulher dele, e Jeff Zucker, que era executivo da NBC na época, fazendo Jeff Zucker.
O que Hansen disse depois de finalmente ver
Hansen se recusou a assinar o acordo de confidencialidade que a A24 exigia para exibir o filme antecipadamente, alegando que não entregaria “nome, imagem e marca”. Chamou o projeto de roubo de identidade sem ter visto um frame. Disse que os cineastas pegaram algo “muito positivo, muito desafiador e não sem risco” e transformaram no que é “essencialmente um filme de terror”, numa operação “exploradora e predatória”.
Depois que assistiu, baixou o tom. Deu D para a atuação de Pattinson. “É absolutamente um retrato ficcional de mim, dos meus colegas, da série e do trabalho duro e diligente que a gente faz hoje”, disse à TheWrap. “No fim das contas, não fiquei impressionado nem de um jeito nem de outro. É um filme, e eu vou continuar fazendo o trabalho que faço, e as pessoas podem assistir e tirar as próprias conclusões”. O que ele contestou com mais força foi a retratação dele como pai, que classificou como “um golpe baixo, sem valor de entretenimento, literário ou benefício para qualquer espectador ou para a sociedade”. Sobre não ter sido consultado, lembrou que Hollywood é “uma indústria comandada por um dos predadores mais prolíficos que já pisaram no planeta, Harvey Weinstein”, e sugeriu que o público questione os motivos do diretor.
Em agosto, quando só tinha visto o trailer, ele achou a imitação “dramática demais” e contou que a mulher e a família a consideravam “bem boa”.
Hansen também lançou pela TruBlu o trailer de I’m Chris Hansen, documentário sobre ele mesmo com três anos de produção e ainda sem data de estreia. Elizabeth Holmes resolveu o mesmo problema na direção contrária e deixou uma equipe de cinema morar com ela nos 34 dias antes de ir presa. O documentário que saiu dali, You Can See Everything, tem codireção de Nathan Fielder e do próprio Oppenheim, também sai pela A24 e chega aos cinemas americanos em 16 de outubro. Em três semanas o mesmo diretor entrega o retrato de quem não quis ser retratado e o de quem abriu a porta de casa.
US$ 20 milhões está longe do teto da A24
Primetime estreou na competição principal do Festival de Veneza em 5 de setembro e saiu sem prêmio, com o Leão de Ouro indo para Woman Unknown, de May el-Toukhy. O que sobrou de Veneza foi conversa de Oscar para Pattinson, e a crítica sustentou: 87% de aprovação no Rotten Tomatoes em 180 resenhas, média 7,4, mais 67 no Metacritic. A BBC chamou a atuação de “extraordinária”, a Little White Lies falou em ponto alto da carreira. O próprio Oppenheim contou que, na segunda semana de filmagem, avisou Pattinson de que ele estava fazendo Jerry Maguire e Drácula ao mesmo tempo, a definição mais precisa que alguém vai conseguir de um Pattinson interpretando apresentador de TV americano.
Abrir entre US$ 16 e 20 milhões é ótimo para um drama adulto de US$ 15 milhões e fica muito abaixo do que a A24 já mostrou que consegue: Backrooms abriu com US$ 81 milhões só nos Estados Unidos em maio e já passou de US$ 400 milhões no mundo, com quase quatro meses de cartaz. O estúdio somou US$ 237 milhões no verão americano, à frente de Paramount (US$ 192 milhões) e Warner (US$ 165 milhões). Neste fim de semana Primetime ainda divide as salas com a segunda semana de Resident Evil, projetada entre US$ 24 e 26 milhões, e com o relançamento de Vingadores: Ultimato, que fez US$ 3,8 milhões só nas pré-estreias.
Primetime não tem data no Brasil
Não há estreia marcada nem distribuidora anunciada por aqui. O AdoroCinema lista o filme como “em breve”, sem mês, e o título deve ficar como está, sem tradução. Na prática, o brasileiro que acompanha temporada de premiação vai passar os próximos meses lendo sobre uma atuação que disputa indicação com Matt Damon, John Malkovich, Ryan Gosling e John Turturro sem ter como assistir a ela.
O filme argumenta que Hansen pegou crime real e transformou em programação de horário nobre, com gancho, ritmo e intervalo comercial. Hansen respondeu comprando o intervalo comercial antes de cada sessão para vender assinatura de US$ 4,99. A tese do filme se provou sozinha na bilheteria de quinta-feira.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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