O grupo que vazou GTA 6 exige o fim da pré-venda digital. Os demitidos da Rockstar pedem que ninguém boicote o jogo
O Cyberleek vazou GTA 6 exigindo o fim da pré-venda digital. No dia seguinte, os 31 demitidos da Rockstar pediram que ninguém boicote o jogo.
O vazamento de GTA 6 que dominou a timeline na terça-feira veio com um manifesto anexado. Junto das cenas de perseguição policial, do basquete e do mapa completo, o grupo que assina como Cyberleek soltou uma lista de exigências endereçada à indústria inteira. A primeira delas: “Nenhum consumidor deve pagar por um jogo em loja digital antes do lançamento e de análises independentes.”
Vinte e quatro horas depois, outro grupo se pronunciou sobre o mesmo jogo. Os desenvolvedores demitidos da Rockstar, os mesmos que estão processando a empresa por perseguição sindical, publicaram um vídeo pelo sindicato com um pedido que pegou a comunidade de surpresa.
“Não boicotem GTA 6. Conquistem justiça para as pessoas que ajudaram a fazer o jogo.”
Os dois lados dizem estar do lado do jogador. Um quer que você não compre. O outro quer que você compre.
As três exigências do Cyberleek esbarram numa caixa vazia
O Cyberleek publicou o vazamento em 18 de agosto com QR codes espalhados pelo vídeo, links para o próprio site e a divulgação de um memecoin na rede Solana. A justificativa do grupo é que a moeda financiaria um “projeto secreto” para atacar publishers que descumprissem as exigências da lista.
São três exigências. A pré-venda digital tem que acabar. O “DLC falso de single-player”, conteúdo já pronto no lançamento e trancado atrás de pagamento extra, tem que ser proibido. E todo jogo single-player precisa de um modo offline de contingência, para não virar lixo no dia em que o servidor for desligado.
O raciocínio sobre a pré-venda é o mais afiado dos três. “Pré-vendas não foram criadas para os gamers. Foram criadas porque discos físicos tinham limite de fabricação”, escreveu o grupo. Cópia digital não esgota. Sem risco de ficar sem, o incentivo de pagar antes evapora e sobra o adiantamento.
Daí vem a proposta do manifesto: “Se as publishers querem receita antes do lançamento, que prensem discos. Imprimam caixas. Coloquem nas prateleiras.”
A edição física de GTA 6 chega à prateleira brasileira por R$ 449,90 na versão padrão e R$ 549,90 na Ultimate, e a caixa vem sem disco nenhum dentro, só um código impresso para resgatar na PSN ou na loja da Microsoft. O grupo exigiu prateleira e caixa. A Rockstar entrega prateleira e caixa. Dentro, o mesmo download.
31 demitidos, um tribunal em setembro e uma camiseta
Do outro lado da briga tem gente com nome, processo e data marcada no calendário.
Em outubro de 2025, a Rockstar demitiu 31 funcionários dos escritórios britânicos alegando “má conduta grave”. Segundo a empresa, eles teriam compartilhado informação confidencial em fóruns públicos. Todos eram filiados ao Independent Workers’ Union of Great Britain, o IWGB, e estavam organizando um sindicato interno na Rockstar. O sindicato classificou o episódio como “um dos atos mais descarados e implacáveis de perseguição sindical na história da indústria de games” e entrou com ação em novembro.
Em setembro o caso vai a julgamento final. Um juiz decide se aquelas demissões foram ilegais.
É por isso que o vídeo saiu agora. Com o lançamento marcado para 19 de novembro e o hype no pico, boicotar GTA 6 virou ideia popular entre quem acompanha o processo. Os demitidos vieram desligar essa ideia na mão.
“Passamos anos despejando nosso trabalho, nossa habilidade e nossa criatividade em GTA, e queremos que as pessoas vivam o universo que ajudamos a construir”, diz o vídeo. “Isso não significa que queremos a Rockstar livre da responsabilidade.”
O pedido concreto vem logo depois. “Somos um sindicato pequeno, de base, com capacidade jurídica limitada, enfrentando uma empresa de bilhões de libras. Não entramos nessa rodada final em pé de igualdade”, dizem os demitidos. “Mas temos uma coisa que eles não têm: trabalhadores e gamers do mundo inteiro que acreditam no direito de se organizar.”
A alternativa ao boicote é comprar uma camiseta do IWGB, com estampas feitas pelos próprios demitidos, e a arrecadação vai para o fundo do processo. Camiseta contra bilhões de libras. É o que dá pra fazer quando o julgamento é em setembro e o caixa é esse.
Quem acompanhou o rato inflável que o sindicato da Bethesda colocou na porta já entendeu a lógica: sindicato de games no mundo anglófono trabalha com orçamento de vaquinha e visibilidade de meme.
O Stop Killing Games recusou a aliança em público
O Cyberleek encostou a pauta dele na do Stop Killing Games, o movimento que luta para que jogos comprados continuem jogáveis depois que o suporte oficial acaba. A exigência do modo offline é praticamente a bandeira do movimento.
O movimento devolveu na mesma hora.
“Não mandem dinheiro para essas pessoas, não importa quanta simpatia vocês sintam pelas ações delas”, disse Moritz Katzner, diretor-geral do Stop Killing Games. “Isso é ilegal e, sinceramente, a gente sente pelo pessoal da Rockstar que está passando por isso de novo.”
Katzner apontou para onde o estrago cai de verdade: “Por mais que você discorde das decisões da alta gestão dessas empresas, ainda existem milhares de desenvolvedores que trabalharam duro nesse projeto, e são eles que levam a pior.” E fechou a porta: “Usar meios ilegais para provar um ponto é inaceitável para nós e não faz nada para proteger nosso direito de continuar usando aquilo que pagamos.”
O mesmo movimento que tem um projeto de lei tramitando no Congresso brasileiro passou o dia se descolando do aliado que apareceu com a pauta pronta e um memecoin no bolso.
A pré-venda respondeu antes de todo mundo
Enquanto os três lados brigavam pelo microfone, os números já estavam fechados.
Segundo a consultoria Sensor Tower, GTA 6 vendeu cerca de 4,38 milhões de cópias em pré-venda até 18 de agosto, o mesmo dia do vazamento, somando US$ 429 milhões. Dessas pré-vendas, 89% são da Ultimate Edition de US$ 100, a versão mais cara. O PS5 responde por 77% do total.
No dia em que um grupo vazou o jogo para protestar contra a pré-venda digital, quase 9 em cada 10 pessoas que pré-compraram GTA 6 escolheram a edição mais salgada. O boicote que os demitidos pediram para não acontecer já não estava acontecendo.
Sobrou um retrato do estado da coisa. Um grupo anônimo vazou o jogo, queimou a pauta que dizia defender e ainda lançou uma moeda. Um sindicato com 31 demitidos e audiência marcada pediu que você comprasse o jogo da empresa que os demitiu. E o movimento que passou anos construindo credibilidade nessa pauta gastou o dia inteiro explicando que não tem nada a ver com aquilo.
Em 19 de novembro o jogo sai. Em setembro, antes disso, um juiz britânico decide se demitir 31 sindicalizados foi legal.
Uma dessas duas datas vai virar manchete no mundo inteiro.
Carla Mendes
Cobrindo esports desde 2018
Cobrindo cenário competitivo de esports desde 2018. Acompanha torneios e equipes profissionais.
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