Radares com IA em São Paulo, que enxergam no interior do carro, aplicaram 2.316 multas em 31 dias, e 6 em cada 10 foram por cinto de segurança
Câmeras com infravermelho filmam o interior dos carros 24 horas por dia no km 17. A PM Rodoviária valida cada flagra antes da multa sair.
Um quilômetro de rodovia, 31 dias, 2.316 multas. Dá 75 autuações por dia, ou uma a cada 19 minutos, sem parar, incluindo madrugada.
Esse é o saldo do primeiro mês dos radares com inteligência artificial instalados entre os quilômetros 17 e 18 da Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo. As câmeras entraram em operação no dia 3 de agosto, e a concessionária Ecovias Raposo Castello fechou a conta em 3 de setembro.
A divisão entre os dois tipos de infração que o sistema detecta:
- Cinto de segurança: 1.386 autuações, 59,84% do total. Dessas, 779 foram de motoristas e 607 de passageiros. Infração grave, R$ 195,23 e cinco pontos na carteira.
- Celular ao volante: 930 autuações, 40,16%. A quebra divulgada é 579 manuseando o aparelho, 256 segurando e 94 usando, números que somam um a menos que o total informado. Infração gravíssima, R$ 293,47 e sete pontos.
Multiplicando as duas colunas, o trecho gerou algo em torno de R$ 543 mil em multas em um mês. A conta é minha, feita a partir dos valores e das quantidades divulgados, e serve para dar escala: um quilômetro de asfalto rendendo meio milhão de reais em autuações a cada trinta dias.
Câmera de alta resolução mais infravermelho, apontada para dentro do carro
O equipamento combina câmeras de alta resolução com sensores infravermelhos. O infravermelho é a parte que faz o sistema funcionar de madrugada: em vez de depender da luz visível, o sensor capta calor e reflexão em comprimentos de onda que o olho humano não enxerga, o que permite fotografar o interior de um carro em movimento sem precisar disparar um flash na cara de quem está dirigindo.
A câmera aponta para dentro do veículo. É essa a diferença em relação ao radar de velocidade tradicional, que só precisa medir quanto tempo o carro leva para cruzar dois pontos e ler a placa. Para saber se o cinto está atravessando o peito do motorista ou se a mão dele está no celular, o sistema precisa de uma imagem nítida do que acontece atrás do para-brisa, a 80 km/h, de dia e de noite.
O que a inteligência artificial faz nessa etapa é classificação de imagem. O modelo foi treinado com exemplos suficientes para separar “tem faixa diagonal no peito” de “não tem”, e “mão segurando objeto retangular perto do rosto” de “mão no volante”. Cada quadro analisado vira uma probabilidade, não uma certeza.
O algoritmo não multa ninguém
A inteligência artificial faz a triagem, e a Polícia Militar Rodoviária faz a autuação.
Os flagrantes detectados vão para uma central de monitoramento, onde um agente olha a imagem e decide. Imagens pouco conclusivas são descartadas, e o exemplo que as concessionárias dão é o de motoristas com roupa escura, em que o cinto some no contraste. Nesses casos, a multa não sai.
Vinícius Antonioli, gerente de operações da Ecovias Raposo Castello, resumiu a posição da empresa: “As câmeras de IA são grandes aliadas da segurança viária”. A concessionária SPMar, que opera o Rodoanel, afirma que a taxa de erro do sistema é baixa, sem divulgar o percentual.
Sistema de visão computacional erra de forma desigual dependendo de quem e do que está no quadro, e a literatura sobre o assunto é vasta: a pesquisadora Joy Buolamwini documentou algoritmos comerciais que falhavam em detectar rostos dependendo do tom de pele, num trabalho que virou referência na área. Nenhuma fonte aponta viés no sistema paulista, e a validação humana existe justamente para filtrar o que o modelo erra. Só que sem o percentual de erro publicado, não há como o motorista saber quantas vezes a triagem apontou errado antes de um agente corrigir.
O que as câmeras não conseguem ver
A lista de limitações do sistema está declarada. As câmeras não detectam veículo parado na pista, pedestre na rodovia, objeto sobre o asfalto nem transporte inadequado de criança.
São quatro situações que matam gente em rodovia. O sistema vendido como aliado da segurança viária identifica com precisão as duas infrações que cabem numa foto do interior do carro e ignora as que exigem entender a cena inteira. Fiscalizar cinto e celular tem valor, e os dois estão entre os comportamentos que mais agravam acidente. O recorte, porém, foi desenhado pelo que a tecnologia consegue classificar, e não pelo que causa mais mortes.
No Rodoanel, o ritmo é o dobro
Os trechos Sul e Leste do Rodoanel Mário Covas também operam com o sistema, desde 1º de julho de 2026, e o período de testes, de 49 dias, flagrou mais de 7.200 motoristas cometendo infração.
Colocando os dois no mesmo denominador: a Raposo registra cerca de 75 flagras por dia, e o Rodoanel fica perto de 147. Aproximadamente o dobro, o que faz sentido considerando o volume de tráfego e a extensão coberta.
A Ecovias já confirmou expansão para a Rodovia Castelo Branco, no trecho urbano de acesso à capital, sem data definida. A Artesp, agência que regula o transporte no estado, prevê ainda instalar reconhecimento facial no Rodoanel para combater roubo de veículos e cargas, com obras previstas para janeiro de 2027. Essa segunda etapa muda a natureza do sistema: uma coisa é classificar se há uma faixa no peito de alguém, outra é identificar quem é a pessoa.
Na prática, para quem roda por lá
O trecho fiscalizado da Raposo Tavares é curto e conhecido, entre os quilômetros 17 e 18. Quem passa ali de manhã e de noite já entrou na estatística ou vai entrar.
Três coisas valem saber. A primeira é que a fiscalização roda 24 horas, então a madrugada deixou de ser zona cega. A segunda é que o passageiro sem cinto também gera autuação, e 607 das 1.386 multas de cinto no primeiro mês foram exatamente disso, com a conta caindo no nome do motorista.
A terceira é a matemática dos pontos, que mudou no começo de 2026 com a Resolução 1.020 do Contran. O teto para abrir processo de suspensão agora depende de quantas gravíssimas você tem em doze meses: 40 pontos sem nenhuma, 30 pontos com uma, 20 pontos com duas ou mais.
Celular é gravíssima. Um flagra derruba seu teto de 40 para 30. O segundo derruba para 20 e já coloca 14 pontos na conta, deixando seis de folga, menos do que uma única multa de cinto custa. Quem dirige com EAR na carteira, o que inclui motorista de aplicativo, mantém o teto de 40 independentemente de quantas gravíssimas acumular.
Bruno Silva
Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
Especialista em hardware, benchmarks e overclock. Analisa componentes e tendências do mercado.
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