A Activision entregou notificação judicial na porta do vendedor de cheat EloCarry e filmou tudo. Os hacks de Call of Duty sumiram do site; os de Rust e Apex continuam lá
O vídeo saiu no perfil oficial de Call of Duty no primeiro dia do beta aberto de Modern Warfare 4. A Activision diz ter derrubado mais de 30 vendedores.
Nove e cinquenta da manhã do dia 22 de agosto, uma rua residencial em Ohio. Um carro encosta, um homem desce com uma pasta na mão e toca a campainha da casa de um dos vendedores de cheats de Call of Duty mais conhecidos do circuito. Quem atende aparece no vídeo com o rosto borrado.
O visitante explica que os papéis vieram dos “advogados da Activision” e resume o assunto numa frase só: “É uma ordem de cessar e desistir para você”. Entrega, se despede, volta pro carro. O clipe inteiro tem cerca de um minuto.
Seis dias depois, no dia 28, o vídeo apareceu no perfil oficial de Call of Duty no X. A legenda: “O RICOCHET Anti-Cheat não termina quando a sua partida termina. Criadores de cheat operam no mundo inteiro. Nós também. Estamos levando a briga direto para os vendedores de cheat. No fim de semana passado, durante o beta fechado, fomos até Ohio derrubar o Elocarry. E esse não é um caso isolado”. A Activision confirmou que o material é trecho de uma gravação real.
O endereço era ligado ao EloCarry, loja que vendia assinatura de trapaça pra Black Ops 7 e Warzone: aimbot, que mira sozinho na cabeça do inimigo; ESP, que desenha a silhueta dos adversários através das paredes; e triggerbot, que puxa o gatilho no instante em que a mira cruza alguém. Pacote de três meses saindo por até £79,99, o mesmo número que a Rockstar cobra por GTA 6, só que em libras.
Depois da visita, os cheats de Call of Duty e Warzone sumiram do catálogo. Os de Rust, Apex Legends e Marvel Rivals continuam lá, vendendo normalmente. No Discord da loja, o recado foi que o criador estava “revisando um assunto internamente”. Deu pra sentir o clima.
A notificação saiu no beta fechado e o vídeo no primeiro dia do beta aberto
A entrega aconteceu no dia 22, no meio do fim de semana de beta fechado de Modern Warfare 4. O vídeo foi ao ar no dia 28, exatamente quando o beta aberto abriu pra todo mundo, incluindo Switch 2, sem precisar de código.
Ou seja: a Activision guardou o material por seis dias e soltou no momento em que o maior número possível de gente estava entrando numa lobby. A TweakTown chamou de killcam da vida real e o apelido pegou.
Os números que a empresa colocou junto do vídeo: mais de 375 operações de revenda de cheat interrompidas, mais de 80 notificações extrajudiciais entregues e mais de 30 vendedores derrubados. A frase que fecha o comunicado avisa o próximo passo: a Activision está disposta a levar desenvolvedores e vendedores de cheat pro tribunal.
US$ 14,4 milhões contra a EngineOwning, e o site continua vendendo
Em 2024, a Activision ganhou o processo contra a EngineOwning, provavelmente a maior fábrica de cheat do mundo pra jogos de tiro. O juiz distrital Michael Fitzgerald condenou os réus a pagar US$ 14.465.600 em danos, mais US$ 292.912 em honorários advocatícios, e mandou transferir o domínio pra Activision. Foi revelia: nenhum réu apareceu pra se defender desde julho de 2023.
Aí vem a parte engraçada. A EngineOwning anunciou que continuaria vendendo, e continuou. O site opera de fora dos Estados Unidos, segue no ar, e até hoje não há confirmação de que a Activision viu um centavo daquele dinheiro.
É a diferença entre uma vitória judicial e uma vitória prática. O EloCarry parou porque tinha um endereço em Ohio onde alguém podia bater. A EngineOwning não parou porque não tem.
A prateleira de cheat em português aceita PIX e não tem endereço em Ohio
Procure por hack de Warzone em português e você acha loja com site traduzido, suporte por Discord e pagamento em PIX. É vitrine com botão de compra, indexada no Google. E nenhuma delas vai receber a visita de um representante da Activision às nove e cinquenta de uma manhã qualquer.
A jurisdição é o limite inteiro dessa estratégia. Um cease and desist funciona quando existe um tribunal americano com poder sobre a pessoa que abriu a porta. Contra um vendedor em São Paulo, em Bucareste ou em Moscou, o papel vira anexo de e-mail. É o mesmo vácuo que permitiu ao Cyberleek sacar mais de US$ 250 mil da própria criptomoeda e sumir do mapa enquanto a Rockstar assistia.
A reação da comunidade foi majoritariamente positiva, com uma ressalva que se repete em todo thread: ver o cara receber os papéis é ótimo, mas o termômetro é a ranqueada. Se a lobby continuar com gente atravessando parede, o vídeo vira só um clipe bom.
Sobre esse ponto a Activision fala por conta própria, sem número aberto. Segundo a empresa, o beta rodou com taxa de infecção menor que a das versões anteriores, com banimento de hardware mais difícil de driblar e com tempo de resposta mais rápido entre a detecção e a punição.
Banimento de hardware quer dizer bloquear o computador, e não a conta: o jogo grava a impressão digital das peças da máquina, então criar conta nova não resolve. É a punição que os vendedores de cheat mais tentam contornar, porque ela quebra o modelo de negócio deles. Sem conta descartável, o cliente não volta a comprar.
O que muda no seu PC quando MW4 chegar em 23 de outubro
Tem um detalhe prático que pegou muita gente de surpresa já no beta. O RICOCHET agora exige TPM 2.0 e Secure Boot ligados pra jogar online no PC.
Em português claro: o TPM é um chipzinho de segurança da placa-mãe, e o Secure Boot é um cadeado que impede o Windows de iniciar com um sistema modificado. Juntos, eles servem pra provar que o seu Windows subiu por um caminho confiável, sem driver alterado no meio. Driver alterado carregado antes do jogo é justamente onde vive a maior parte do cheat moderno.
Quem está no Windows 11 já tem o TPM ativo por obrigação da instalação, e normalmente só precisa habilitar o Secure Boot. Quem está no Windows 10 (só a versão 22H2 pra cima roda MW4) vai ter que entrar na BIOS e ligar os dois na mão. Se a sua placa-mãe é antiga demais pra ter TPM 2.0, aquele PC não entra online no jogo, e não existe caminho oficial pra contornar.
Modern Warfare 4 chega em 23 de outubro. Até lá, a Activision tem mais uns dois meses de vídeo institucional pra postar. Em novembro a gente confere na lobby se funcionou.
Carla Mendes
Cobrindo esports desde 2018
Cobrindo cenário competitivo de esports desde 2018. Acompanha torneios e equipes profissionais.
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