Cyberleek sacou pelo menos US$ 250 mil da própria criptomoeda no dia do trailer de GTA 6, e o token caiu 86%
O grupo que vazou 15 vídeos de GTA 6 dizia que a memecoin financiaria um ataque à indústria. O dinheiro saiu pela KuCoin horas antes do trailer na Netflix.
Na madrugada desta quinta-feira (27), horas antes de a Rockstar liberar 27 minutos de gameplay de GTA 6 na Netflix, as carteiras ligadas à criptomoeda do Cyberleek começaram a esvaziar. O grupo que passou nove dias vazando vídeos do jogo mais esperado da década tirou pelo menos US$ 250 mil do próprio token. O $CYBERLEEK caiu 86% em poucas horas. O que valia US$ 23 milhões virou US$ 3,2 milhões.
O valor exato do saque depende de quem fez a conta. A Kotaku falou em US$ 250 mil. A Dexerto rastreou mais de US$ 265 mil espalhados por várias transações. Pesquisadores de blockchain citados pela imprensa cripto chegaram a US$ 270 mil. A diferença vem de dinheiro que ainda está parado em carteiras que não se mexeram. A saída passou pela KuCoin, uma corretora grande de criptomoedas, e pela CCE.Cash, um serviço de troca que não pede cadastro.
Como o $CYBERLEEK rendia sem que ninguém vendesse um token sequer
Memecoin é uma moeda digital criada em minutos, sem produto nem empresa por trás, que vale exatamente o que a próxima pessoa aceitar pagar. O $CYBERLEEK nasceu em 15 de agosto na Solana, uma rede onde lançar um token custa alguns centavos e leva menos tempo do que baixar uma atualização de jogo.
No golpe padrão que o pessoal de cripto chama de rugpull, quem cria a moeda guarda uma montanha de tokens para si, espera o preço subir na onda do hype e vende tudo de uma vez. O preço vira pó e quem comprou fica com a conta.
O Cyberleek fez o oposto disso. Queimou 270 milhões de tokens da própria reserva. Queimar é mandar as moedas para uma carteira sem chave, de onde ninguém tira mais nada, e a comunidade cripto leu o gesto como prova de boa-fé: se o criador destruiu o próprio estoque, ele não tem como despejar no mercado depois.
A renda vinha das taxas. Cada compra e cada venda do token deixava uma fatia para quem criou a moeda. Enquanto os vazamentos mantivessem o volume de negociação lá em cima, a torneira ficava aberta sem precisar vender nada. O grupo passou a semana pedindo exatamente isso.
Em 18 de agosto, o dia em que os vídeos estouraram na timeline, o token subiu 5.600% em cerca de oito horas e movimentou US$ 11,8 milhões sozinho. O volume total passou de US$ 20,9 milhões. O pico foi US$ 0,034 por unidade, com o projeto inteiro avaliado em US$ 23,39 milhões. Depois do saque, o token negociava abaixo de US$ 0,005.
O manifesto pediu dez pessoas na frente da Rockstar North. Apareceu uma
Quem acompanhou a campanha desde o começo lembra que ela chegou embrulhada em ativismo. O Edito CYBERLEEK trazia três exigências para a indústria inteira: fim da pré-venda digital, proibição de DLC que tranca conteúdo já pronto no lançamento, e modo offline obrigatório antes de qualquer servidor ser desligado. O manifesto citava The Crew, da Ubisoft, como o exemplo do jogo que os donos apagaram. O dinheiro da moeda, segundo o grupo, financiaria um “projeto secreto” de infraestrutura para atacar publishers que descumprissem a lista e para se proteger de retaliação corporativa.
Os vídeos vinham com marca d’água, e o texto da marca d’água foi ficando cada vez mais direto sobre o que o grupo queria. O último dizia: “Volume e preço de negociação são como o CL mede o apoio de vocês. O CL não vai continuar sem apoio”.
Em algum momento da campanha, o Cyberleek convocou dez pessoas para protestar na frente da Rockstar North, o estúdio de Edimburgo onde GTA 6 é feito. Apareceu uma.
O Stop Killing Games, a campanha com 1,4 milhão de assinaturas que luta exatamente pela preservação de jogos que o manifesto dizia defender, se afastou publicamente do grupo ainda na primeira semana. “Usar meios ilegais para defender um ponto de vista é inaceitável para nós”, escreveram, pedindo que ninguém mandasse dinheiro.
No Brasil o assunto pulou de caderno e virou pauta de cripto
Por aqui a história saiu da editoria de games e caiu na de finanças em questão de horas. Sites brasileiros de criptomoeda cobriram a alta de 5.600% como notícia de mercado, com gráfico e tudo, enquanto o TecMundo acompanhava o site do grupo sair do ar por mais de 16 horas em meio a pedidos de remoção no X e no YouTube.
A ironia fica óbvia quando se coloca a exigência número um do manifesto ao lado do que o grupo montou. Nenhum jogador deveria pagar por um jogo antes do lançamento e de análises independentes, dizia o texto. Enquanto isso, o próprio Cyberleek recolhia taxa de gente comprando um token sem produto, sem empresa e sem análise nenhuma, com direito a enquete paga para escolher qual seria o próximo vazamento.
A pré-venda que o manifesto queria proibir sai por R$ 449,90 na edição padrão e R$ 549,90 na Ultimate no Brasil. Quem entrou no $CYBERLEEK perto do topo para votar na próxima gameplay pode ter queimado o preço de uma cópia inteira em um token que existiu por nove dias. E o jogo já vinha servindo de isca para uma onda de golpes de pré-venda mapeada pela Kaspersky meses antes de sair. Agora entra na mesma conta um golpe que se vendia como defesa do consumidor.
A trilha do dinheiro ficou registrada na Solana
Rockstar e Take-Two não confirmaram nenhuma operação contra o grupo, mas passaram a semana derrubando os vídeos das plataformas e deixaram claro que estão determinadas a achar os responsáveis. Foram 15 clipes ao todo, encerrados com uma cutscene do prólogo, publicada bem em cima da revelação oficial na Netflix.
Elas já acharam alguém antes. Arion Kurtaj, do grupo Lapsus$, vazou vídeos de GTA 6 em setembro de 2022 e foi pego em flagrante com um Amazon Fire Stick plugado na TV de um quarto de hotel, ainda hackeando enquanto respondia ao processo. Recebeu internação por tempo indeterminado em 2023 e hoje aguarda novo julgamento.
Kurtaj fez tudo de um hotel com um Fire Stick. O Cyberleek vazou o jogo, lançou uma moeda, cobrou taxa em cada negociação e sacou o dinheiro por uma corretora de porte internacional. Toda transação na Solana é pública e fica registrada para sempre. A mesma transparência que serviu para provar a queima dos 270 milhões de tokens agora é um mapa com hora marcada em cima de cada carteira.
Carla Mendes
Cobrindo esports desde 2018
Cobrindo cenário competitivo de esports desde 2018. Acompanha torneios e equipes profissionais.
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