Sony quer tirar mais dinheiro de quem já tem PS5 - e a culpa é da inteligência artificial

CFO da Sony disse na cara dura que vai "monetizar a base instalada" do PS5. São 92 milhões de consoles. Tradução: prepare o bolso.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
18 de fevereiro de 2026 6 min
Console PlayStation 5 branco em destaque sobre fundo escuro
!!

A Sony Interactive Entertainment decidiu que a melhor forma de lidar com a crise global de memória RAM é enfiar a mão no bolso de quem já comprou PS5. A CFO Lin Tao disse, numa conferência de resultados em fevereiro de 2026, que a empresa pretende “minimizar o impacto dos custos de memória priorizando a monetização da base instalada”. A frase exata. Em inglês corporativo. Sem pestanejar.

Quando uma executiva de uma empresa de US$100 bilhões usa a palavra “monetizar” falando de 92 milhões de pessoas que já pagaram pelo console, o mínimo que a gente pode fazer é prestar atenção no que vem depois.

O que tá acontecendo com a RAM

O preço da memória DRAM explodiu. A causa? Inteligência artificial. Data centers de empresas como Nvidia, Google e Microsoft estão engolindo cerca de 40% da produção global de DRAM pra treinar e rodar modelos de IA. Isso deixou menos memória disponível pra todo o resto - consoles, PCs, celulares, tudo.

Pra ter uma ideia do estrago: um kit de 64GB de DDR5 (G.Skill Trident Z5 Neo RGB DDR5-6000) tá custando US$600 nos EUA. Seiscentos dólares. Um kit de memória RAM custa mais que um PS5 inteiro. Lê de novo porque isso não faz sentido, mas é real.

A projeção é que piore ao longo de 2026. Samsung, SK Hynix e Micron - as três maiores fabricantes de DRAM do planeta - estão priorizando produção de HBM (High Bandwidth Memory) pra chips de IA, que pagam margens muito maiores. A Samsung tá cobrando US$700 por chip HBM. Memória DDR convencional virou produto de segunda classe na fila de produção.

A gente já cobriu como o boom de IA está virando a indústria de hardware de cabeça pra baixo, mas agora o impacto chegou na sala de quem joga videogame.

Módulos de memória RAM iluminados em azul - o componente que está no centro da crise de preços

Os números do PS5

O PS5 vendeu 92,2 milhões de unidades até dezembro de 2025. Ultrapassou o PS3 (87,4 milhões) e agora mira o PS4 (117,2 milhões). São números gigantescos.

Só que a curva de vendas tá desacelerando. No terceiro trimestre do ano fiscal de 2025, a Sony vendeu 8 milhões de unidades - 1,5 milhão a menos que no mesmo período do ano anterior. O console tá entrando na fase de maturidade. Menos gente comprando hardware novo significa menos receita por essa via.

A boa notícia pra Sony: as vendas de software subiram. Foram 97,2 milhões de jogos vendidos no trimestre, 1,3 milhão a mais que o ano anterior. E 13,2 milhões foram de first-party, puxados por Ghost of Yotei. Os jogos mais baixados de 2025 já mostraram que o ecossistema continua ativo.

O problema é que software sozinho não cobre o rombo que a crise de DRAM tá abrindo nos custos de produção.

O que “monetizar a base instalada” significa na prática

Vamos traduzir do corporativês pro português:

  • PS Plus mais caro. O caminho mais óbvio. A Sony já aumentou os preços em 2025 e os valores atuais no Brasil são R$592,90/ano no plano Extra e R$691,90/ano no Deluxe. Se você acha que esses números vão ficar parados, tenho más notícias. A meta da Sony é chegar a 1,5 trilhão de ienes em receita de serviços de rede até o final do ano fiscal de 2026. Isso é mais ou menos US$10 bilhões. Pra bater essa meta, ou a base de assinantes cresce muito, ou o preço sobe. Aposta em qual?

  • Microtransações e DLC. Mais conteúdo pago dentro dos jogos, mais season passes, mais battle passes. A Sony tá investindo pesado em live service - e live service vive de gasto recorrente.

  • Menos descontos. Promoções na PlayStation Store podem ficar mais raras ou menos generosas. Cada real que a Sony deixa de cobrar num desconto é um real que não compensa o custo da RAM.

  • Acessórios com margem alta. DualSense, headsets, capas de console. Esses produtos têm margem de lucro muito maior que o próprio console.

O preço no Brasil já dói

Vamos fazer a conta que a Sony não quer que a gente faça.

Um PS5 Slim no Brasil custa a partir de R$3.899 no varejo. Joga aí um jogo de lançamento por R$349,90. Soma um ano de PS Plus Extra por R$592,90. Você tá em R$4.141,80 antes de comprar o segundo jogo.

Pra comparar: a Steam Machine vazou com preço a partir de US$700 - caro, sim, mas roda na Steam, onde os descontos são absurdos e você não paga assinatura pra jogar online. O Switch 2 chega em junho por US$449,99 (provavelmente R$3.499 a R$3.999 no Brasil com nossos impostos). A competição tá apertando, e a Sony quer cobrar mais?

O histórico não ajuda. Em setembro de 2025, a Sony já tinha aumentado o preço do PS5 e do PS5 Pro no Brasil. O PS Plus subiu em abril de 2025 pra assinantes novos e em junho pra todo mundo. Dois aumentos em menos de um ano. E agora a CFO fala em “monetizar” mais.

PS6 pode demorar - e isso piora tudo

Tem outro detalhe que pouca gente tá conectando. Reportagens indicam que o PlayStation 6 pode ser adiado pra 2028 ou 2029, justamente por causa da instabilidade no mercado de semicondutores. Se isso for verdade, a Sony precisa do PS5 gerando receita por mais dois ou três anos além do ciclo normal.

Isso muda a equação. Não é só “vamos monetizar um pouco mais”. É “vamos monetizar MUITO mais, porque não tem PS6 pra gerar hype e vendas novas tão cedo”. O PS5 precisa carregar a empresa nas costas por um período mais longo que o planejado.

E enquanto isso, a Sony continua investindo pesado em conteúdo. O remake da trilogia God of War acabou de ser anunciado, tem uma série de God of War no Prime Video, Ghost of Yotei vendeu bem. A máquina de conteúdo tá girando. Alguém precisa pagar essa conta, e a resposta da Sony é clara: você.

O que isso significa pra quem joga no Brasil

Se você tá pensando em comprar um PS5 agora, o console em si provavelmente não vai ficar mais caro em 2026 - a Sony garantiu isso. Mas tudo ao redor dele vai. PS Plus, jogos, acessórios. A conta total de ser um jogador PlayStation vai subir.

Se você já tem PS5, prepare-se pra ver mais conteúdo sendo empurrado como DLC pago, menos ofertas generosas na PS Store, e pelo menos mais um reajuste no PS Plus nos próximos 12 meses.

A ironia é grossa. A inteligência artificial - tecnologia que a Sony não usa diretamente nos consoles - tá comendo a produção de memória que os consoles precisam. E quem paga a conta é o jogador que só queria sentar no sofá e jogar.

A CFO falou “monetizar a base instalada”. Traduzindo pra quem não fala corporativês: “a gente já vendeu o console, agora a gente precisa do resto do seu dinheiro”. Pelo menos foi honesta.

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