Radares com IA em São Paulo, que enxergam no interior do carro, aplicaram 2.316 multas em 31 dias, e 6 em cada 10 foram por cinto de segurança

Câmeras com infravermelho filmam o interior dos carros 24 horas por dia no km 17. A PM Rodoviária valida cada flagra antes da multa sair.

Bruno Silva
Bruno Silva Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
15 de setembro de 2026 6 min
Imagem do sistema de fiscalização mostrando uma rodovia com retângulo verde de detecção desenhado em volta de um carro preto, com caminhão na faixa ao lado
!!

Um quilômetro de rodovia, 31 dias, 2.316 multas. Dá 75 autuações por dia, ou uma a cada 19 minutos, sem parar, incluindo madrugada.

Esse é o saldo do primeiro mês dos radares com inteligência artificial instalados entre os quilômetros 17 e 18 da Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo. As câmeras entraram em operação no dia 3 de agosto, e a concessionária Ecovias Raposo Castello fechou a conta em 3 de setembro.

A divisão entre os dois tipos de infração que o sistema detecta:

  • Cinto de segurança: 1.386 autuações, 59,84% do total. Dessas, 779 foram de motoristas e 607 de passageiros. Infração grave, R$ 195,23 e cinco pontos na carteira.
  • Celular ao volante: 930 autuações, 40,16%. A quebra divulgada é 579 manuseando o aparelho, 256 segurando e 94 usando, números que somam um a menos que o total informado. Infração gravíssima, R$ 293,47 e sete pontos.

Multiplicando as duas colunas, o trecho gerou algo em torno de R$ 543 mil em multas em um mês. A conta é minha, feita a partir dos valores e das quantidades divulgados, e serve para dar escala: um quilômetro de asfalto rendendo meio milhão de reais em autuações a cada trinta dias.

Câmera de alta resolução mais infravermelho, apontada para dentro do carro

O equipamento combina câmeras de alta resolução com sensores infravermelhos. O infravermelho é a parte que faz o sistema funcionar de madrugada: em vez de depender da luz visível, o sensor capta calor e reflexão em comprimentos de onda que o olho humano não enxerga, o que permite fotografar o interior de um carro em movimento sem precisar disparar um flash na cara de quem está dirigindo.

A câmera aponta para dentro do veículo. É essa a diferença em relação ao radar de velocidade tradicional, que só precisa medir quanto tempo o carro leva para cruzar dois pontos e ler a placa. Para saber se o cinto está atravessando o peito do motorista ou se a mão dele está no celular, o sistema precisa de uma imagem nítida do que acontece atrás do para-brisa, a 80 km/h, de dia e de noite.

O que a inteligência artificial faz nessa etapa é classificação de imagem. O modelo foi treinado com exemplos suficientes para separar “tem faixa diagonal no peito” de “não tem”, e “mão segurando objeto retangular perto do rosto” de “mão no volante”. Cada quadro analisado vira uma probabilidade, não uma certeza.

O algoritmo não multa ninguém

A inteligência artificial faz a triagem, e a Polícia Militar Rodoviária faz a autuação.

Os flagrantes detectados vão para uma central de monitoramento, onde um agente olha a imagem e decide. Imagens pouco conclusivas são descartadas, e o exemplo que as concessionárias dão é o de motoristas com roupa escura, em que o cinto some no contraste. Nesses casos, a multa não sai.

Vinícius Antonioli, gerente de operações da Ecovias Raposo Castello, resumiu a posição da empresa: “As câmeras de IA são grandes aliadas da segurança viária”. A concessionária SPMar, que opera o Rodoanel, afirma que a taxa de erro do sistema é baixa, sem divulgar o percentual.

Sistema de visão computacional erra de forma desigual dependendo de quem e do que está no quadro, e a literatura sobre o assunto é vasta: a pesquisadora Joy Buolamwini documentou algoritmos comerciais que falhavam em detectar rostos dependendo do tom de pele, num trabalho que virou referência na área. Nenhuma fonte aponta viés no sistema paulista, e a validação humana existe justamente para filtrar o que o modelo erra. Só que sem o percentual de erro publicado, não há como o motorista saber quantas vezes a triagem apontou errado antes de um agente corrigir.

O que as câmeras não conseguem ver

A lista de limitações do sistema está declarada. As câmeras não detectam veículo parado na pista, pedestre na rodovia, objeto sobre o asfalto nem transporte inadequado de criança.

São quatro situações que matam gente em rodovia. O sistema vendido como aliado da segurança viária identifica com precisão as duas infrações que cabem numa foto do interior do carro e ignora as que exigem entender a cena inteira. Fiscalizar cinto e celular tem valor, e os dois estão entre os comportamentos que mais agravam acidente. O recorte, porém, foi desenhado pelo que a tecnologia consegue classificar, e não pelo que causa mais mortes.

No Rodoanel, o ritmo é o dobro

Os trechos Sul e Leste do Rodoanel Mário Covas também operam com o sistema, desde 1º de julho de 2026, e o período de testes, de 49 dias, flagrou mais de 7.200 motoristas cometendo infração.

Colocando os dois no mesmo denominador: a Raposo registra cerca de 75 flagras por dia, e o Rodoanel fica perto de 147. Aproximadamente o dobro, o que faz sentido considerando o volume de tráfego e a extensão coberta.

A Ecovias já confirmou expansão para a Rodovia Castelo Branco, no trecho urbano de acesso à capital, sem data definida. A Artesp, agência que regula o transporte no estado, prevê ainda instalar reconhecimento facial no Rodoanel para combater roubo de veículos e cargas, com obras previstas para janeiro de 2027. Essa segunda etapa muda a natureza do sistema: uma coisa é classificar se há uma faixa no peito de alguém, outra é identificar quem é a pessoa.

Na prática, para quem roda por lá

O trecho fiscalizado da Raposo Tavares é curto e conhecido, entre os quilômetros 17 e 18. Quem passa ali de manhã e de noite já entrou na estatística ou vai entrar.

Três coisas valem saber. A primeira é que a fiscalização roda 24 horas, então a madrugada deixou de ser zona cega. A segunda é que o passageiro sem cinto também gera autuação, e 607 das 1.386 multas de cinto no primeiro mês foram exatamente disso, com a conta caindo no nome do motorista.

A terceira é a matemática dos pontos, que mudou no começo de 2026 com a Resolução 1.020 do Contran. O teto para abrir processo de suspensão agora depende de quantas gravíssimas você tem em doze meses: 40 pontos sem nenhuma, 30 pontos com uma, 20 pontos com duas ou mais.

Celular é gravíssima. Um flagra derruba seu teto de 40 para 30. O segundo derruba para 20 e já coloca 14 pontos na conta, deixando seis de folga, menos do que uma única multa de cinto custa. Quem dirige com EAR na carteira, o que inclui motorista de aplicativo, mantém o teto de 40 independentemente de quantas gravíssimas acumular.

Bruno Silva
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Bruno Silva

Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas

Especialista em hardware, benchmarks e overclock. Analisa componentes e tendências do mercado.

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